quarta-feira, 13 de março de 2024

Chico Science - O homem que veio do futuro

 Gazeta da Torre

No Recife do fim dos anos 1980, um grupo de jovens passava as tardes ouvindo músicas que não tinham espaço nas rádios pernambucanas, dominadas pelo axé baiano e pelo rock do Sudeste. Vinis recém-lançados em outros países e fitas cassetes raras eram bens preciosos nas mãos de quem ansiava pela troca de informação, escassa na época. Naquele grupo que começava a enfrentar a vida adulta, a união se dava pela apreciação de bandas new wave, pós-punk, hip-hop e funk; discussões sobre literatura e, principalmente, pela junção de mentes inquietas em efervescência.

Do lado de fora, a cidade era um caos. Os índices de qualidade de vida, desemprego e violência não eram favoráveis, e o Estado de Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto passava por um marasmo cultural, social e econômico. Nesse contexto, Recife viu nascer o manguebeat, movimento de contracultura que, por meio da mistura de ritmos, mostrava as desigualdades da região. Naquela altura, Pernambuco virava berço de uma figura que rompeu barreiras geográficas e apontou, em sua música, as injustiças sociais testemunhadas por todos. Era Chico Science.

Vinte anos após sua morte precoce, a memória de Francisco França continua presente. Apontado como o catalisador do manguebeat, Chico se tornou figura de associação imediata à cena. Hoje, no Recife, além de um memorial e uma estátua em sua homenagem, até um manguezal leva seu nome. “Ele foi um criador, um mestre, um artesão dos sons. Foi como Caetano e Gil na Tropicália, como João Gilberto na Bossa Nova, ou Erasmo e Roberto na Jovem Guarda. Aquele criador timoneiro que, sem estrelismo e com respeito às tradições, dirigiu o barco do manguebeat”, afirma Herom Vargas, autor de Hibridismos musicais de Chico Science & Nação Zumbi (Ateliê, 2007).

“Ele tinha essa capacidade de falar com o povo. Foi um grande líder, mesmo que não tivesse a intenção de ser”, afirma José Carlos Arcoverde, conhecido como Mabuse, o “ministro da tecnologia” do manguebeat. Era ele quem fazia alguns dos cartazes dos shows e das festas do movimento. “Ele tinha desenvoltura para colocar um autor como Josué de Castro como parte de um referencial simbólico para os moleques que estavam ouvindo as músicas. Depois de Chico, nunca vi mais nada igual”, diz o amigo.

Assim como o barco de Caetano e Gil levou Rita Lee e Tom Zé, a Bossa Nova de João Gilberto cresceu no apartamento de Nara Leão, e Wanderléa foi marca da Jovem Guarda com Roberto e Erasmo, Chico não estava sozinho. O manguebeat era encabeçado por todos aqueles jovens que ajudaram a criar uma revolução cultural. Mas, até alcançá-la, percorreram um longo caminho.

Manguetown

Caçula de quatro filhos, Science começou sua história com a música por meio do amor pela black music norte-americana e figuras como James Brown e Grandmaster Flash. Na escola, frequentou as poucas e únicas aulas de teoria musical que faria. Todas as suas composições se dariam com onomatopeias anotadas e repetidas para os músicos das bandas pelas quais passou. “Ele tinha uma inteligência pop muito aguçada e intuitiva, apesar de não ter a formalidade educacional. Pegava a orelha de um livro e captava aquilo que batia com o desejo das pessoas”, conta Hélder Aragão, o DJ Dolores, que Chico conheceu no período em que frequentava o grupo de break “Legião Hip Hop” com Jorge Dü Peixe, atual vocalista do Nação Zumbi.

Dolores, responsável pela identidade visual do manguebeat, havia chegado recentemente de Sergipe e seu apartamento logo se tornou o ponto de encontro dos estudantes, que ainda moravam com os pais. “Eu brinco que eu sou a Nara Leão do manguebeat. Tudo começou no meu apartamento, foi a música que uniu todo mundo.”

