segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Com Caetano Veloso, o Brasil é o Brasil e a gente vai

Gazeta da Torre

Músico e filhos fizeram 'live' com seu maiores sucessos, surpresas delicadas no repertório e política. Houve críticas a Bolsonaro e apelo pelos povos indígenas e pelo Balé Folclórico da Bahia.

Foram quase cinco meses de quarentena assistindo a um reality show com fragmentos do cotidiano de Caetano Veloso, filmado por uma insistente Paula Lavigne. A companheira e empresária do artista cobrou tanto por um show aos fãs que acabou popularizando nas redes sociais a hashtag #LiveALenda. Depois dos flashes de genialidade sobre os mistérios da kombucha, seu gosto por paçoca, suas críticas sobre como pessoas escrevem errado palavras relacionadas a sexo, suas leituras de Heidegger e Nietzsche, Caetano finalmente aceitou fazer a tão esperada live. O pijama ao estilo João Gilberto ficou de lado, mas o sapato dado de presente por Preta Gil estava lá. Estava também toda a potência de quem, aos exatos 78 anos na sexta-feira 7 de agosto de 2020, canta com voz limpa, reflete sobre si e sobre o mundo e tenta reanimar o Brasil.

Com seus três filhos, Moreno, Zeca e Tom, Caetano cantou grandes sucessos, alguns catapultados pelas novelas da Globo — que agora também lhe servia de palco, via streaming. Em Trilhos Urbanos, Reconvexo e Sertão fomos lembrados que o melhor desse Brasil é a Bahia. O novo baiano Moraes Moreira finalmente teve a homenagem que merecia. Morto em 13 de abril após sofrer um infarto, já em plena quarentena, foi lembrado em Coisa Acesa, samba que compôs com Fausto Nilo.

Teve também a envolvente Tigresa, inspirada na atriz Zezé Motta, assim como as recordações das dores de cotovelo com Queixa. Zeca cantou seu recente sucesso, Todo Homem, Tom lançou a sua Talvez e Caetano interpretou pela primeira vez Pardo, canção composta por ele no ano passado e gravada pela cantora Céu. Mas também fomos brindados com algumas pérolas sacadas do baú, como Diamante Verdadeiro, lindamente cantada por Maria Bethânia nos anos 70. Sucessos como Sampa, Qualquer Coisa, Leãozinho e Desde que o Samba é Samba não ficaram de fora.

E teve chamado à reação. Caetano recordou das centenas de mortes de indígenas durante a pandemia e cantou que “um índio descerá de uma estrela colorida, brilhante”. Fez questão de pedir apoio à mobilização da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil no domingo, assim como para a campanha de arrecadação do Balé Folclórico da Bahia. O protesto de quem se vê perdido diante de tanto sofrimento e incerteza política ganhou forma com “enquanto os homens exercem seus podres poderes / morrer e matar de fome, de raiva e de sede /são tantas vezes gestos naturais”. Caetano também nos fez lembrar, em Nine Out of Ten, que aqui estamos, vivos.

Em certo momento, fez uma crítica direta ao Governo Bolsonaro. “O negócio é duro mesmo, o Brasil não tem um ministro da Saúde que tenha chegado como tal. E o Ministério do Meio Ambiente parece ser contra o meio ambiente”, afirmou Caetano. “São situações muito graves que nós, os brasileiros, estamos enfrentando. Mas a gente vai? A gente vai, o Brasil é o Brasil”, completou. Soou como um chamado otimista, à resiliência, tingido de melancolia.

Foi o que fez Nú com minha música ganhar novas camadas de sentido: “Vejo uma trilha clara pro meu Brasil, apesar da dor / Vertigem visionária que não carece de seguidor / Nu com a minha música, afora isso somente amor / Vislumbro certas coisas de onde estou”. A live evocou a mesma fé convicta e corpórea que emerge de sua escrita em Verdade Tropical. “É que penso e ajo como se soubesse na carne quais as potencialidades verdadeiras do Brasil, por ter entrado num diálogo com suas motivações profundas —e simplesmente não concluo que somos um mero fracasso fatal”, escreveu Caetano no capítulo em que narra sua experiência no Carnaval de Salvador em 1972, auge da ditadura militar, depois de dois anos de exílio em Londres.

Na mesma sexta-feira em que ficamos sabendo da história de Matheus, um entregador de aplicativo negro que foi humilhado pelo cliente branco por causa de sua classe social e cor da pele, o enésimo caso de racismo sem pudor neste país, Caetano e seus filhos foram, em uma hora e meia de live, da celebração ao povo negro em Milagres do Povo ao samba de roda How Beautiful Could a Being Be. Tudo para lembrar que ainda existe um Brasil que vale a pena, e que está longe de ser um clichê. Como disse certa vez o escritor português Valter Hugo Mãe sobre Caetano e Chico Buarque, “em qualquer cabeça sã do mundo eles representam o Deus possível”.

*Fonte: El País


sexta-feira, 14 de agosto de 2020

PLUS SIZE – A SEU FAVOR: Conheça as peças que valorizam o seu corpo

 Gazeta da Torre

Até bem pouco tempo atrás, era quase impossível para quem vestisse acima de 48 encontrar uma peça em lojas convencionais. Simplesmente não existia. O homem ou a mulher que estivesse acima do peso não tinham praticamente nenhuma opção de compra que lhe agradasse, viviam a margem da sociedade quando o assunto era moda, porque nada encaixavam nela. Que a moda seja para todos!

E nada melhor que ampliar o leque de opções para quem deseja se vestir de maneira correta.

A nossa Consultora de Imagem e Estilo Fatima Fradique, selecionou vestidos, blazer e macacão, com dicas de ouro.  Com essas peças vocês irão entender como é fácil estar sempre bem- vestida. Assim, aprendam a usá-las sem erro!

CONFIRA A BAIXO:

1) LOOK: MACACÃO – (Com listras)

 

As listras na direção certa são truque perfeito para alongar a silhueta. O macacão aqui mostrado tem listras verticais, decote transpassado, manga ¾, e uma amarração na cintura. Tudo isso favorece e alonga a silhueta. Monte suas produções com listras a seu favor!

 2) LOOK: BLAZER

Com a capacidade de sofisticar qualquer visual, o blazer carrega consigo o poder de afinar a cintura e disfarçar aquelas gordurinhas indesejadas. A altura certa para seu uso é sempre no centro do quadril, tendo abertura que permita qualquer movimento dos braços. Quando usado com saia, fica bom para o dia a dia no escritório. Já com jeans, é despojado na medida certa!

3) LOOK: VESTIDO – ( Midi )

Abuse da técnica de unir tecidos neutros ou mesmo que destorçam nas laterais da peça, isso irá contornar e afinar a silhueta. O look aqui mostrado tem decote redondo, mangas curtas, recorte anatômico, contraste frontal. Ideal para corpos: retangular, triangulo invertido e oval.

4) LOOK: VESTIDO – ( Transpassado)

Eis aí um modelo que sempre funciona, e para qualquer tipo de corpo, estilo envelope!  Com ele pode dar uma aparência mais alongada e com efeito transpassado do tecido por toda a parte de baixo do corpo, criar cintura e movimento.

