Gazeta da Torre
“A pessoa tem
que apresentar queixas de início e manutenção do sono pelo menos três vezes na
semana. Ou seja, dificuldade para dormir, ou despertar à noite de modo
significativo, com demora de mais de meia hora para retornar ao sono. Ou ainda,
acordar mais cedo do que o desejado e não conseguir retornar após 30 minutos”,
explica a pesquisadora Renatha El Rafihi-Ferreira, professora do Instituto de
Psicologia da USP, pontuando que acordar à noite, ir ao banheiro e voltar a
dormir não é considerado insônia.
Mas essas
queixas ainda não são suficientes para preencher os critérios diagnósticos; têm
que vir acompanhadas de prejuízos durante o dia. “Por exemplo, fadiga,
irritabilidade, dificuldade de concentração, entre outras”, diz a neurologista
especialista em medicina do sono Rosa Hasan, acrescentando que, para ser
considerada insônia crônica, ela deve ocorrer pelo menos três vezes por semana
há pelo menos três meses.
E que perpetua
a insônia? “Estresse crônico, ansiedade com o desempenho do próprio sono,
doenças crônicas não tratadas, como depressão, dor crônica, e hábitos
desfavoráveis a um bom sono. Aqui precisa de avaliação médica e tratamento para
o problema não ir piorando”, diz a médica.
“Existe o que
chamamos de ‘teoria dos três pês’. Primeiro, a pessoa já tem uma predisposição
para desenvolver insônia”, explica Renatha El Rafihi. Algumas acumulam mais
cortisol [hormônio ligado ao estresse] do que outras, por exemplo, ou têm
perfis psicológicos que são predisponentes, com muitos pensamentos
ruminativos”, detalha.
Somado a isso,
existem os fatores de precipitação, os gatilhos. “Uma pandemia, um divórcio,
crise financeira ou mesmo uma promoção no trabalho, que vai mexer na rotina
dessa pessoa”.
Por fim,
existem os fatores perpetuadores. “Muitas vezes a forma com que lidamos com o
sono piora a insônia. Por exemplo, eu não consegui dormir bem à noite, então eu
vou estender o tempo na cama pela manhã. Ou eu vou tirar cochilos. Ou então vou
mais cedo para cama no dia seguinte”, explica a psicóloga.
Essas
estratégias, que parecem uma resolução, tendem a tornar a insônia crônica.
“Quanto mais tempo você permanece na cama acordado, mais seu cérebro entende
que seu corpo fica em vigília deitado. A orientação que a gente dá é que se use
a cama somente para atividade sexual e sono”, diz Renatha El Rafihi, já
entrando na abordagem em que se especializou. “A Terapia Cognitivo
Comportamental para Insônia (TCCI) vai focar em hábitos e na crença sobre o
sono, quer dizer, na forma como a pessoa pensa sobre ele. Ela é o tratamento
padrão ouro para insônia.”
E não é só
higiene do sono, ressalta a psicóloga, apesar da higiene fazer parte dela,
assim como a psicoeducação. “A TCCI é uma abordagem teórica com três
componentes principais: restrição de sono, controle de estímulos e
reestruturação cognitiva”.
Também como
abordagem comportamental para insônia surgiu, mais recentemente, a Terapia de
Aceitação e Compromisso (ACT, na sigla em inglês). “É o que a gente chama de
terceira onda. Em vez de focar só em sintomas, hábitos e no que a pessoa pensa
sobre o sono, a ACT amplia para outras questões da vida do paciente, é mais uma
psicoterapia. Por exemplo, se existe um comportamento de evitação, ele acaba
tendo menos autocuidado e isso consequentemente afeta o sono. É como se a
insônia fosse só um sintoma de outros padrões da vida desse paciente.”
Apesar de mais
nova, estudos têm mostrado a eficácia da ACT no longo prazo, após seis meses em média, enquanto na TCCI os
resultados aparecem mais em curto prazo. Mas não necessariamente a TCCI é
superior por isso; diferentes pacientes podem responder melhor a uma ou a outra
terapia.
Os remédios,
portanto, não precisam e não devem ser a primeira escolha no tratamento da
insônia. “Uma das coisas mais alarmantes das drogas como Zolpidem ou
benzodiazepínicos é o seu poder de causar dependência. A pessoa aumenta a dose,
mas vai precisar de cada vez mais para que ela faça efeito — é o que a gente
chama de tolerância. É muito fácil se viciar”, diz Renatha El Rafihi.
Os prejuízos do
uso prolongado dos benzodiazepínicos ao cognitivo são bastante comentados, mas
já existem estudos mostrando que as drogas Z também estão associadas a falhas
cognitivas e de memória no longo prazo. Além disso, mesmo em curto prazo, ambas
as classes de medicação aumentam as quedas em idosos e causam esquecimentos. No
caso do Zolpidem, por exemplo, há relatos da pessoa entrar em um site e fazer
várias compras das quais não se lembra depois, ou mandar mensagens para um
grupo de WhatsApp que não mandaria em seu estado habitual. Rosa Hassan alerta
que “a retirada dessa medicações, quando em uso prolongado, deve ser orientada por médico”.
Fonte: Jornal
da USP





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