Eventualmente, todas as cabeças necessárias para iniciar um movimento estavam ali. Dü Peixe, amigo de infância e parceiro musical de Science; Fred 04, estudante de comunicação e criador da Mundo Livre S/A; Mabuse e Renato L., companheiros de Fred no programa “Décadas” na rádio universitária; Lúcio Maia e Alexandre Dengue, músicos da Orla Orbe e Loustal, bandas de Chico no fim da década de 1980. O grupo só crescia.

Com o que sobrava dos salários, era hora de colocar em prática o lema de “mudar o lugar ou mudar de lugar”, produzindo festas em uma cidade que só abria os bares para a música regional e heavy metal. A solução foi fazer parcerias com os cabarés e se aproveitar do ar boêmio da antiga zona portuária, que, no início da década de 1990, ainda era considerada decadente.

A proposta musical era quase que educativa. “Ninguém era DJ profissional, era uma programação que tocava de Sam Cooke a Talking Heads. A única coisa em comum na variação dos sons era o fato de eles não tocarem em outros lugares. Não tínhamos a obrigação de uma pista lotada. Era algo meio missionário”, brinca Fred Rodrigues Montenegro, o Fred 04.

Como resultado das festas, o grupo começou a formar um público que se identificava com o novo conceito. “De repente nos vimos fazendo parte da cidade, descobrimos a nossa voz. Ver que o que estávamos fazendo tinha efeito nos dava um certo senso de cidadania”, lembra Dolores, que começou sua carreira como DJ naqueles eventos.

Simultaneamente, Chico era apresentado pelo colega de trabalho Gilmar Bola 8 ao Lamento Negro, grupo social da comunidade de Peixinhos, em Olinda. A mistura de maracatu, coco de roda e samba-reggae chamou sua atenção. Nos ensaios, conheceu o percussionista Maureliano, que segundo o músico Pácua, amigo de Chico e cantor do Lamento Negro à época, foi quem executou as batidas que viriam a se tornar marca do Nação Zumbi. “Ele disse o que queria e Maureliano fez na hora. Chico foi a cabeça, e o Mau, a execução. Chico foi o cara que teve a sensibilidade de ver aquele som no gueto e reconhecer o potencial para espalhar pelo mundo.”

Com a batida na cabeça e percussionistas do Lamento Negro na banda, a Loustal de Lúcio Maia e Dü Peixe se tornava Chico Science & Lamento Negro e, posteriormente, Chico Science & Nação Zumbi. Fizeram sua estreia em 1991, em Olinda, com um som que era uma mistura de todas as referências do grupo: o rock, a black music e os ritmos regionais.

O conceito de som do mangue veio em seguida, em uma mesa de bar, com um empolgado Science planejando um evento coletivo que levasse as batidas para o resto do país. Pácua brinca que às vezes achava que Chico vinha do futuro. “Ele falava como se soubesse que ia dar certo, parecia um filósofo com aquele papo de mangue. No Brasil, os caras com visão são considerados loucos, quando na verdade são gênios”.

Choque na lama

A metáfora do mangue como um ecossistema produtivo e diverso que sobrevivia em uma cidade sem energia foi trabalhada coletivamente. Como jornalista, Fred decidiu reunir todas as ideias em um release, a fim de divulgar o festival de música idealizado por Chico, o “Viagem ao centro do mangue”.

Assim que foi recebido pela imprensa, em 1992, o “Caranguejos com cérebro” ganhou ares de manifesto e acabou se tornando um registro definitivo e incansavelmente reproduzido do nascimento de uma nova cena musical no Recife e no Brasil. “Eu quis passar o que a gente via: pessoas brilhantes indo embora depois de formadas e ninguém ficando no Recife para pensar em um projeto para a cidade”, afirma o líder da Mundo Livre S/A, uma das mais importantes bandas daquela cena.

Mabuse ainda se impressiona com a falta de intencionalidade na criação do manguebeat. “O papel do acaso nessa história é fantástico, porque o grande objetivo não era criar um movimento. A única intenção era a de conseguir viver de produção musical. Mas a metáfora usada foi muito feliz, fez todo o sentido”, diz o amigo de Chico.

