Gazeta da Torre
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| Frutos produzidos com a semente crioulas - foto:Lucas Arruda/CBN Recife |
Em um mundo
cada vez mais acelerado, onde a praticidade determina os comportamentos, o
cuidado com a origem de cada alimento pode significar, para muitos, perda de
tempo. Mas para outros, é um olhar atento a um futuro com qualidade de vida. E
mais, um respeito àquela que nunca faltou aos antepassados: a terra. Essa
sensibilidade é transmitida pelos guardiões de sementes crioulas no Agreste de
Pernambuco. Uma prática ancestral que encontra eco nas discussões sobre o
amanhã que estamos construindo.
A convite do
Centro Sabiá, a Rádio CBN Recife esteve em Jucati, a cerca de 214 km da capital
pernambucana, para conhecer uma das iniciativas apresentadas durante a Caatinga
Climate Week. O evento é pensado pela ONG e pelo Instituto Socioambiental para
mostrar a pesquisadores, comunicadores e ativistas o quanto o bioma – a
Caatinga – serve como exemplo ao planeta quando o assunto é resiliência
climática.
No Planalto da
Borborema, entre Caruaru e Garanhuns, o banco de sementes crioulas mantido por
cerca de 20 agricultores do município é uma estratégia que serve tanto para
diversificar quanto para manter, no próprio território, aquilo que sempre foi
cultivado. Mas que, diante da força das sementes transgênicas e das mudanças
climáticas, estava se perdendo, como diferentes tipos de feijão e de milho.
Givaldo de Lira
é presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Jucati. Val, como prefere
ser chamado, também carrega uma missão especial: coordenar o banco de sementes
crioulas no município, onde a iniciativa ganha vida a partir de um roçado comunitário.
“Todo ano a
gente planta em uma área que chamamos de roçado comunitário, onde se junta toda
a comunidade, e a gente planta em linhas de feijão pau, outras linhas de feijão
preto, outras de feijão branco, sempre dividindo elas ao meio com uma carreira
de milho, do nosso milho crioulo também. O produto que a gente planta no roçado
comunitário é destinado para o banco de sementes. A gente faz a colheita, faz a
“bata” e seleciona as sementes. O que excede, a gente vende no comércio, que é
para manutenção do banco”, explica.
Rede SEMEAM
Por conta da
posição geográfica, diferentes cidades do Agreste Meridional, como Jupi e
Calçado, se destacam pelo resgate, conservação e multiplicação das sementes.
Como uma forma de estruturar a conexão entre os guardiões, a Rede SEMEAM, a
partir do Instituto Agronômico de Pernambuco (IPA), apoia os bancos municipais,
com seminários e oficinas, além das feiras de troca.
A coordenadora da rede, Ivanir Bezerra, lembra que, no fim de tudo, esse é um trabalho que olha para o futuro com profundas raízes na tradição.
“Essas sementes
são ancestrais, passadas de geração em geração, trabalhadas com as famílias sem
nenhum tipo de agrotóxico, e que temos como patrimônio histórico. Nós não
queremos somente resgatar, mas passar elas de geração em geração. Nós temos
diversas variedades, como os milhos e feijões. Parte delas foi plantada em um
roçado comunitário, coletivo, para que essas sementes se multipliquem e a gente
possa aumentar a quantidade e distribuir entre os nossos bancos e casas de
sementes”, declarou.
Futuro
Nem todos os 12
mil habitantes de Jucati têm a oportunidade de sentir o gosto dos feijões
cultivados com as sementes crioulas. Mas o trabalho desenvolvido pelos
guardiões do município ganha cada vez mais força a partir do momento em que o
mundo procura soluções para lidar com as mudanças climáticas.
No Agreste de
Pernambuco, os antepassados entenderam isso há décadas, respeitando a terra e
diversificando a produção, como destaca a coordenadora do Centro Sabiá, Maria
Cristina.
Os bancos de
sementes crioulas do Agreste Meridional, e em especial, de Jucati, mostram que,
diante de uma sociedade onde a correria é quase uma lei, a sabedoria do campo
tem muito a ensinar. Da terra onde se planta feijão, milho, fava, batata,
mandioca e tantos outros alimentos, com muito esmero, também se cultiva o
amanhã.
CBN Recife
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