Gazeta da Torre
*Imagem idealizada pelo artista Oscar Pereira da Silva de como teria sido Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, em quadro pintado em 1922. Atualmente a obra original se encontra no Museu Paulista da Universidade de São Paulo (USP).Morto enforcado no dia 21 de abril de 1792, Joaquim José
da Silva Xavier, conhecido popularmente na época como Tiradentes, é celebrado
como mártir e herói brasileiro até os dias de hoje, mais de 200 anos depois.
Ele tem, inclusive, um feriado próprio no dia de sua morte.
Porém, a sua verdadeira história nem sempre foi retratada
fielmente em filmes, séries e livros didáticos. Quem foi o homem chamado
Tiradentes? Sabe-se que ele foi um dos líderes da Inconfidência Mineira — um
movimento contra os altos impostos cobrados por Portugal e que durou de 1789 a
1792 e que também visava a independência do Brasil.
Porém, por que ele foi o único a ser morto? Ele
trabalhava realmente como dentista? Quais os objetivos do movimento? A National
Geographic traz cinco fatos reais para conhecer melhor esse famoso personagem
histórico brasileiro e desmistifica alguns dados que rondam a sua figura até os
tempos atuais.
1. Tiradentes foi mesmo um dentista?
Joaquim José da Silva Xavier nasceu na Fazenda do Pombal,
localizada no atual município de Ritápolis, em Minas Gerais. De acordo com um
artigo do historiador André Figueiredo Rodrigues da Universidade Estadual
Paulista (Unesp) publicado no site da Universidade Federal Fluminense (UFF), a
data de seu nascimento não é exata, somente há registro de seu batizado em 12
de novembro de 1746.
O professor André Figueiredo Rodrigues é também autor do
livro “Em Busca de Um Rosto: a República e a Representação de Tiradentes”. Ele
conta no artigo que, ao longo da vida, Tiradentes exerceu diversas profissões.
Com 20 anos, já trabalhava como tropeiro entre a Bahia e o Rio de Janeiro. Durante
esse período, se especula que Joaquim teria começado a atuar como dentista,
alguém que, na época, apenas retirava os dentes com problemas – e teria
aprendido o ofício com seu tio, Sebastião Ferreira Leitão, este sim um
cirurgião dentista.
Joaquim José
também se arriscou como minerador em Minas Novas. Mas sem a perspectiva de um
futuro próspero nessas atividades, decidiu ingressar na carreira militar aos 29
anos de idade. Joaquim se alistou como alferes da Cavalaria. De acordo com
documentos encontrados, sua vida militar foi marcada por dedicação e coragem.
2. Como foi a participação de Tiradentes na Inconfidência
Mineira?
Segundo o artigo do professor André Figueiredo para o
site da UFF, ao longo da vida militar Tiradentes ia frequentemente ao Rio de Janeiro,
e lá conheceu o naturalista José Álvares Maciel, recém-chegado da Europa e com
ideias iluministas. Eles conversavam muito sobre sobre a política econômica
exploratória implantada pela Coroa Portuguesa em Minas Gerais, assim como o
desejo de independência.
Aos poucos, Tiradentes foi se aproximando de outros
profissionais e intelectuais que tinham o mesmo ideal e interesses que ele.
Segundo o professor Rodrigo Monteferrante Ricupero, do Departamento de História
da Universidade de São Paulo no site da USP, “a chamada Inconfidência Mineira
foi o primeiro movimento com o objetivo de independência frente a Portugal”.
A ideia inicial do movimento era assassinar o governador
de Minas Gerais e declarar a independência da capitania do poder português e Tiradentes
tinha um papel de liderança no grupo. Participaram religiosos, militares,
comerciantes, e até poetas, como Cláudio Manuel da Costa, Antonio Tomas Gonzaga
e Inácio José de Alvarenga Peixoto – de acordo com o texto da USP.