Com ou sem intenção, o manifesto incitou uma onda que atingiu até outros segmentos. “Percebemos que, além da nossa pequena turma, outras pessoas na cidade, até da moda e do cinema, compartilhavam aquele desejo. O rótulo acabou tomando conta de qualquer coisa que se produzisse no Recife. Bandas de hardcore eram manguebeat, assim como bandas de hip-hop e forró”, lembra Dolores.

Ao mesmo tempo, a carreira de Science com o Nação Zumbi deslanchou. Em 1994, o grupo lançou Da lama ao caos, seu primeiro álbum, pela Sony Music. Gravado no Rio de Janeiro e produzido por Liminha, o disco não teve o espaço esperado nas rádios brasileiras. A banda, no entanto, saiu em uma turnê internacional que passou pelos Estados Unidos e Europa. Os shows no exterior se repetiram após o lançamento de Afrociberdelia, em 1996. Produzido por Eduardo BiD, teve melhor desempenho que o primeiro e participação de convidados como Gilberto Gil e Marcelo D2. Posteriormente, os dois álbuns foram incluídos na lista dos 100 melhores discos da música brasileira da revista Rolling Stone, em uma votação feita com jornalistas, produtores e estudiosos.

O manguebeat se espalhava pelo mundo ao mesmo tempo que mudava radicalmente a cultura pernambucana, tornando-a mais democrática. “A música passou a ser uma plataforma de crítica à cidade, mas também de valorização do universo do trabalhador, da cultura negra, periférica. A cultura pernambucana sempre foi conservadora e elitista. O mangue rompe com esse padrão”, afirma a socióloga e estudiosa do movimento Carolina Leão.

Para a também socióloga Paula Tesser, Science teve função primordial nesse sentido. “Ele propôs, através do riso, a invenção do brasileiro que, mesmo estando abandonado à sua sorte, deve reagir, transformando sua tristeza em diversão musical”, diz.

Longa vida ao groove

Em um período de férias no auge da banda, em fevereiro de 1997, o carro de Chico Science se chocou contra um poste no trecho entre Recife e Olinda, e o músico não resistiu. Com o impacto da perda, Fred 04 e Renato L. escreveram um novo manifesto intitulado “Quanto vale uma vida”, que relembra a intensa produção cultural dos cinco anos anteriores, a importância do cantor e a necessidade de o Nação Zumbi continuar existindo, uma ideia unânime entre os membros do movimento. O grupo segue ativo até hoje, com Jorge Dü Peixe no vocal.

Para os mangueboys, Chico foi essencial na consolidação do manguebeat e, com sua energia, era a representação perfeita daqueles ideais. “Tantas coisas mudaram no planeta e parece que ele já sabia de tudo”, lembra o músico Otto, que foi percussionista da primeira formação do Nação Zumbi e do Mundo Livre S/A. “Chico está nos cordões dos mestres da sabedoria popular, é composto dos sonhos pernambucanos, dos versos proféticos e das rimas do MC. O Brasil conheceu uma lenda do rock, do rap e do maracatu. Tem gente que faz tanta coisa em tão pouco tempo na terra”, diz.

Zero Quatro e Dolores destacam o espírito festivo e incansável do compositor. “Ele não se conformava com as coisas paradas. Podia estar na quarta pior cidade do mundo, mas, se precisasse mover uma montanha pra fazer uma festa, ele fazia. Chico não ia se divertir pela metade se podia fazer isso 100% do tempo. Estar com ele sempre era algo rico”, afirma Fred. “Era um entusiasmo absolutamente contagiante. As pessoas tendem a ser muito pessimistas com as coisas, mas ele já chegava dizendo que ia dar certo, convencendo todo mundo a se envolver”, conta o DJ.

