segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Os guardiões de sementes crioulas de Jucati no Agreste de Pernambuco

 Gazeta da Torre

Frutos produzidos com a semente crioulas - foto:Lucas Arruda/CBN Recife

Em um mundo cada vez mais acelerado, onde a praticidade determina os comportamentos, o cuidado com a origem de cada alimento pode significar, para muitos, perda de tempo. Mas para outros, é um olhar atento a um futuro com qualidade de vida. E mais, um respeito àquela que nunca faltou aos antepassados: a terra. Essa sensibilidade é transmitida pelos guardiões de sementes crioulas no Agreste de Pernambuco. Uma prática ancestral que encontra eco nas discussões sobre o amanhã que estamos construindo.

A convite do Centro Sabiá, a Rádio CBN Recife esteve em Jucati, a cerca de 214 km da capital pernambucana, para conhecer uma das iniciativas apresentadas durante a Caatinga Climate Week. O evento é pensado pela ONG e pelo Instituto Socioambiental para mostrar a pesquisadores, comunicadores e ativistas o quanto o bioma – a Caatinga – serve como exemplo ao planeta quando o assunto é resiliência climática.

No Planalto da Borborema, entre Caruaru e Garanhuns, o banco de sementes crioulas mantido por cerca de 20 agricultores do município é uma estratégia que serve tanto para diversificar quanto para manter, no próprio território, aquilo que sempre foi cultivado. Mas que, diante da força das sementes transgênicas e das mudanças climáticas, estava se perdendo, como diferentes tipos de feijão e de milho.

Givaldo de Lira é presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Jucati. Val, como prefere ser chamado, também carrega uma missão especial: coordenar o banco de sementes crioulas no município, onde a iniciativa ganha vida a partir de um roçado comunitário.

“Todo ano a gente planta em uma área que chamamos de roçado comunitário, onde se junta toda a comunidade, e a gente planta em linhas de feijão pau, outras linhas de feijão preto, outras de feijão branco, sempre dividindo elas ao meio com uma carreira de milho, do nosso milho crioulo também. O produto que a gente planta no roçado comunitário é destinado para o banco de sementes. A gente faz a colheita, faz a “bata” e seleciona as sementes. O que excede, a gente vende no comércio, que é para manutenção do banco”, explica.

Rede SEMEAM

Por conta da posição geográfica, diferentes cidades do Agreste Meridional, como Jupi e Calçado, se destacam pelo resgate, conservação e multiplicação das sementes. Como uma forma de estruturar a conexão entre os guardiões, a Rede SEMEAM, a partir do Instituto Agronômico de Pernambuco (IPA), apoia os bancos municipais, com seminários e oficinas, além das feiras de troca.

A coordenadora da rede, Ivanir Bezerra, lembra que, no fim de tudo, esse é um trabalho que olha para o futuro com profundas raízes na tradição.

“Essas sementes são ancestrais, passadas de geração em geração, trabalhadas com as famílias sem nenhum tipo de agrotóxico, e que temos como patrimônio histórico. Nós não queremos somente resgatar, mas passar elas de geração em geração. Nós temos diversas variedades, como os milhos e feijões. Parte delas foi plantada em um roçado comunitário, coletivo, para que essas sementes se multipliquem e a gente possa aumentar a quantidade e distribuir entre os nossos bancos e casas de sementes”, declarou.

Futuro

Nem todos os 12 mil habitantes de Jucati têm a oportunidade de sentir o gosto dos feijões cultivados com as sementes crioulas. Mas o trabalho desenvolvido pelos guardiões do município ganha cada vez mais força a partir do momento em que o mundo procura soluções para lidar com as mudanças climáticas.

No Agreste de Pernambuco, os antepassados entenderam isso há décadas, respeitando a terra e diversificando a produção, como destaca a coordenadora do Centro Sabiá, Maria Cristina.

Os bancos de sementes crioulas do Agreste Meridional, e em especial, de Jucati, mostram que, diante de uma sociedade onde a correria é quase uma lei, a sabedoria do campo tem muito a ensinar. Da terra onde se planta feijão, milho, fava, batata, mandioca e tantos outros alimentos, com muito esmero, também se cultiva o amanhã.

CBN Recife

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