Espero que vocês aprovem as dicas. O ponto chave agora é com vocês! Ouse, permita-se e monte suas produções sem erro.

Facebook:  ( Fanpage ) Fatima Fradique 

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Instagram: @fatimafradiquecrc

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Agenda Cultural do Recife celebra 25 anos de atividades

 Gazeta da Torre

De tanto pautar várias gerações de recifenses em busca de programações culturais, atrações e atrativos, a Agenda Cultural do Recife virou a pauta. Para celebrar os 25 anos de atividades ininterruptas, que serão completados no próximo dia 31 de agosto, será oferecida, a partir desta quinta-feira (13), uma série de três lives com atores, produtores e realizadores culturais da cidade para tratar das tradições, vocações e prospeções da cultura na efervescente capital pernambucana.

A publicação, que começou impressa, com distribuição em vários locais e equipamentos culturais da cidade, hoje é virtual, disponível no endereço  http://agendaculturaldorecife.blogspot.com/ alcançando públicos cada vez maiores, do Recife e até de fora. “Lançamos a agenda virtual em 2011. E continuamos persistentes, tendo atingido, até o momento, mais de 2,6 milhões de pessoas do mundo inteiro. No último mês de julho, chegamos à marca de 175.687 leitores”, celebra o jornalista Manoel Constantino, que criou a página, mantida pela Prefeitura do Recife, por meio da Secretaria de Cultura e da Fundação de Cultura Cidade do Recife.

Atualmente, integram também a equipe da Agenda mais duas jornalistas: Érika Fraga e Lidiane Souza. “São 25 anos de grandes alegrias e de persistência, perseverança e muito amor pela arte. Acreditamos, sim, que as expressões artísticas nascidas em cada recanto da cidade são luminárias para as nossas mentes e corações, que nos fazem acreditar que a humanidade, em sua plenitude, sempre valerá a pena. Nós, que fazemos a Agenda Cultural do Recife, nos sentimos, aos 25 anos, gratos e, por mais difícil que seja o dia-a-dia do labor, nada nos fará desistir de levar a notícia e a informação sobre o fazer dos nossos artistas, tendo a certeza de que a produção cultural recifense é pedra fundamental na afirmação da cidade e do seu povo.”

As lives serão transmitidas no Instagram da Agenda Cultural (@agendaculturaldorecife_), nas quintas-feiras 13, 20 e 27 de agosto, sempre às 16h, com os seguintes temas e convidados:

Dia 13 - A Cultura e as crianças - Poeta Edgar Diz (Projeto Educando em Cordel) - Luciano Pontes (Doutores da Alegria) - Bruna Peixoto (Tapete Voador).

Dia 20 - A Cultura: ferramenta da cidadania - Mônica Lira, bailarina e coreografa - Camilo Cavalcanti, cineasta - Carlos Moura, empresário e dono do Bar Teatro Mamulengo

Dia 27 - A Cultura: um caminho poético de e para a liberdade - Maestro Forró, músico - Márcia Cruz, atriz e empreededora cultura - Felipe Júnior, poeta.

Prefeitura da Cidade do Recife

terça-feira, 11 de agosto de 2020

O lado chef de Lampião: do rústico ao luxo, como era a cozinha do cangaço

 Gazeta da Torre

Dois dias antes de morrer, na tarde de 26 de julho de 1938, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, fez uma lista de compras para a temporada que pretendia passar no acampamento na grota de Angico, a cerca de mil metros da margem sergipana do Rio São Francisco. No lado oposto, já no estado de Alagoas, funcionava uma das mais sortidas feiras da região, na linda cidade de Piranhas — localidade que, em 1859, recebeu a visita do então imperador Dom Pedro II.

Entre os itens que constavam da lista havia arroz, feijão, carne seca, farinha, sal, rapadura, frutas e muita, muita bebida. Coube a um jovem de sua confiança, o coiteiro Pedro de Cândido — que, mais tarde, mediante tortura, denunciaria a localização do grupo para a polícia — providenciar o abastecimento.

Como a lista era comprida, serviu-se de um jegue tão logo chegou a Piranhas. Equipou-o com dois cestos presos à cangalha e lotou-os de mantimentos. Horas depois, Lampião recebia, no conforto de sua barraca, os produtos que compunham a dieta básica dos cangaceiros.

Em épocas de deslocamentos, cangaceiros alimentavam-se, basicamente, de carne de sol e farinha. Conservada no sal, a carne resistia às altas temperaturas. Os produtos eram adquiridos nas feiras das pequenas cidades, ocasiões em que Lampião, segundo consta, pagava os preços cobrados pelos comerciantes, sem pechinchar — o choro por um desconto, prática habitual nestes comércios ao ar livre, era evitado por Virgulino.

As compras ficavam guardadas nos bornais, as bolsas típicas dos bandoleiros que até hoje inspiram estilistas. A água, mais difícil de transportar em grandes quantidades, era extraída das raízes do umbuzeiro, típica da caatinga, tida por alguns sertanejos como uma espécie de árvore sagrada.

Nos acampamentos, quando havia a oportunidade, abatia-se animais para o consumo de carne fresca. Bodes estavam entre os preferidos dos integrantes do grupo. Na véspera da chacina de Angico, na qual seriam mortos Lampião, sua companheira Maria Bonita e outros nove cangaceiros, o almoço consistiu de dois bodes assados — e enormes quantidades de cachaça.

Cabra macho na cozinha

Entre os cangaceiros, a culinária não era uma tarefa tida como essencialmente feminina — aqueles eram os anos 30 (Lampião morreu na tarde de 26 de julho de 1938), uma época em que poucos homens frequentavam a cozinha. Mas Lampião e seus súditos estavam habituados a preparar suas próprias refeições desde quando tocavam o terror pelo sertão sozinhos, sem a companhia das mulheres.

De forma geral, após a entrada das cangaceiras no bando, cabia a eles caçar os bichos e, a elas, lavar e temperar. Os cabras reassumiam o serviço no momento de levar as carnes ao fogo.

Para não chamar a atenção das forças volantes — os comandos de caça aos cangaceiros — o preferível era cozinhar à luz do dia. Uma fogueira em meio à escuridão poderia denunciar a localização do grupo.

Os bandoleiros também agiam assim porque, após a refeição, ainda haviam de lidar com um trabalho ingrato — abrir profundos buracos no chão para enterrar vísceras, ossos e pele dos animais abatidos. O objetivo era não atrair urubus — o voo das aves agourentas também poderia entregar o ponto exato do esconderijo.

Passarinho ao vinho

Havia ocasiões em que alguns cangaceiros cuidavam de todo o processo. Quando o pouso era confortável — por exemplo, nas fazendas dos coronéis aliados dos cabras — Lampião fazia as vezes de um chef de cuisine.