E, de fato, convenceu. Em 2009, o manguebeat de Chico, Fred 04, Dü Peixe, Mabuse, Renato L., Lúcio Maia, Dengue e tantas outras pessoas se tornou patrimônio imaterial de Pernambuco. As crianças aprendem sobre a importância do movimento e de Science nas escolas. No Recife e em Olinda, artistas ligados ao manguebeat levam o legado e as ideias de Chico e seus companheiros para as novas gerações por meio de ONGs e trabalhos sociais para crianças e adolescentes. O movimento, assim como a relevância de Chico Science, segue cheio de vida.

Laura Lewer/Revista Cultural

segunda-feira, 11 de março de 2024

A ‘nova cesta básica’ com menos ultraprocessados

 Gazeta da Torre

Modificação visa reduzir risco de doenças, valorizar a agricultura familiar e proteger o meio ambiente.

O presidente Lula assinou na terça-feira, 5, um decreto que institui a nova composição da cesta básica – kit de alimentos essenciais para a alimentação da população. Com mais itens in natura ou minimamente processados, a ideia do governo é tornar a alimentação do brasileiro mais diversificada e saudável.

A principal mudança é a redução na oferta de ultraprocessados. Segundo evidências científicas, o consumo de alimentos industrializados ricos em açúcar, gordura e aditivos aumenta a prevalência de doenças cardiovasculares, diabetes, obesidade, hipertensão e diversos tipos de câncer.

O anúncio ocorreu durante a 1ª reunião plenária do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), no Palácio do Planalto.

Com a nova composição, a cesta básica será composta de alimentos de dez grupos diferentes, compondo um padrão alimentar mínimo para todo o país. Ela englobará:

- feijões (leguminosas)

- cereais

 - raízes e tubérculos

-  legumes e verduras

 - frutas

- castanhas e nozes (oleaginosas)

- carnes e ovos

-  leites e queijos

- açúcares e sal

- óleo e gorduras

- café, chá, mate e especiarias.

Alguns itens que anteriormente compunham a cesta básica foram excluídos, como biscoitos recheados, macarrões instantâneos, misturas para bolo e molhos, entre outros ultraprocessados.

Na prática, o texto vai servir para guiar e orientar o governo federal na formulação de políticas públicas relacionados à produção, ao abastecimento e ao consumo de alimentos. 

“O movimento do governo de excluir os alimentos ultraprocessados da cesta básica está de acordo com as nova diretrizes da reforma tributária, que estabelece princípios relacionados à preservação do meio ambiente, da saúde e da sustentabilidade social. O Governo Federal não pretende seguir desonerando ou concedendo benefícios a produtos e serviços que não estejam alinhados a esses preceitos atuais”, diz Maira Cristina Santos Madeira, advogada tributarista e sócia do escritório Abe Advogados.

O Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome afirma ter utilizado critérios de acordo com a sustentabilidade, sazonalidade e  benefícios à saúde para compor a cesta. Dessa forma, serão priorizados, sempre que possível, alimentos agroecológicos, locais e oriundos da agricultura familiar.

Também foram observadas  diretrizes importantes como a Política Nacional de Alimentação e Nutrição e o Guia Alimentar para a População Brasileira, que completa dez anos em 2024.

Por que menos ultraprocessados?

O alerta sobre os alimentos que podem ser prejudiciais à saúde ganhou força no Brasil em outubro de 2022, quando entrou em vigor a mudança na rotulagem de produtos embalados por determinação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) após discussões que duraram uma década.

Com a nova regra, os itens passaram a ter, em destaque, informações sobre o excesso de três nutrientes: açúcar, gordura e sódio.

Além disso, de acordo com um novo estudo publicado em fevereiro, no jornal BMJ Global Health, o consumo frequente de alimentos ultraprocessados está associados ​a problemas de saúde, como doenças cardíacas e pulmonares graves, tumores malignos, perturbações de saúde mental e morte precoce.

A pesquisa também levanta a questão do que deve ser feito para controlar e reduzir a produção e consumo dos ultraprocessados. Segundo os cientistas, só a reformulação destes produtos não elimina os danos e a rentabilidade desencoraja os fabricantes a mudarem a produção para alimentos nutritivos.

