Gazeta da Torre
*Foto do filme
‘O Descobrimento do Brasil’, primeira grande produção de Humberto Mauro como
funcionário do INCE (Instituto Nacional de Cinema Educativo), criado em 1936
pelo Ministério da Educação e Cultura do governo Getúlio Vargas
Qualquer um que tenha passado pelos bancos escolares
brasileiros até meados dos anos 1980 certamente aprendeu uma floreada história
sobre o episódio chamado de descobrimento do Brasil, o dia em que o navegador
português Pedro Álvares Cabral (1467-1520) e sua comitiva avistaram as terras
que depois se tornariam a maior colônia lusitana, em 22 de abril de 1500.
Trata-se de uma narrativa épica, em que Cabral e seus
comandados enfrentavam a fúria do Atlântico para consolidar a então nova rota
comercial que ligava a Europa à Índia, contornando o continente africano e
dobrando o Cabo da Boa Esperança.
Mas então, nervosas que estavam as águas do oceano e sob
intensa tempestade com forte ventania, as embarcações acabaram sendo obrigadas
a ajustar a rota, “abrindo” cada vez mais para o oeste e distanciando-se da
costa da África. Até que, acidentalmente, chegaram às tais novas terras,
“descobrindo” o Brasil e tomando posse do território, com direito a celebração
de missa e troca de presentes com os nativos.
E assim, apregoavam os professores de história do ensino
primário de antigamente, havia nascido o Brasil.
Historiadores contemporâneos, contudo, colocam em xeque
esta narrativa. Não há um consenso por que os documentos conhecidos são poucos
e não explicam com clareza. Mas o que a grande maioria concorda é que Cabral ao
menos sabia que encontraria alguma coisa indo por ali — não necessariamente um
território tão grande.
E que parte de sua missão, além de consolidar a nova rota
para a Índia, selando o sucesso empreendido anteriormente por Vasco da Gama
(1469-1524), era estabelecer a conquista daquilo que havia sido garantido à
coroa portuguesa pelo Tratado de Tordesilhas, firmado seis anos antes com a
Espanha.
Contexto e posse
Para a historiadora Clarissa Sanfelice Rahmeier,
professora na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), “toda a
história do descobrimento ou achamento do Brasil deve ser entendida à luz de,
no mínimo, dois elementos que caracterizavam o contexto em que se deu a vinda
dos europeus para cá”. São eles os tratados de limites estabelecidos entre
Portugal e Espanha “e a situação socioeconômica vivenciada pelos países
ibéricos à época da chegada de Cabral”.
“A narrativa que apresenta a versão da chegada por acaso
deriva do primeiro elemento, referente à disputa, por Portugal e Espanha, das
terras achadas ou por achar no processo de expansão marítima impulsionado pelos
dois países”, pontua ela.
Isso porque, como a linha estabelecida pelo Tratado de
Tordesilhas não era precisa, tanto o planejamento quanto a comunicação das
viagens exploratórias eram impactados. “Havia várias interpretações a seu
respeito e a falta de uma exata localização, bem como o desconhecimento do que
seria encontrado nas terras do além-mar”, afirma Rahmeier.
A historiadora ressalta que foi por conta disso que a
coroa portuguesa financiou a viagem do explorador Duarte Pacheco Pereira
(1460-1533) em 1498. Muitos acreditam que ele — e não Cabral — tenha sido o
primeiro português a pisar nas terras que hoje são o Brasil.
Versão oficializada pelo império
Para o historiador Victor Missiato, não há dúvidas de que
quem consolidou essa ideia de “descobrimento por acaso” foi o império
brasileiro, no contexto da pós-independência. É do período a construção do
imaginário a respeito do episódio da chegada dos portugueses. “Se a gente pegar
aquela obra do [pintor Victor] Meirelles [(1832-1903)], ‘Primeira Missa no
Brasil’ [feita entre 1869 e 1861], há toda uma referência de um destino
manifesto por parte da Igreja e de Portugal, no sentido de trazer a palavra, a
verdade, o sentido de colonização para essas terras”, comenta ele.
Foram assim erguidas as bases da narrativa. Segundo
Missiato, “o descobrimento de um povo que vai construir sua história a partir
das ideias do catolicismo e do nacionalismo”.
“Essa versão [da descoberta ‘sem querer’] durou muito
tempo porque primeiro ela se constituiu como uma história oficial no século 19
e essa ideia de história oficial que se utiliza apenas de fontes oficiais,
durante muito tempo, foi considerada a história científica da modernidade”,
aponta Missiato.
Durante décadas, “toda a sociedade brasileira foi formada
a partir dessa ideia oficial de descobrimento do Brasil”, ressalta o
pesquisador. A partir dos anos 1930, ideias diferentes começaram a surgir no
âmbito acadêmico. Mas ainda levaria muito tempo para serem adotadas essas
versões pelos livros e apostilas escolares.
“Havia interesses claros no sentido de perpetuar uma
perspectiva redentora, salvadora e ao mesmo tempo uma perspectiva
centralizadora da história do Brasil”, comenta ele. Afinal, uma chegada por
acaso tira o peso da “conquista planejada”, que pode ser interpretada como
nociva e dominadora. Uma descoberta acidental, fortuita, parece evocar um
capricho do destino, facilitando a conexão mítica com ideias de salvação e
redenção.
Fonte: BBC
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