Quem experimentou assegura que o passarinho ao vinho, uma de suas especialidades, era iguaria de não deixar nada a dever aos melhores chefs da Europa — de onde vinham, inclusive, alguns dos itens mais apreciados pelo cangaceiro, como uísques e perfumes a ele ofertados por políticos e coronéis do nordeste.

*Adriana Negreiros - jornalista freelancer, ex-editora das revistas Playboy e Claudia;

*A fotografia que ilustra é, originalmente, em preto e branco. Ela ganhou cores pelas mãos do artista e geólogo Rubens Antônio, de Salvador, por meio da colorização digital;

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Paço do Frevo discute Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da ONU e Patrimônio Cultural

 Gazeta da Torre

Paço do Frevo, Recife/PE -  Foto:Andréa Rêgo Barros/PCR

O Paço do Frevo, Centro de Referência na salvaguarda do Patrimônio Imaterial mantido pela Prefeitura do Recife, engaja-se neste mês do Patrimônio — celebrado nacionalmente em 17 de agosto — em uma série de ações voltadas a estimular reflexões e atitudes frente aos desafios vivenciados no cotidiano patrimonial. Reconhecendo a importância de se prospectar pensamentos e ações que interliguem patrimônios locais a pautas e engajamentos globais, o Paço do Frevo promoverá o web encontro “Conversa Virtual: Projetos Culturais e a Agenda 2030”, no dia 18 de agosto, às 14h, em link de acesso que será enviado para quem se inscrever previamente.

A ação se desenvolve no âmbito da parceria estabelecida entre o Paço, a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e o Observatório de Políticas de Comunicação e Cultura (POLOBS) da Universidade do Minho, em Portugal, através do projeto transnacional “Cultura e Desenvolvimento: Projetos culturais e a Agenda 2030” idealizado e implementado pelo POLOBS.

O que é a Agenda 2030 e quais suas relações com o universo da cultura? Qual a importância dos objetivos do desenvolvimento sustentável da ONU para o fazer cultural, no Brasil? Quais as perspectivas de diálogo entre a Agenda 2030 e as práticas em cultura e patrimônio, em Pernambuco? Estas e outras questões serão debatidas, junto com o público, pelos convidados Vanessa Marinho, mestre em história e coordenadora de conteúdo do Paço do Frevo; o etnomusicólogo, pesquisador e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Carlos Sandroni; e o pesquisador e coordenador do Observatório de Políticas de Comunicação e Cultura (POLOBS) da Universidade do Minho em Portugal, Manuel Gama.

Criada em 2015 a partir de uma mobilização de diversos países ligados à Organização das Nações Unidas (ONU), a Agenda 2030 reúne uma série de diretrizes voltadas ao desenvolvimento humano e sustentável. Trata-se de um documento estruturado como plano de ação global que visa fortalecer a paz universal e a prosperidade de todos, protegendo os recursos naturais do planeta e promovendo sociedades mais justas.

Para tanto, o documento traz 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e 169 metas a serem cumpridas até o ano de 2030. Integrados e indivisíveis, os Objetivos se desdobram em dimensões ligadas ao desenvolvimento econômico, social e ambiental, almejando concretizar os direitos humanos de todos, alcançar a igualdade de gênero e o empoderamento feminino.

“Afora os compromissos e propostas mais voltadas ao todo, a Agenda 2030 traz, também, sugestões que, direta ou indiretamente, se relacionam com o universo da cultura e dos patrimônios”, comenta a Gerente Geral do Paço do Frevo, Nicole Costa.

“Neste sentido, Objetivos do Desenvolvimento Sustentável como ‘Assegurar a educação inclusiva e equitativa e de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos’ estão totalmente relacionados às missões de instituições museais ligadas ao patrimônio, como o Paço do Frevo. De igual forma, a Agenda 2030 contém itens ligados diretamente ao patrimônio, como ‘Fortalecer esforços para proteger e salvaguardar o patrimônio cultural e natural do mundo’”, complementa.

Serviço:

Data: 18/08/2020

Hora: 14h

Local: Plataforma Virtual - link para acesso será enviado mediante inscrição prévia, sujeito a lotação

Inscrições gratuitas até o dia 14/08 através do link: https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSemQ2X_DSQ41iiQl2xth-6GE39C-3Qh0B92n9Xt8LLdk_ySDw/viewform

(a confirmação será enviada por email um dia antes da realização da ação)

Público-alvo: estudantes, pesquisadores, brincantes, produtores e demais interessados no tema.

*Prefeitura da Cidade do Recife

1,5 milhão de crianças sem creches e 11 milhões de analfabetos: os desafios urgentes para o Brasil 'passar de ano' na educação

 Gazeta da Torre

Relatórios apontam lentidão em cumprimento de grande parte das metas do Plano Nacional de Educação, que prevê objetivos a serem alcançados até 2024 em temas como permanência dos jovens nas escolas, adequação idade-série, nível de aprendizagem e financiamento do ensino público.

Alguns dias antes da posse do novo ministro da Educação, Milton Ribeiro, em 16 de julho, um relatório oficial voltou a jogar luz sobre os desafios das escolas brasileiras para atingir patamares adequados de inclusão e de ensino de qualidade — desde um significativo déficit de vagas na educação infantil até a dificuldade em manter os adolescentes na escola e com alto nível de aprendizagem.

Esses desafios constam do Plano Nacional de Educação (PNE), aprovado em lei em 2014 pelo Congresso e que estabelece um conjunto de 20 metas e submetas para o ensino no Brasil, a serem cumpridas entre 2015 e 2024. Essas metas abrangem, por exemplo, a universalização do ensino, a erradicação do analfabetismo e valorização da carreira de professores.

As metas são monitoradas por 57 indicadores. Deles, apenas 7 (ou 13,4%) foram cumpridos até agora, segundo o relatório do governo. Em 41 indicadores (ou 73% do total), passou-se da metade do patamar previsto pela meta (veja mais detalhes abaixo), segundo um relatório de monitoramento divulgado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Anísio Teixeira (Inep), autarquia ligada ao Ministério da Educação, no início de julho.

Segundo o Inep, o "nível médio de alcance das metas está em 76,22%".

"Reconhecer esses números é rejeitar a compreensão simplista que afirma que 'tudo vai mal na educação brasileira'; é reconhecer o esforço coletivo dos profissionais da educação que, mesmo que enfrentem adversidades, apostam na escola como o local da esperança e da transformação nacional", diz o relatório do Inep, destacando, porém, que "os resultados estão bastante aquém daqueles que desejamos para a educação nacional".

Para a Campanha Nacional Pelo Direito à Educação, entidade que também monitora em relatório o avanço do PNE, os números até agora apontam para um "descumprimento quase total da lei".

"No ritmo que se tem avançado, cerca de 85% dos dispositivos (indicadores) das metas do PNE não serão cumpridos até o prazo de 2024", critica a organização em nota, em junho, acrescentando que, em alguns pontos, há estagnação ou mesmo retrocesso.

Embora o ritmo lento venha desde antes do governo atual e alguns problemas sejam de longa data, críticos afirmam que, sob Jair Bolsonaro — que tem em Milton Ribeiro seu quarto ministro da Educação em um ano e meio de mandato —, o ministério vive um cenário de paralisia, com poucos projetos voltados aos problemas-chave do ensino e com baixa capacidade de execução.