Por isso, ações de controle e políticas públicas – como a decretada pelo governo – são essenciais. Por exemplo: a restrição de publicidade, a proibição da venda desses produtos em frente ou perto de escolas e hospitais e medidas fiscais que tornem os alimentos não processados ​​tão acessíveis, disponíveis e baratos quanto os ultraprocessados. 

Fonte: Veja

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terça-feira, 5 de março de 2024

A onda de calor

 Gazeta da Torre

O relatório da Organização Climate Central, sediada nos Estados Unidos, avalia que os recordes de temperatura registrados em várias partes do mundo "não surpreendem" e fazem parte da "tendência de aquecimento alimentada pela poluição de carbono".

"Enquanto a humanidade continuar a queimar carvão, petróleo e gás natural, as temperaturas continuarão a subir, e os impactos disso vão acelerar e se espalhar", alerta a entidade.

Para lidar com o problema — ou ao menos mitigar seus efeitos na economia e na saúde de bilhões de pessoas — especialistas apostam justamente na transição energética rumo a fontes menos poluentes e na preservação das florestas.

Os acordos políticos e diplomáticos que tentam viabilizar esse processo — discutidos anualmente nas cúpulas do clima organizadas pelas Nações Unidas — tentam assegurar que a subida dos termômetros pelos próximos anos não ultrapasse certos limites (como um aumento de até 1,5 °C em relação aos níveis pré-Revolução Industrial), para minimizar as consequências deletérias.

A ideia, por exemplo, envolve substituir os combustíveis fósseis — que geram os gases por trás do efeito estufa e do consequente aquecimento do planeta — por fontes de energia sustentáveis e renováveis.

Outro aspecto fundamental dessa equação está em reduzir drasticamente o desmatamento, especialmente de florestas tropicais como a Amazônia. Isso porque essas reservas contêm grandes quantidades de carbono e ajudam a frear a subida da temperatura global.

"Essa mitigação não é simples, mas precisa ser feita para conseguirmos ficar no melhor cenário possível. Isso exige cortes drásticos, mudanças na matriz energética e alterações estruturais na nossa sociedade", pontua a geógrafa Karina Lima, doutoranda e pesquisadora de clima na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS),

"Cada décimo de grau a mais que evitarmos importa e faz toda a diferença, inclusive na ocorrência de eventos extremos."

Lima ainda explica que, além da mitigação, é necessário discutir também a adaptação de cidades e bairros para esses cenários de calor extremo.

"Nós não estamos preparados para a realidade de agora e para lidar com eventos de chuvas fortes ou calor intenso", observa ela.

"Precisaremos repensar as cidades, aumentar a vegetação em locais estratégicos, como os pontos de ônibus e os locais em que as pessoas ficam expostas por um tempo prolongado, investir no isolamento térmico das casas, pintar telhados com cores mais claras, garantir o acesso à água potável e ao protetor solar, fazer campanhas de conscientização, evitar exposições ao calor que não sejam absolutamente necessárias...", lista ela.

"Não damos o devido valor à urgência deste problema. As mudanças climáticas são uma questão transversal, que afeta todas as áreas da nossa vida, da segurança alimentar à saúde e a economia."

"E esse é o maior desafio da Humanidade", conclui ela.

Fonte:BBC News Brasil

- divulgação -

Lixo já é abundante no fundo do mar brasileiro

 Gazeta da Torre

Detritos foram encontrados entre 200 e 1.500 m de profundidade e a 200 km de distância da costa nos Estados de São Paulo e Santa Catarina; descarte contamina peixes de mar profundo levados ao comércio, com efeitos a longo prazo

Tido como uma das principais opções de alimentação saudável, os peixes podem também trazer consigo pedaços de lixo e contaminantes mesmo se pescados no mar profundo, longe das praias. A presença desse material nas encostas continentais, que estão entre os ambientes mais remotos e menos conhecidos do Planeta, revela que o lixo é um problema que a humanidade está levando para todos os ecossistemas.