Porém, o movimento não chegou a ser colocado em prática:
antes de qualquer ação, “eles foram denunciados por um membro do grupo, o
coronel Joaquim Silvério dos Reis”, afirma o professor Ricupero no site da USP.
Muitos envolvidos foram presos e condenados, mas apenas Tiradentes foi
executado por enforcamento.
3. Quais os possíveis motivos para só Tiradentes ter sido
morto por conta da Inconfidência?
Conforme o livro biográfico “O Tiradentes”, do jornalista
Lucas Figueiredo, no movimento mineiro ele foi um homem de ação, com participação
decisiva e de grande liderança militar. Aliciou muitas pessoas para participar
da revolta e se dedicou à proposta de independência de Minas Gerais.
Ele foi preso em 10 de maio de 1789, no centro do Rio de
Janeiro. Na prisão, Tiradentes prestou 11 depoimentos, sendo o mais importante
o quarto deles já em 18 de janeiro de 1790, quando confessou toda a
responsabilidade pela revolta em Minas. Assim, ele assumiu sozinho a culpa,
isentando os demais participantes, conforme o texto da UFF. Este ato o elevou
ao patamar de herói até os dias atuais.
Por ter assumido toda a gestão do movimento, Tiradentes
foi o único a ser morto por enforcamento em 21 de abril de 1972, sendo depois
decapitado e tendo seu corpo esquartejado.
A punição tinha como objetivo fazer com que os súditos da
Coroa nunca se esquecessem da lição e, para reforçar essa ideia, a cabeça de
Tiradentes foi encravada numa estaca e exposta em praça pública na antiga Vila
Rica (hoje a cidade de Ouro Preto), e seus membros, espalhados pela estrada que
levava ao Rio de Janeiro.
4. Por que deram um “rosto” semelhante à Jesus para
representar Tiradentes?
Mais de 230 anos depois da morte de Tiradentes, ainda há
incertezas sobre como era a aparência real de Joaquim José da Silva Xavier.
“Não sabemos como ele era. Sabemos que era um homem oficialmente branco, de pai
e mãe declarados como brancos, que aos 40 anos de idade já tinha cabelos
brancos. E ponto final. O que mais se disser sobre a figura, o biótipo, será
chute, porque isso não está em lugar nenhum”, comentou o biógrafo de
Tiradentes, Lucas Figueiredo, em uma entrevista para o jornal “Estado de Minas”
sobre seu livro.
Não há pinturas da época que retratam como Tiradentes era
de verdade. Assim, sua representação física foi criada cerca de 100 anos mais
tarde, como conta o professor André
Figueiredo em seu livro “Em Busca de Um Rosto: a República e a Representação de
Tiradentes”.
Desta forma, foi criado um ideal de um herói e mártir:
“um personagem que morreu por ter sido traído por um amigo, o Silvério dos
Reis, à semelhança da trágica história de Jesus Cristo", aponta o
historiador em uma entrevista à BBC Brasil sobre sua obra biográfica.
E justamente, a imagem criada 100 anos depois, na época
da República, para representar Tiradentes é muito semelhante à imagem mais
recorrente e famosa de Jesus Cristo. Trata-se, portanto, de um homem de olhos
claros e traços europeus, cabelos longos e claros, barba e rosto simétrico.
“Um país católico, com um herói com traços de Jesus,
inventados por artistas desde o nascimento da República: Tiradentes,
iconograficamente, venceu. Sua escolha não foi aleatória", disse o
historiador e professor.
Depois da Proclamação da República, em 1889, ele foi
alçado a “herói nacional” pela elite republicana que queria apagar do
imaginário o exemplo de ativistas mais recentes para que eles não servissem de
inspiração para motins populares. O centenário da morte de Tiradentes serviu
para exaltá-lo como um personagem perfeito para ser o herói da República, conta
o historiador em seu livro.
* O texto foi feito por Juliane Albuquerque, Editora Assistente de National Geographic Brasil.
- anúncio -




