Em entrevista coletiva sobre o relatório, o presidente do Inep, Alexandre Lopes, disse que o cumprimento das metas do PNE exigirá também o esforço de Estados, municípios e universidades, e citou a crise financeira do país. "O MEC (Ministério da Educação) se enfraquece um pouco diante da questão fiscal que o Brasil vive", afirmou.

A BBC News Brasil destaca, a seguir, alguns dos principais gargalos apontados pelo relatório do governo, que desafiam as políticas públicas do país:

Mais crianças nas creches e pré-escolas

A fila de espera por creches nas cidades do país ilustram um desafio nacional: ainda é preciso incluir 1,5 milhão de crianças de zero a três anos em creches até 2024. É o que prevê a Meta 1 do Plano Nacional de Educação.

Em 2018, segundo o relatório do Inep, o Brasil conseguiu ofertar vagas para 35,7% das crianças nessa faixa etária (ou 3,8 milhões), e o objetivo é chegar até 50%.

Esse acesso também é bastante desigual entre as crianças mais vulneráveis e as que vivem em famílias com boas condições financeiras: "A diferença no acesso (a creches) entre as crianças 20% mais ricas e as 20% mais pobres é de 25 pontos percentuais", explica à BBC News Brasil Anna Helena Altenfelder, diretora-executiva do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec).

A meta 1 do PNE também previa que todas as crianças de 4 e 5 anos estivessem matriculadas na pré-escola até 2016 — o que não aconteceu até hoje. Ainda faltam vagas para estimadas 330 mil crianças, segundo dados de 2018.

"Também não podemos perder de vista a necessidade de garantir a qualidade do ensino para todas as crianças da educação infantil", aponta o Observatório do PNE, feito pelo movimento Todos Pela Educação. Alguns especialistas apontam que, para crianças pequenas, uma creche de má qualidade (sem estímulos e cuidados adequados) pode ser ainda pior para o desenvolvimento social e cerebral do que não estar na creche.

Em contrapartida, oferecer mais vagas em instituições públicas de qualidade pode ajudar as crianças pequenas a desenvolver habilidades e funções cognitivas úteis ao longo de toda a vida.

São, também, consideradas um passo importante para permitir o acesso de mães ao mercado de trabalho.

A persistência do analfabetismo — absoluto e funcional

O Brasil conseguiu praticamente alcançar, em 2019, uma meta que estava prevista para quatro anos antes: alfabetizar 93,5% de sua população com mais de 15 anos. Mas, na prática, ainda faltam 11 milhões de brasileiros a serem alfabetizados até 2024 — um contingente equivalente à toda a população do Estado do Paraná.

E se o analfabetismo absoluto persiste, o analfabetismo funcional é ainda mais abrangente.

Ser analfabeto funcional significa ser capaz de ler e escrever, mas ter dificuldade em entender e interpretar textos, em identificar ironias ou sutilezas nesses textos e em fazer operações matemáticas simples em situações cotidianas.

A Meta 9 do PNE é de reduzir o índice de analfabetismo funcional pela metade nos próximos quatro anos. Como base, o Inep usa os dados de uma pesquisa do IBGE, que apontava 18,5% de analfabetismo funcional na população em 2012. O objetivo, portanto, é baixar esse índice para 9,2% até 2024.

Mas alguns outros indicadores apontam que esse problema pode ser ainda mais amplo: segundo o Indicador de Analfabetismo Funcional (Inaf) de 2018, praticamente 30% da população entre 15 e 64 anos tinha essa dificuldade em leitura e compreensão.

No que diz respeito às crianças pequenas, a meta é garantir até 2024 que todas estejam alfabetizadas, no máximo, até o final da terceira série do ensino fundamental, por volta dos 8 anos de idade.

Os dados mais recentes da Avaliação Nacional de Alfabetização, de 2016, apontam que apenas 45,3% das crianças nessa etapa tinham aprendizagem adequada em leitura, 66,1% em escrita e 45,5% em matemática.

O Ministério da Educação, sob o governo Bolsonaro, lançou no início do ano o programa Tempo de Aprender, que prevê ações de incentivo à alfabetização para as redes estaduais e municipais que aderirem. O MEC afirma que 3.231 municípios e Estados aderiram ao programa até maio.

Mas Altenfelder, do Cenpec, afirma que o programa não pode ser considerado uma política pública. "É um programa com algumas diretrizes feito em total falta de diálogo com os municípios e com a produção acadêmica nacional (sobre os processos de alfabetização)", diz.

Muitos jovens fora da escola ou atrasados no ensino

A cada 100 crianças brasileiras que entram no ensino fundamental, apenas 65 concluem os estudos, explica Ricardo Henriques, superintendente-executivo do Instituto Unibanco. "Os que terminam já são sobreviventes", diz ele.

Ou seja, ao longo dos 12 anos da educação básica, muitos alunos ficam pelo caminho — ou porque não conseguem acompanhar as aulas, porque perdem o interesse na escola ou porque precisam trabalhar, por exemplo.

O custo anual da evasão escolar é de R$ 214 bilhões, ou 3% do PIB (Produto Interno Bruto), por conta do impacto do abandono nas possibilidades de emprego, renda e retorno para a sociedade das pessoas que não concluem a educação básica, segundo cálculos do economista Ricardo Paes de Barros.

Especialistas temem que esse quadro de evasão escolar se agrave com a atual pandemia.

Algumas metas do PNE se referem justamente a manter os jovens por mais tempo na escola e para concluir as etapas da educação na idade certa, por exemplo:

- Garantir que, até 2024, 95% dos alunos concluam o ensino fundamental até os 16 anos (por enquanto, esse índice é de 75,8%, segundo dados de 2018).

- Matricular todos os jovens de 15 a 17 anos na escola até 2016 (meta que já foi descumprida, uma vez que, segundo os dados mais recentes, 8,5% desses jovens ainda estão fora da escola).

- Elevar a escolaridade média da população de 18 a 29 anos, para que todos tenham completado 12 anos de educação formal até 2024. A meta prevê também reduzir as diferenças entre população rural e urbana, entre negros e não negros, e aumentar o tempo de escolaridade no Nordeste do Brasil (que tem os menores índices do país).

Até 2015, porém, segundo o Observatório do PNE, a escolaridade média da população do campo era de 8,3 anos; a da população do Nordeste, de 9,3 anos e a dos negros, 9,5 anos (contra 10,8 anos da média da população branca).

- Garantir que, até os próximos quatro anos, 85% dos jovens estejam no ensino médio, ou seja, nas séries corretas para a sua idade. Ainda estamos longe disso: apenas 68,7% dos adolescentes dessa idade cursavam o ensino médio até 2018.

O desafio, segundo o Observatório do PNE, é "tornar o ensino médio mais atrativo, com a diversificação do currículo, (...) introduzir uma melhor qualidade e equidade e reduzir as taxas de evasão na etapa".