Essa preocupação foi levantada recentemente no primeiro registro científico de lixo em mar profundo do Brasil, publicado no Marine Pollution Bulletin por pesquisadores do Instituto Oceanográfico (IO) da USP. A grande quantidade de lixo foi encontrada entre 200 e 1.500 metros de profundidade, a cerca de 200 km de distância da costa nos Estados de São Paulo e Santa Catarina, durante as expedições do projeto Deep-Ocean, financiado pela Fapesp. O estudo foi liderado pela oceanógrafa Flávia Tiemi Masumoto e teve a supervisão do professor Marcelo Roberto Souto de Melo, ambos do Laboratório de Diversidade, Ecologia e Evolução de Peixes (Deep Lab) do IO.

O objetivo inicial do projeto era estudar a diversidade de peixes de mar profundo no Brasil. No entanto, os pesquisadores foram surpreendidos pela enorme quantidade de lixo coletado com os animais. A rede usada trazia frequentemente embalagens de alimentos, sacolas plásticas, garrafas, latas e utensílios de pesca. Alguns desses resíduos eram materiais altamente tóxicos e prejudiciais ao meio ambiente, como tintas para embarcações e latas de óleo para motor.

Dos 31 locais selecionados para a coleta — 16 a sudeste de Ilhabela (SP) e 15 próximos a Florianópolis (SC) —, em apenas três deles os peixes não vieram acompanhados de lixo. Separados pela composição, o plástico representou mais da metade da quantidade desses itens e esteve presente em todos os locais pesquisados. Em seguida vieram os metais, com 14% do total; os têxteis, com 11%; o vidro, com 7%; e as tintas de embarcações, com 6%. Outros tipos de itens somaram 17%. Quando pesados, os objetos de vidro vencem, seguidos pelos de metal, de concreto e têxteis, com respectivamente 29%, 22%, 13% e 13% do peso total.

Há indícios de que parte do material pode estar no mar há décadas. “Nós conseguimos verificar a data de validade de alguns produtos. Tinha uma embalagem de coco ralado cuja data de fabricação era de 1996. Isso não significa que o material foi jogado naquela data, mas pode ser uma estimativa”, comenta Flávia.

Descarte ilegal

“A origem do lixo pode ser tanto o descarte no continente quanto diretamente no local. Como alguns compostos mais densos afundam rapidamente, é provável que tenham sido descartados pela tripulação de embarcações ou de plataformas, mas existe também a possibilidade de que as correntes marinhas transportem objetos com menor densidade, como as sacolas e embalagens plásticas” explica Marcelo.

Entre as maiores preocupações estão os blocos de tinta colhidos, que podem ser fonte de contaminantes. Nesse caso, o descarte durante a manutenção das embarcações seria a única explicação. “As tintas têm um composto que é justamente para que nenhum organismo fique aderido ao casco dos navios e plataformas, então são muito tóxicas para o meio ambiente”, ressalta Flávia.

Vale destacar que a descarga de substâncias nocivas ou perigosas no mar territorial brasileiro é proibida por lei desde 2000.

De acordo com o professor, uma política para evitar essa poluição seria a fiscalização das empresas que operam no mar, com treinamento e conscientização da equipe a bordo. O material que já está no local, no entanto, dificilmente será retirado. “Recolher esse lixo não é viável tanto do ponto de vista econômico quanto logístico.”

Microplástico

Outro impacto apontado é a presença de microplásticos no oceano, que pode também resultar do processo de fragmentação de pedaços maiores de plástico e, consequentemente, ser ingerido pelos organismos, inclusive aqueles importantes comercialmente, como a merluza, por exemplo.

Além disso, sabe-se que algumas espécies que migram verticalmente nos oceanos também podem ser uma fonte de microplástico para o mar profundo. “Algumas espécies de peixes ficam em regiões mais profundas durante o dia e à noite sobem para regiões mais rasas para se alimentarem. Eles servem como uma fonte de plástico para o mar profundo, porque podem comer o plástico da superfície e descer. Uma vez que são predados, esse material plástico pode passar na cadeia alimentar.”

