Gazeta da Torre
*imagem: “O
Cão”. Pintura de Francisco Goya, 1823. Fonte: Museu do Prado. O Cão é uma das
“Pinturas Sombrias” de Goya, um conjunto de catorze imagens que ele criou
enquanto vivia numa casa chamada Quinta del Sordo, que se traduz como a Villa
dos Surdos. Na fase final da sua vida, Goya sofria de transtornos mentais e
físicos, toda essa dor e agonia é visivel nas pinturas em questão.
Orelha não devia bilhões a ninguém. Seu único
"crime" foi existir no lugar errado, na hora errada, cruzando o
caminho de jovens para quem a violência se tornou uma forma de entretenimento,
uma performance a ser transmitida ao vivo pelo Discord
O Brasil, este vasto palco de contradições, encena
diariamente um drama que oscila entre a tragédia e a farsa. De um lado, a
frieza dos números, os bilhões que evaporam em esquemas financeiros complexos,
protegidos por um labirinto de liminares e sigilos. Do outro, a brutalidade
visceral, o som de ossos se partindo sob o peso de uma violência gratuita,
filmada e compartilhada como troféu. Em ambos os cenários, um mesmo espectro
assombra a nação: a impunidade, essa entidade onipresente que garante que, no
fim das contas, a balança da justiça penderá sempre para o lado do privilégio.
Em um canto do ringue, temos Daniel Vorcaro, o arquiteto
do que o próprio Ministro da Fazenda descreveu como a “maior fraude bancária”
do país (eu diria banqueira, bancária é trabalhadora, não herdeira). Com o
Banco Master, tudo indica que Vorcaro orquestrou um esquema que fez desaparecer
algo entre 12 e 23 bilhões de reais, através da mágica contábil de vender
carteiras de crédito que, na prática, não passavam de fumaça. É o tipo de crime
que não suja as mãos de sangue, mas corrói as fundações da confiança pública
(ou deveria) e drena recursos que poderiam construir hospitais, escolas ou,
quem sabe, abrigos para os incontáveis “Orelhas” que perambulam pelas ruas.
E por falar em Orelha, no outro canto do ringue, temos
sua história. Um cão comunitário, um vira-lata de dez anos que conhecia a Praia
Brava, em Florianópolis, como a palma de sua pata. Sua rotina de afagos e
restos de comida foi interrompida por uma sessão de tortura perpetrada por
quatro adolescentes de classe média-alta. Orelha não devia bilhões a ninguém.
Seu único “crime” foi existir no lugar “errado”, na “hora errada”, cruzando o
caminho de jovens para quem a violência se tornou uma forma de entretenimento,
uma performance a ser transmitida ao vivo pelo Discord (aplicativo usado por
gamers).
À primeira vista, os dois casos parecem pertencer a
universos distintos. O que a alta finança, com seus ternos bem cortados e
jargões impenetráveis, tem a ver com a crueldade suburbana de jovens
entediados? Tudo. Ambos são manifestações da mesma doença social, a certeza de
que certas vidas e certas ações estão acima da lei. Vorcaro, com suas alegadas
conexões políticas que se estendem de Ciro Nogueira a Ibaneis Rocha, move-se em
um tabuleiro onde a “facilitação política” é apenas mais uma peça no jogo. Seus
advogados tecem defesas, seus aliados nos altíssimos escalões da República
garantem o sigilo do processo, e a opinião pública assiste, perplexa, à
transformação de um rombo bilionário em uma nota de rodapé nos jornais.
Enquanto isso, os agressores de Orelha, após o ato,
embarcam para uma viagem “pré-programada” à Disney, o templo máximo do consumo
e da fantasia, como se a brutalidade que deixaram para trás fosse apenas um
pesadelo a ser esquecido entre montanhas-russas e personagens sorridentes.
Parece que o Mickey não tem cessado de vencer. Lembremos que a juíza Vanessa
Cavalieri, que estuda a radicalização de jovens, alerta que o que aconteceu com
Orelha não é um ponto fora da curva, mas um evento diário nas profundezas da
internet, onde a tortura animal virou commodity, com uma média de 30 cães e
gatos mortos por noite em transmissões ao vivo. O mundo é sombrio, brava gente
que lê.
O privilégio, em ambos os casos, opera como um solvente
universal da responsabilidade. Para Vorcaro, é o privilégio do capital, a
capacidade de comprar influência, de contratar os melhores advogados, de
navegar pelos corredores do poder com uma desenvoltura que o cidadão comum
jamais sonharia. Ele nega a fraude, claro, e chega a ironizar, dizendo que, se
tivesse tanto poder, não estaria sendo investigado. É a clássica inversão de
narrativa: a vítima, agora, é o bilionário acuado pela justiça. O privilégio se
ressignifica como perseguição.
Para os adolescentes, o privilégio é o da classe social e
da idade. A certeza de que o sobrenome, a escola cara e a viagem internacional
funcionam como um passaporte para a impunidade. A violência que praticam é
dessensibilizada, um produto de horas a fio consumindo conteúdo extremo online,
um fenômeno que transforma a empatia em fraqueza e a crueldade em status. O
privilégio, aqui, se ressignifica como uma “fase”, um “desvio de conduta” de
“bons meninos” que “não tinham a intenção”.
Essa história de impunidade não é nova. Ela é a argamassa
que une os tijolos da história brasileira. É a mesma impunidade que permitiu
que, em 1997, jovens de Brasília queimassem vivo o indígena pataxó Galdino
Jesus dos Santos e, mais tarde, tivessem suas penas reduzidas a quase nada. É a
mesma lógica que garante que crimes de colarinho branco – Collor e PC Farias
que o digam – raramente resultem em algo além de uma tornozeleira eletrônica e
uma biografia de superação. A mensagem é clara e consistente: no Brasil, o
tamanho do crime e a severidade da punição são inversamente proporcionais ao
status social do criminoso.
Vorcaro e os agressores de Orelha são, portanto, dois
lados da mesma moeda farsesca. Um representa a violência fria e sistêmica, que opera
nas sombras dos balanços e dos gabinetes. Os outros representam a violência
quente e explícita, que se manifesta na ponta de um porrete contra um corpo
indefeso. Mas a origem de ambos é a mesma: uma sociedade que normalizou a
desigualdade a tal ponto que a própria noção de justiça se tornou relativa. Uma
justiça para os que podem pagar por ela, e outra para o resto – incluindo os
Orelhas, humanos ou não, que têm a má sorte de cruzar o caminho dos
privilegiados.
A crônica do Brasil é, assim, a crônica de uma impunidade
que se reinventa. Ela troca o terno pela bermuda de marca, o jatinho particular
pela viagem à Disney, a fraude contábil pela transmissão no Discord. Mas sua
essência permanece intacta, um lembrete constante de que, nesta terra – de palmeiras,
sabiás e corpos torturados – alguns são mais iguais que outros. E enquanto os
bilhões de Vorcaro se perdem em um abismo fiscal e os ossos de Orelha se
decompõem sob a terra, a pergunta que fica, ecoando no silêncio da nossa
indignação seletiva, é: até quando?
Por Lindener Pareto,
Professor, Historiador, Comunicador. Mestre e Doutor pela USP