Também é um desafio colocar em prática a Base Nacional Comum Curricular do ensino médio — um conjunto de diretrizes para essa etapa que ainda não se traduziu em ações práticas nas escolas. Nesta semana, São Paulo anunciou ser o primeiro Estado ter formulado um currículo para o ensino médio tendo a base como referência, para começar a ser implementado em 2021.

No geral, diz o relatório do Inep, "as questões mais preocupantes em relação à educação brasileira continuam sendo o baixo nível de aprendizado dos alunos, as grandes desigualdades e a trajetória escolar irregular, que ainda atinge porção significativa dos estudantes das escolas públicas brasileiras".

Mais dinheiro para a educação pública

A meta final do PNE determinava aumentar o investimento público na educação, para alcançar 7% do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro até 2019 e 10% até 2024.

"No entanto, os resultados observados de relativa estagnação dos gastos em torno de 5% e 5,5% do PIB, com indicativo de pequena queda, apontam grande desafio para o atingimento das metas intermediária e final", diz o relatório do governo.

Neste mês, a Câmara dos Deputados aprovou a proposta de emenda constitucional do novo Fundeb, fundo que financia a educação básica. O texto aprovado prevê mudanças nos aportes públicos à educação que, segundo especialistas, podem aumentar o montante investido nas escolas e garantir que mais municípios pobres recebam recursos.

A proposta, agora, tramita no Senado.

O Plano Nacional de Educação tem muitas outras metas. Por exemplo, aumentar a oferta de escolas em tempo integral; melhorar a formação e equiparar o salário médio de professores da rede pública aos profissionais com o mesmo nível de escolaridade (em 2015, os docentes ganhavam apenas 52,5% do salário médio das pessoas com escolaridade semelhante); triplicar as matrículas na educação profissional e aumentá-las no ensino superior; entre outras.

Muitas delas ainda permanecem distantes de seu cumprimento, e muitos especialistas da educação pedem mais protagonismo do MEC no esforço para alcançá-las.

"Neste ano e meio (de governo Bolsonaro) infelizmente não vimos nada (em iniciativas) de implementação ou acompanhamento das metas do PNE", diz Altenfender, do Cenpec.

Onde o Brasil avançou

Alguns pontos em que o Brasil avançou, em contrapartida, são o aumento da nota média das crianças da 1ª à 5ª série (a nota média de 5,7, almejada para 2019, foi ultrapassada ainda em 2017), embora preocupe o fato de que, depois da quinta série, o desempenho dos alunos comece a cair.

No ensino superior, o Brasil bateu a meta de ter mais de 75% dos professores de educação superior com cursos de mestrado ou doutorado e também já tem, desde 2017, mais de 60 mil pessoas com títulos de mestrado (outra meta do PNE).

Outro avanço é que 98% das crianças brasileiras de 6 a 14 anos estão matriculadas no ensino fundamental — perto de universalizar o acesso, esperado para 2024. O problema é que esses 2% restantes fora da escola "são, na maioria, famílias mais pobres, negras, indígenas e com deficiência", exigindo políticas públicas específicas para garantir que elas de fato consigam estudar, diz o Observatório do PNE.

Para Anna Helena Altenfelder, apesar dos enormes desafios restantes, é um erro achar o Plano Nacional de Educação "inexequível".

"O plano não é uma utopia", diz ela. "Ele tem uma força grande pela forma como foi construído (aprovado pelo Legislativo), de modo participativo, e por ser um parâmetro de referência para secretários de Educação estaduais e municipais. Ele é a síntese das aspirações do Brasil para a educação."

Fonte: BBC News Brasil

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

A história de Vinicius de Moraes, contada pela neta Mariana, revela o artista que exaltou a alma brasileira

Gazeta da Torre
 A neta Mariana  - Vinicius de Moraes (Foto montagem)

Em homenagem aos 40 anos de morte do poeta, a atriz e cantora Mariana de Moraes resgata em curso as histórias por trás das canções e poemas do avô, que fez o Brasil grande mundo afora.

Vinicius de Moraes (1913-1980) sempre escreveu canções, desde muito jovem, mas o fazia às escondidas. Para um jovem poeta cultuado na Academia, pegava mal ser compositor. “Era como se ele tivesse duas personalidades que se ocultavam mutuamente, uma não contava que existia para a outra”, comenta a atriz e cantora Mariana de Moraes, de 50 anos, neta do Poetinha que cantou como ninguém o amor e a saudade. A primeira composição foi feita aos 15 anos, em 1928, mas Loura ou morena só foi musicada em 1932, por Haroldo Tapajós. Agora, em homenagem aos 40 anos de sua morte, Mariana resgata as histórias por trás dessa e de outras letras e poemas do avô em um curso online de quatro aulas. Em 25 de janeiro, aniversário da cidade de São Paulo, ela iniciou as homenagens com um show cantando o repertório de Vinicius, que pretendia transformar em álbum ainda neste ano. Mas a pandemia do novo coronavírus atrasou os planos.

Ao longo de quase 30 anos de carreira, Mariana, que é filha do fotógrafo Pedro de Moraes e da atriz Vera Barreto Leite, participou de diversos projetos mundo afora sobre Vinicius e, ainda que até este ano não tivesse gravado as músicas do avô, sempre debruçou-se sobre a obra dele. “Não por ser neta, mas por ser uma fiel seguidora do João Gilberto, que foi o primeiro e grande intérprete do Vinicius”, diz ela. Atriz de formação —e discípula do Teatro Oficina de Zé Celso—, Mariana sempre mistura poesia, histórias e música em seus shows. A oportunidade de preparar um curso sobre o avô, que começa no dia 10 de agosto, deu-lhe a ideia de levar suas histórias aos palcos, quando a quarentena acabar. “Quero contar as histórias dele, a história das músicas dele e dos valores éticos que ele passou para a família, sobre como viver a vida”.

Uma dessas histórias é sobre como o jovem poeta consagrado, que recebeu uma bolsa de estudos para a Universidade de Oxford, conheceu aquele com quem construiria quiçá a maior parceria do cancioneiro brasileiro: Tom Jobim. Vinicius escreveu a peça O Orfeu da Conceição e moveu mundos e fundos —pedindo empréstimos a amigos e endividando-se— com o sonho de encená-la no Teatro Municipal. Enquanto buscava um compositor para o musical, conheceu Tom Jobim. E o sonho deu certo. A peça foi apresentada durante três noites e entrou para a história como a primeira vez em que 36 negros apresentaram-se no panteão das artes cênicas brasileiras. O Orfeu da Conceição viria a se tornar o filme Orfeu Negro (ou Orfeu do Carnaval), de 1959, dirigido pelo francês Marcel Camus, que ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e a Palma de Ouro em Cannes.