Um indício de que os animais de mar profundo também consomem o que é despejado no oceano são grãos de milho e de soja encontrados no estômago de uma espécie de peixe-granadeiro coletada. Para entender melhor esse ciclo, o trabalho desenvolvido por Flávia em seu mestrado é o de estudar os impactos do lixo através da avaliação de microplástico ingerido pelos peixes apanhados no mesmo projeto. A próxima etapa será investigar a possibilidade de contaminação nos invertebrados encontrados em algumas amostras, como esponjas-do-mar, poliquetas e pequenos crustáceos.

Fonte: Jornal da USP

- divulgação -

segunda-feira, 4 de março de 2024

A importância de cachorros e gatos para pessoas idosas


Cachorros e gatos para pessoas idosas e para muitas pessoas representa uma relação familiar, na qual o amor, o carinho e a sensação de bem estar se manifestam. Além desses fatores, você sabe qual a importância dos denominados “pets” na vida das pessoas idosas?

Em uma rápida pesquisa em base de dados de produções científicas, como o Google Acadêmico, é possível identificar estudos de diversas naturezas que buscam correlacionar a interação de animais com pessoas idosas. De acordo com as produções científicas, essa interação pode colaborar, por exemplo, com o controle da pressão arterial de pessoas idosas residentes de instituições de longa permanência, terapias na área de fonoaudiologia, prevenção e superação de comportamentos suicidas e aspectos associados às demências.

Cachorros e gatos para pessoas idosas

Um estudo publicado por pesquisadores japoneses no mês de Outubro de 2023 descreve os benefícios do convívio de idosos com cães e/ou gatos. Cerca de 11.200 indivíduos com 65 anos ou mais foram acompanhados ao longo de quatro anos e passaram por avaliações de natureza cognitiva, sociodemográfica, psicossocial e hábitos de vida, como alimentação e prática de exercícios físicos.

Os resultados desse estudo indicaram que tutores de cachorros apresentaram 40% menor risco para o desenvolvimento de demência.

Outros dois fatores, além da tutoria de animal de estimação, foram associados a esses resultados: a atividade física e a interação social. Em conjunto os três fatores auxiliam na manutenção da qualidade física, cognitiva e psicológica de pessoas idosas.

Outro estudo, desta vez realizado por pesquisadores dos Estados Unidos, teve como objetivo investigar a relação entre pessoas com 50 anos ou mais que possuíam algum tipo de animal de estimação com variáveis cognitivas, físicas e psicológicas.

Neste estudo, 378 pessoas foram entrevistadas. Os resultados indicaram que tutores de cachorros apresentaram melhores resultados para a prática de atividades físicas diárias e os tutores de gatos apresentaram melhor desempenho nas habilidades de aprendizagem e memória semântica.

Apesar de encontrar estudos descritivos sobre a interação entre indivíduos idosos e animais de estimação em contexto brasileiro, esses estudos não apresentam uma amostra considerada grande e também não apresentam acompanhamento por um período de tempo elevado, o que dificulta a comparação com estudos internacionais. Também é válido destacar uma limitação de pesquisas que investigam os benefícios da interação entre idosos e animais de outras espécies, além dos cachorros.

Apesar dessas limitações, em resumo, a importância de animais de estimação como gatos e cachorros na vida dos idosos pode se manifestar nos aspectos:

• Psicológicos – corroborando com a redução de sintomas depressivos como a solidão e sintomas de estresse e ansiedade;

• Sociais – uma vez que a tutoria de um animal de estimação incentiva a interação social;

• Físicos – com o estímulo a prática de atividades como a caminhada, por exemplo.

