Gazeta da Torre
O Carnaval de Olinda e Recife é uma das manifestações
culturais mais autênticas e vibrantes do Brasil, reconhecido mundialmente como
patrimônio imaterial que preserva tradições seculares enquanto se reinventa a
cada ano. Para compreender a grandeza desta festa, é necessário mergulhar em
suas raízes históricas, que remontam ao período colonial brasileiro.
As primeiras manifestações carnavalescas em Pernambuco
surgiram ainda no século XVII, quando trabalhadores se reuniam para a Festa de
Reis, formando cortejos e improvisando cantigas em ritmos que prenunciavam o
que viria a ser o frevo. No entanto, foi o entrudo português, introduzido pelos
colonizadores, que marcou de forma mais contundente os primórdios da folia
local. O entrudo era uma brincadeira popular em que as pessoas jogavam umas nas
outras farinha, água, ovos e outros elementos, em uma celebração descontraída
que antecedia a Quaresma.
Com o passar dos séculos, essas manifestações foram se
transformando e ganhando características próprias. No final do século XIX, o
Carnaval pernambucano começou a se estruturar com o surgimento dos primeiros
clubes de frevo, agremiações formadas por trabalhadores assalariados, pequenos
comerciantes, capoeiras, vendedores ambulantes e outros representantes das
classes populares. Clubes como Vassourinhas (fundado em 1889), Caiadores, Canna
Verde e Clube das Pás de Carvão evidenciavam como as camadas menos
privilegiadas da sociedade se apropriavam do Carnaval, transformando-o em uma
festa genuinamente popular.
Em Olinda, as festividades carnavalescas ganharam força
no início do século XX, com o surgimento de clubes carnavalescos tradicionais,
tais como o Cariri Olindense (1921) e o
Homem da meia noite (1931), o bloco que se tornaria símbolo máximo do
Carnaval olindense.
De lá para cá o Carnaval de Olinda e Recife consolidou-se
como uma festa de rua, democrática e acessível, onde a cultura popular se
expressa de forma livre e criativa. A partir da década de 1970, com a fundação
do Bloco da Saudade em 1974, surgiram os blocos líricos ou blocos de pau e
corda, que resgataram a poesia e a nostalgia dos antigos carnavais. Em 1978,
nasceu o Galo da Madrugada, que viria a se tornar o maior bloco de carnaval do
mundo, reconhecido pelo Guinness Book em 1994.
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| Bloco Galo da Madrugada, Recife |
O Carnaval de Olinda e Recife acontece sob o sol
escaldante do verão pernambucano, em um clima tropical que convida à festa ao
ar livre. As ladeiras estreitas e coloridas de Olinda, com suas casas coloniais
e igrejas barrocas, criam um cenário único, onde a história se mistura à folia.
O Centro Histórico de Olinda, tombado como Patrimônio Mundial pela UNESCO,
transforma-se em um grande palco a céu aberto, onde mais de um milhão de
pessoas se espremem para acompanhar os blocos e troças.
No Recife, as ruas do bairro de São José e do Recife
Antigo fervilham com a passagem de dezenas de agremiações. O calor intenso, a
cerveja gelada, a alegria contagiante e a música incessante criam uma atmosfera
de êxtase coletivo. É um carnaval que acontece de dia, sob o sol inclemente,
onde o suor se mistura ao brilho das fantasias e ao colorido dos confetes e
serpentinas.
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| Recife Antigo |
Mas é na música que reside a verdadeira alma do Carnaval
pernambucano. O frevo, ritmo nascido no Recife no final do século XIX, é a
trilha sonora desta festa. A palavra “frevo” vem de “ferver”, uma referência ao
modo como a dança fervilha nas ruas, com seus passos acrobáticos e sua energia
contagiante. O frevo mistura elementos da marcha, do maxixe e da capoeira, criando
um ritmo acelerado e vibrante que é executado por orquestras de sopro e metais.
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| Frevo |
Os blocos líricos que surgiram no Recife no início dos
anos 1920 foram inspirados nos pastoris e nas folias de reis. Sua
característica principal é a orquestra de pau e corda acompanhada por um coral
feminino, que canta marchas e canções líricas com arranjos sofisticados. A
partir de 1974, com a fundação do Bloco da Saudade, esses blocos passaram a ser
conhecidos como Blocos Independentes ou Blocos Líricos, e se multiplicaram pela
cidade.
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| Blocos Líricos |
Além do frevo, o Carnaval pernambucano também celebra
outros ritmos tradicionais, como o maracatu, o manguebeat, a ciranda, o coco e
os caboclinhos, evidenciando a riqueza e a diversidade da cultura popular de
Pernambuco. O Maracatu Nação, com seus tambores pesados e seu cortejo
majestoso, é uma homenagem às raízes africanas da cultura pernambucana,
enquanto o manguebeat, movimento musical surgido nos anos 1990, trouxe uma
renovação ao Carnaval, misturando ritmos tradicionais com rock, hip-hop e
música eletrônica.
Uma das características mais marcantes do Carnaval de
Olinda e Recife é a espontaneidade e a participação popular. Diferentemente de
outros grandes carnavais do Brasil, onde a festa é organizada em torno de
desfiles de escolas de samba ou blocos fechados com cordões de isolamento, a
folia pernambucana acontece na rua, de forma democrática, descentralizada e
acessível a todos.