“Em alguns de seus textos, Vinicius revela o desenvolvimento dessa ideia de transpor o mito grego de Orfeu para a favela carioca e de ele não ser um herói helênico que toca lira, mas um negro que toca violão”, conta Mariana, que destaca a admiração de Vinicius por toda a cultura africana e afrobrasileira. Não à toa, uma das aulas do seu curso será dedicada aos afro-sambas que Vinicius compôs com o amigo Baden Powell. “Uma das grandes bandeiras na vida de Vinicius era mostrar que a arte popular não é menor que a arte erudita ou acadêmica e ousar unir ambas. A trajetória dele mostra como essa poesia erudita se infiltrou no artista popular e fez com que a música no Brasil ganhasse uma dimensão que nunca tinha tido”, diz Mariana.

Dessa fusão surgiu a bossa nova e sua santíssima trindade: Vinicius, Tom e João Gilberto. “Essas e outras amizades são um capítulo muito importante da vida dele. Todo mundo fala das nove mulheres que ele teve, mas, na verdade, o que ele mais cultivou foram amigos, de todas as áreas”, afirma a neta. De Pablo Neruda a Carybé, Manuel Bandeira, Rubem Braga, o mestre Pixinguinha, até Carmen Miranda e o cineasta Orson Welles, quem conheceu em Los Angeles, o primeiro posto de Vinicius de Moraes como adido cultural do Itamaraty.

Foi precisamente depois de ele deixar a carreira de diplomata, que exerceu entre 1943 a 1963, que Mariana conviveu mais tempo com o avô, que morreu quando ela tinha 11 anos, no dia 9 de julho de 1980. “Quatro anos antes disso, fui viver o exílio na França com meus pais. Foi justamente nesse período que ele foi demitido do Itamaraty pela ditadura militar e ficou livre para ser um artista de palco. É sua fase popstar”, lembra ela, referindo-se aos shows que Vinicius passou a fazer no exterior. “Ele sempre me levava aos shows que fazia em Paris e, pelo menos três vezes no ano, era a única pessoa da família que eu encontrava. A lembrança que eu tenho é de um avô muito amoroso”.

Mariana, que cantava com afinação desde pequena, era um dos xodós do poeta. “Ele tinha o maior orgulho de mim porque eu cantava e era uma criança afinada que sabia todas as músicas do João Gilberto”, ri ela, que lembra com carinho de quando Vinicius lhe presenteou com um gravador para que ela treinasse como cantora. Mariana fala com igual carinho da tia, Susana de Moraes, primogênita de Vinicius. “Ela fez por mim o que ele teria feito, foi uma grande amiga e conselheira”. Foi a tia quem aconselhou Mariana a não cantar o repertório do avô enquanto não tivesse uma carreira consolidada. “Ela dizia que primeiro eu tinha que me colocar no mundo e ser reconhecida pela minha própria voz”, diz Mariana sobre a tia, para quem Vinicius compôs Valsa de Eurídice, para celebrar seus 15 anos, muito antes de lançar-se oficialmente como compositor.

Vinicius atemporal

Mariana ressalta que a figura de Vinicius de Moraes, assim como sua obra, é atemporal, apesar de, segundo ela, “estar fora de moda” atualmente no Brasil. “Os artistas do país estamos abandonados. A música popular brasileira está abandonada no Brasil. É uma tristeza, porque o que a música popular deu para o Brasil, como o futebol no esporte, foi uma identidade. Desde o Cartola ao [Heitor] Villa-Lobos.”, lamenta ela, que critica a falta de política cultural do Governo de Jair Bolsonaro.

A artista acredita que, se estivesse vivo hoje, o avô se posicionaria, “com seu pragmatismo amoroso”, contra essa realidade. “Ele foi importante para a carreira de praticamente todo mundo que faz música popular brasileira hoje. Tenho certeza que, se estivesse aqui, estaria usando de seu privilégio para colocar-se politicamente contra o atual panorama sociopolítico do país, de fascismo, racismo, ignorância”, diz e logo acrescenta, saudosa: “Como eu gostaria de ter tomado um porre com meu avô!”.

Mas, mesmo em meio à realidade menos romântica que as canções do Poetinha, é também nas memórias do avô que Mariana encontra paralelos e lampejos de esperança. “Achei outro dia um texto dele sobre a Segunda Guerra Mundial, em que ele fala da dor daquele momento e chega a usar a palavra quarentena ao referir-se à situação dos familiares dos soldados que foram para a Guerra. Foi um momento difícil, mas que passou”. Como escreveu em Chega de saudade, Vinicius de Moraes faz lembrar que o amor prevalece e que “a distância não existe”.

*Joana Oliveira, El País

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

“Não há condição para retomada das aulas presenciais em 2020”

Gazeta da Torre

 O diretor da FE, Marcos Garcia Neira,
na cerimônia de posse em junho de 2018
Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Na opinião de Marcos Neira, diretor da Faculdade de Educação da USP, neste momento será impossível assegurar que os estudantes guardem as medidas de biossegurança de propagação do vírus.

Mesmo com a pandemia do novo coronavírus agravada após mais de quatro meses de suspensão das aulas escolares, com uma média móvel de mais de 40 mil casos e mil óbitos diários nos últimos sete dias, redes de ensino como a do Estado de São Paulo querem retornar às aulas presenciais em setembro. Diante dessa possibilidade, a Congregação da Faculdade de Educação (FE) da USP, reunida em 30 de julho, manifestou repúdio para a possibilidade de volta às aulas nas escolas.

“Não há qualquer condição para a retomada das aulas presenciais ainda este ano. Assim como a USP optou por manter as atividades remotas até o fim do ano letivo, sugerimos que o mesmo procedimento seja seguido da educação infantil ao ensino superior, tanto público como privado”, recomenda o professor Marcos Neira, diretor da FE-USP, em entrevista ao Jornal da USP no Ar. Ele ressalta que qualquer educador tem consciência de que “será impossível assegurar que crianças, adolescentes, jovens e adultos guardem as medidas de biossegurança que impeçam a circulação e propagação do vírus”.

Outro ponto abordado foi a quantidade de profissionais que fazem parte do grupo de risco e que deveriam permanecer afastados de suas atividades presenciais, pois estes, juntamente com demais membros da comunidade escolar, estariam mais vulneráveis. Em nome da Congregação, Neira diz reconhecer a insuficiência do ensino remoto para aprendizado de todos os estudantes, bem como as dificuldades de acesso e domínio de ferramentas virtuais pelos professores, pais e alunos. Contudo, há uma compreensão de que, nas atuais circunstâncias de índices de contaminação e mortes apresentados pelas Secretarias Estaduais de Saúde e o Ministério da Saúde, a prioridade deve ser dada às questões de saúde pública.

Para as aulas remotas, diversas redes de ensino municipais tiveram que buscar outros meios de envio de atividades aos alunos sem internet ou com acesso limitado. “[Mas] não podemos reduzir a atividade remota emergencial ao acesso à internet. A gente precisaria ter tido no começo a democratização desse acesso e isso faltou”, lamenta Neira. Para ele, seria necessário convênios com empresas de telecomunicações distribuidoras de internet, Secretarias apoiando professores na produção de materiais didáticos e uma reelaboração do currículo escolar com atividades mais dinâmicas, já que “trabalhar neste momento não significa reproduzir as aulas que se faziam em sala de aula, significa repensar as formas de fazer isso”.