O folião não é um mero espectador, mas o protagonista do
espetáculo. A festa é gratuita, aberta e sem barreiras. Não há cordas separando
os brincantes dos observadores. Todos são convidados a participar, a dançar, a
cantar, a se fantasiar e a se entregar à alegria coletiva. Como descreveu o
escritor Paulo Montezuma, “O Galo da Madrugada invade o centro da cidade de tal
maneira que não se sabe mais quem é o Galo, quem olha para o Galo, quem não é o
Galo, onde está o Galo. O galo é o povo. São as pessoas que sonham, cantam,
brincam, sem preconceitos e sem cordas de isolamento, sob o sol ou a chuva, com
dinheiro ou sem dinheiro.”
Nas ladeiras de Olinda, a multidão se espreme para seguir
as troças e blocos, cantando e dançando em uma comunhão contagiante. A
criatividade se manifesta nas fantasias, muitas vezes improvisadas, que vão do
humor à crítica política e social. É comum ver foliões fantasiados de
personagens históricos, super-heróis, animais, figuras do folclore ou
simplesmente vestidos com roupas coloridas e extravagantes. Os bonecos
gigantes, com mais de dois metros de altura, são um dos símbolos máximos do Carnaval
olindense, e dezenas deles desfilam pelas ruas, representando personalidades,
personagens de ficção ou figuras criadas pela imaginação popular.
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| Bonecos gigantes de Olinda |
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| Olinda no dia de carnaval |
No Recife, o Galo da Madrugada é a expressão máxima dessa
espontaneidade. Fundado em 1978 por um grupo de amigos que queria resgatar o
Carnaval de rua da cidade, o Galo começou com apenas 75 pessoas fantasiadas de
almas penadas, acompanhadas por uma pequena orquestra de frevo. Hoje, o bloco
arrasta cerca de 2 milhões de foliões no Sábado de Zé Pereira, em um desfile
que dura mais de nove horas e conta com 30 trios elétricos, 30 bandas de frevo,
6 carros alegóricos e milhares de pessoas de apoio.
Essa espontaneidade é a alma do Carnaval de Olinda e
Recife. É a liberdade de ser quem se quer ser, de se juntar a um bloco
desconhecido, de dançar frevo até o sol raiar, de se emocionar com a passagem
de um bloco lírico, de rir com as fantasias criativas, de se perder nas
ladeiras de Olinda e se encontrar na multidão. É uma festa que se reinventa a
cada ano, mantendo vivas suas tradições ao mesmo tempo em que abre espaço para
o novo, para a crítica, para a experimentação e para a celebração da vida.
O Carnaval de Olinda e Recife é muito mais do que uma
festa. É uma manifestação cultural complexa e multifacetada, que expressa a
identidade, a criatividade e a resistência do povo pernambucano. Desde suas
origens no entrudo colonial até a consolidação como uma das maiores festas
populares do mundo, o Carnaval pernambucano soube preservar suas tradições ao
mesmo tempo em que se renova e se adapta aos novos tempos.
O lirismo do frevo de bloco, a energia contagiante do
frevo de rua, a espontaneidade dos foliões, a democratização da festa, a
criatividade das fantasias, a grandiosidade dos bonecos gigantes, a diversidade
de ritmos e manifestações culturais – tudo isso faz do Carnaval de Olinda e
Recife uma experiência única e inesquecível.
É uma festa que celebra a vida, a arte, a música, a
dança, a poesia, a crítica social, a diversidade e a liberdade. É um carnaval
que acontece na rua, sem cordas, sem barreiras, sem preconceitos. É o povo que
se transforma em artista, que se apropria do espaço público, que cria e recria
a cada ano a maior folia popular do Brasil.
A Irreverência dos Blocos de Bairro: O Caso do Mercado da
Madalena
Além das grandes e tradicionais agremiações, o Carnaval
de Recife é marcado pela efervescência de centenas de blocos de bairro, que
representam a alma mais irreverente e espontânea da folia. O Mercado da
Madalena, um dos mais tradicionais da cidade, é um polo de criatividade
carnavalesca, onde surgem blocos com nomes humorísticos e de duplo sentido, uma
característica marcante do espírito pernambucano.
Dois exemplos notáveis dessa veia cômica são os blocos de
Socorro e Marília (*Por questões de conformidade com as políticas editoriais,
não podemos apresentar os nomes). Os nomes, que à primeira vista podem parecer
chocantes ou absurdos, são na verdade uma expressão do humor popular, da
capacidade de rir de si mesmo e de subverter a linguagem cotidiana.
O bloco de Socorro, fundado em 2011, se autodenomina um “Bloco
Etílico Hortifruti Rock Tropical Pop Psicodélico de Balcão”. A agremiação, que
se apresenta no Mercado da Madalena, mistura em seu repertório pop, rock e
orquestra de frevo, criando uma sonoridade única e eclética.
Já o bloco de Marília, embora não tenha registros oficiais de sua atuação no Mercado da Madalena (havendo blocos homônimos em outras cidades), representa perfeitamente o espírito dos blocos de bairro. O nome, de duplo sentido evidente, brinca com a ideia de exaustão após a folia, ao mesmo tempo em que utiliza uma gíria popular para criar um efeito humorístico. A existência (ou a lenda) de um bloco com esse nome demonstra a liberdade criativa e a ausência de pudores que caracterizam o carnaval de rua do Recife.
Esses blocos, com seus nomes inusitados e sua proposta
descontraída, são a prova de que o Carnaval pernambucano vai muito além dos
grandes desfiles. Eles representam a festa em sua forma mais pura e
democrática: a celebração da vida, do humor e da criatividade popular, que
floresce em cada esquina, em cada bar, em cada mercado da cidade.
Essa é a essência do Carnaval de Olinda e Recife: uma
festa do povo, pelo povo e para o povo, que celebra a cultura pernambucana em
toda a sua riqueza, diversidade e beleza.
Márcio Nilo
FEV/2026













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