Passado tudo isso, com um retorno seguro lá na frente, os desafios serão enormes para a reorganização de projetos pedagógicos das escolas e faculdades. Também será preciso levar em consideração o que as crianças, jovens e professores da educação básica sentiram nesse período. “Quem sabe possamos definir temáticas que ajudem as crianças a compreenderem o momento do retorno”, projeta Marcos Neira. Isso se daria ao levar o entendimento do porquê a sociedade precisa mudar, já que nossa triste realidade fez com que muitas pessoas fossem atingidas pela pandemia em função de condições sanitárias e de saúde insuficientes.

“Nós vamos continuar com essa sociedade? Fingiremos que nada disso aconteceu? Não tiraremos nenhuma lição dessa situação triste? Precisamos aprender [com a pandemia] e também nos preparar, porque outras virão. Se não agora, daqui a dez, 15, 20 anos”, alerta o professor.

Jornal da USP

terça-feira, 4 de agosto de 2020

A fiscalização continua - PCR notifica 42 estabelecimentos no 2º fim de semana após permissão para funcionamento

Gazeta da Torre


O fim de semana foi de muita fiscalização para as equipes da Prefeitura do Recife envolvidas no combate ao contágio em massa pela covid-19. Fiscais da Vigilância Sanitária, Dircon, Procon Recife e Brigada Ambiental percorreram cerca de 260 bares, restaurantes, cafeterias e lanchonetes entre a sexta-feira (31) e o domingo (2) e registraram 42 notificações por irregularidades. O objetivo da ação é assegurar o cumprimento das regras de convivência com a doença na abertura gradual de segmentos econômicos e sociais na cidade. Desde o último dia 20, mais de 60 profissionais têm realizado operações e já vistoriaram mais de 880 academias e estabelecimentos alimentícios que voltaram a poder permitir o consumo dos clientes nas suas instalações. As ações de fiscalização e orientação da Prefeitura do Recife acontecem diariamente e contam com o apoio da Polícia Militar.

Para a gerente-geral de Controle Urbano do Recife, Cândida Bomfim, o trabalho é importante e precisa contar com a colaboração da população, seja dos proprietários dos empreendimentos ou dos clientes. "Todos têm papel fundamental nessa luta, seja no respeito às normas ou no auxílio à fiscalização", comenta. Ela frisa que os contatos da PCR podem e devem ser utilizados pelo cidadão que encontrar alguma irregularidade. 

Em fiscalizações conjuntas e isoladas de cada órgão ao longo dos últimos dias, os profissionais da PCR têm verificado o cumprimento dos novos protocolos estabelecidos pelo Governo do Estado, como o limite de atendimento presencial a até 50% da capacidade de lotação, o uso obrigatório de máscaras, a higienização dos ambientes, o encerramento das atividades às 20h, o distanciamento entre as mesas de grupos de clientes diferentes e o limite permitido de decibéis para som ambiente.A Prefeitura do Recife orienta os empresários a colocar, em local de grande visibilidade, cartazes contendo os protocolos que devem ser cumpridos pelos clientes.

As regras atuais não permitem a realização de shows e apresentações musicais ao vivo e determinam que os bares e restaurantes que colocam música ambiente respeitem o limite de 35 decibéis. * “É primordial que os estabelecimentos cumpram as exigências legais para reabertura e a redução dos níveis de decibéis imposta durante este período visa garantir o sossego público. Os agentes de combate à poluição sonora realizam todo o trabalho de conscientização, assim como notificam previamente as irregularidades e em caso necessário apreendem equipamentos não regulados”, pontua  o secretário de Meio Ambiente e Sustentabilidade, José Neves Filho.*

Contatos para denúncia de irregularidades:

- Procon Recife: pelo e-mail procon@recife.pe.gov.br

- Vigilância Sanitária do Recife: 3355.1878

- Dircon, pelos e-mails: Regional Centro-Oeste: centrooestedircon@gmail.com; suldircon@gmail.com ou nortedircon@gmail.com, de acordo com a localização do estabelecimento

- Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade - 0800.720.4444, de segunda a sexta, das 8h às 17h.

*Prefeitura da Cidade do Recife

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Os efeitos de fazer esporte usando máscara e qual é a mais indicada para a prática

Gazeta da Torre

Os efeitos de fazer esporte usando máscara e qual é a mais indicada para a prática

"Se a máscara não for confortável, é possível que a pessoa perceba que respira pior e que isso afeta seu rendimento", diz um especialista

Cada vez são mais numerosas as cidades e países que tornam obrigatório o uso de máscaras, tanto nos espaços fechados como na rua (mesmo quando é possível manter os dois metros de distância social). Mas fazer exercício continua sendo a exceção à regra, e aqui cada um pode tomar a decisão que quiser. Alguns colocam um tipo de lenço, outros usam as máscaras cirúrgicas, as higiênicas ou as FFP2. Há também quem prefira investir numa versão criada especificamente para a prática esportiva, embora nem todas as marcas relacionadas com os exercícios tenham essa característica. Como não poderia deixar de ser, também existem as pessoas que deixam de usar máscaras dizendo que ficam molhadas com o suor, são desconfortáveis ou dificultam a respiração. Mas até que ponto esses argumentos são certos? Usar máscara afeta o rendimento esportivo? E, se queremos usar alguma, qual é a mais adequada?

Antonio Montoya-Vieco, doutor em Ciências da Atividade Física e do Esporte e treinador da Unidade de Saúde Esportiva do Vithas Hospital 9 de Octubre, em Valência (Espanha), foi atrás da resposta. Para isso, submeteu a uma prova de resistência três grupos de corredores e corredoras, com diferentes níveis de aptidão, para analisar os efeitos do uso da máscara. Especificamente, ele analisou a 42k 3D-SPORT, que, segundo os fornecedores, é higiênica e reutilizável, além de ser projetada para favorecer a máxima transpirabilidade, ergonomia e conforto durante a atividade física. Com a peça colocada, Montoya-Vieco registrou os dados de frequência cardíaca, os níveis de lactato no sangue (indicador de cansaço), a saturação parcial de oxigênio e o esforço percebido (uma variável subjetiva), enquanto os participantes corriam em diversos ritmos em faixas de dois e quatro minutos, com um minuto de recuperação a cinco minutos o quilômetro.

As conclusões indicam que a experiência muda, mas pouco. “Em todas as variáveis que analisamos, os valores aumentaram ligeiramente”, explica. A frequência cardíaca subiu entre 3% e 9%, e a diferença de saturação parcial de oxigênio, entre 0% e 2%. Algo que preparador físico não considera significativo. Os níveis de esforço percebido aumentaram entre 13% e 50%. “Quanto maior o valor numérico, interpreta-se que o esforço realizado pelo atleta é maior. Se a máscara não for confortável, é possível que a pessoa perceba que respira pior e que isso afeta seu rendimento”, esclarece. Os valores do lactato no sangue também aumentaram entre 1% e 71%, mas Montoya-Vieco diz que isso é normal quando passamos do repouso para o exercício.

Se algumas pessoas demonizam o uso da máscara no exercício, outras afirmam que ela poderia nos deixar mais fortes. Nas últimas semanas, usuários de redes sociais disseram que o acessório, ao dificultar a inspiração, poderia fortalecer os músculos respiratórios como o diafragma. Mas o fato é que as máscaras não são nem tão ruins nem tão boas. “Não considero que uma máscara esportiva — e menos ainda a empregada nesse estudo, após conhecer seus resultados — sirva para fortalecer o treinamento da musculatura respiratória. Se fosse assim, os atletas teriam começado a usá-las antes da covid-19”, diz o preparador físico.

Ser de marca esportiva não torna a máscara apta para exercício

Se você decidir utilizar máscara para fazer esportes, o melhor é escolher a mais adequada. Diferentes marcas famosas de materiais esportivos entraram na onda e colocaram à venda seus modelos têxteis entre os objetos da moda de 2020. Mas muitas delas, como Reebok e Adidas, cujas remessas esgotam toda vez que chegam ao mercado, advertem que o acessório “não é indicado para uso médico nem como equipamento de proteção individual”, embora possa ajudar a prevenir a propagação do vírus e dos germes pela transmissão de gotículas respiratórias”. Outras empresas, como a da máscara testada por Montoya-Vieco, desenvolveram alguns modelos aptos para a atividade física.

O importante é conseguir um equilíbrio entre a autoproteção (por meio de filtros homologados), um bom ajuste, a respirabilidade e a reutilização (após lavagem a 60 graus). A máscara da marca espanhola Idawen, explica sua cofundadora, Lara Harranz, consegue isso graças a um tecido técnico e elástico de Neoprene ultralight de dois milímetros de espessura com rede 3D de poliéster e malha elástica. “Também desenvolvemos dois filtros intercambiáveis para usar conforme seja ou não possível manter a distância social. Se for grande, aconselhamos o filtro de proteção antibacteriana confeccionado com Lyocell, com valores de filtragem bacteriana de 98,91% BFE, uma respirabilidade de 28 pa/cm2, lavável e que siga a regulação da Associação Espanhola de Normalização UNE0065: 2020. Para os casos de maior proximidade social, aconselha-se o filtro F9 segundo a norma EN-779:2012. Esse equipamento protege entre 75% e 85% contra os vírus, com valores compatíveis com a norma UNE-EN 149:2001+A1, próximos aos das máscaras FFP2.”

Garantida a proteção, é hora de evitar a sensação de asfixia. Ou seja, que o ar circule bem e que a umidade não se acumule, transformando a máscara numa espécie de pano úmido. “Sabemos como essa sensação pode ser desagradável. Por isso, incorporamos duas válvulas de exalação que são colocadas sobre o filtro e permitem expulsar o CO2 e a umidade”, diz Harranz. E acrescenta um detalhe: o fechamento é com velcro, não com borracha elástica. Um alívio para quem reclama que as máscaras apertam nas orelhas. Mas também para os carecas, esse coletivo no qual ninguém repara e cujos crânios desprotegidos sofrem muito com as borrachas. “No âmbito esportivo, o conforto e a adesão das peças é fundamental, já que você está em constante movimento. Fabricamos as máscaras com material elástico, mas é preciso ajustá-lo. Daí a importância do velcro e dos tamanhos”, explica.

A empresa 226ers fabrica sua Hydrazero mask em tafetá de microfibra hidrófuga em poliéster repelente a líquidos, com uma filtragem de 96% segundo a norma UNE-EN 149:2001+A1-2010. O design das borrachas de ajuste faz lembrar os óculos de nadar: são dois elásticos que cada usuário pode colocar da maneira que for mais confortável. Acostumada a equipar os ultramaratonistas (que disputam corridas mais longas que uma maratona), a empresa Buff não teve dúvida: era preciso incorporar duas tiras muito largas e ajustáveis para conseguir um “ajuste ergonômico e personalizado que não incomodasse durante o exercício”, afirma Danae Malet, product manager da marca. “Além disso, nossos filtros obtiveram uma eficácia de filtragem (BFE) de 98% e uma respirabilidade <40 Pa/cm2, de modo que oferecemos a mesma qualidade que as máscaras cirúrgicas (UNE EN 14683), muito superior à UNE EN 0065 das máscaras higiênicas reutilizáveis convencionais. Os filtros podem ser usados por até 24 horas e podem ser jogados nos pontos de coleta de plástico para serem reciclados.” Se a sua intenção é treinar sob o Sol, essa máscara também conta com uma proteção solar certificada UPF50+. E ainda é ecológica, fabricada com garrafas de plástico recicladas. Por último, a gigante Decathlon também fez sua própria máscara, que atende à especificação UNE065:2020, com uma respirabilidade aceitável (pressão diferencial <60 Pa/cm2) e resistente a até 500 lavagens.

*El País

O Julho Sem Plástico deste ano vai deixar um legado especial no Recife

Gazeta da Torre

Na edição deste ano da campanha que tem o objetivo de conscientizar para a redução do descarte irregular de plástico e importância da reciclagem, a Prefeitura do Recife, por meio da Secretaria Executiva Inovação Urbana do Recife, lançou o Programa “Recicla Mais”. O programa tem o objetivo de reduzir a poluição de material plástico nos rios, canais, barreiras e demais espaços públicos. As comunidades do UR-10, Alto José Bonifácio e Sítio São Brás, foram as primeiras a receberem a feira itinerante. O prefeito Geraldo Julio esteve no Sítio São Brás, onde conferiu um dos pontos de troca, que contou com protocolos de distanciamento e todos os cuidados sanitários.

O Recicla Mais terá continuidade nos próximos meses e já tem planos para ampliar a feira itinerante para outras comunidades atendidas pelo projeto Mais Vida nos Morros. Parte do resíduo que está sendo descartado de forma irregular agora poderá ser transformado em soluções urbanas para o dia a dia da população. O programa Recicla Mais se estrutura em quatro eixos. O primeiro foca em criar incentivos e estímulos à população para mudança de comportamento. O segundo é a possibilidade de transformar o lixo plástico em produtos com valor agregado. O terceiro é a implantação de células ReciclaMais, em escolas e universidades. E o quarto  é o fomento à criação de um ecossistema de empreendedorismo e inovação através do UpCycling.

Além da conscientização a partir das feirinhas nas próprias comunidades, outro importante incentivo se dará a partir do protagonismo das crianças, a exemplo de novas gincanas, como a que aconteceu em 2019, em 20 escolas da rede pública municipal do Recife. Com atuação dos professores, alunos e familiares, preocupadas com o meio ambiente, foram arrecadadas quatro toneladas de lixo plástico, reduzindo o impacto ambiental. Várias utensílios domésticos, como vasos, fruteiras, saboneteiras, já estão sendo produzidos, assim como alguns mobiliários urbanos, lixeiras ou assentos. O grande desafio será a produção de corrimão para utilização nas escadarias da cidade.

*Prefeitura da Cidade do Recife