Assina este artigo

Profa. Dra. Thais Bento Lima da Silva. Gerontóloga formada pela Universidade de São Paulo (USP). diretora científica da Associação Brasileira de Gerontologia (ABG). Membro da diretoria da Associação Brasileira de Alzheimer- Regional São Paulo. É parceira científica do Método Supera. Coordenadora do Grupo de Estudos em Treino Cognitivo da Universidade de São Paulo

Para reflexão:

O que não nos desafia, não nos faz mudar. Autor desconhecido

Você sabia:

Embora pensemos que nosso cérebro seja branco ou cinza, numa pessoa viva ele tem, na verdade, um tom rosado.

Resposta do desafio de Janeiro.

Se João fosse Maria, lago seria:

a) rio     b) córrego     c) mar     d) riacho     e) lagoa

Reposta: letra E.

Desafio de Fevereiro:

Há um saco cheio de grãos de café. Como você pode preencher completamente dois  sacos do mesmo tamanho com os grãos de café moído do primeiro saco?

Resposta na próxima edição.

Serviço:

Método Supera - Ginástica para o Cérebro

Responsável Técnica: Idalina Assunção (Psicóloga, CRP 02-4270)

Unidade Madalena

Rua Real da Torre, 1036. Madalena, Recife.

Telefone: (81) 30487906

Unidade Boa Viagem

Telefone: (81) 30331695

quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

A história de seu José Sebastião, nascido na década de 1930

 Gazeta da Torre

- Contas mudam e, com o tempo, merecem revisão -

Nascido na década de 1930, seu José Sebastião é uma pessoa simples, pés no chão, mas que sabe viver a vida, percebo que procurou oferecer o que tem de melhor para os filhos, um cara que é mesmo do bem.

Acho a oportunidade do convívio com pessoas mais velhas bem interessante, muito bacana o quanto podemos aprender simplesmente ao escutar, e ainda melhor quando é possível bater um papo mesmo, imagina quando essa pessoa, tão mais experiente está aberta também a te escutar, e muito mais, a aprender com você, é fantástico!

Ao longo dessa jornada como Personal Financeiro, algo como consultor, mentor ou planejador financeiro, nunca me importei com o título, mas sim com aquilo que o meu trabalho tem o potencial de proporcionar, de transformar a vida das pessoas, me deparo com os mais diversos perfis de diferentes estados, classes sociais, desafios e claro idades também, por mais que exista uma predominância maior numa determinada faixa, o público é de fato bem diversificado, o que me permite aprender muito.

Mas voltando a seu José, ele é um sonhador, mas não quero dizer que ele apenas sonha, ele realiza, corre atrás, e mesmo com mais idade está bem longe de ter desistido da vida, dos seus planos e dos seus sonhos mesmo, afinal como bom "fazedor" que é, ele está procurando fazer acontecer mais daquilo que gosta e que lhe dá prazer, acho sensacional!

Para isso, seu José já fazia há tempo o seu controle financeiro, porém não estava analisando da melhor forma, de fato era válido ter uma orientação, a fim de trabalhar melhor o controle que fazia, analisando de forma mais crítica e eficaz, de maneira que a partir dali pudesse fazer um plano de ações, observar os pontos de melhoria, o que otimizar no orçamento, alpara reduzir algumas despesas que tinha boas possibilidades para isso, como a conta de celular, anuidade do cartão de crédito, internet, isso mesmo, começando pelo básico, entre as demais despesas fixas, variáveis e as que ele considerava extras e em alguns casos já nem eram, pois recorrentemente estavam no seu mês, e precisavam de um espaço no orçamento.

Mas a questão não era apenas técnica, e na verdade,raramente, a mudança vem só de olho nos números. Sim, eles são bem importantes, mas o lado comportamental é que deságua no resultado financeiro, e seu José se permitiu mergulhar bem nisso, entendendo melhor as decisões que tomava no dia a dia, e que refletiam nas suas despesas, assim como o uso do cartão de crédito, das compras parceladas.

E com esse mergulho foi possível perceber o quanto podia evoluir com pequenas mudanças que sim, tem o poder de trazer resultados bem interessantes.

E lembro bem do dia que refletimos sobre os grandes naufrágios que aconteceram pelo mundo, e que a maioria deles não foi causada por grandes impactos, mas por pequenos buracos.

Isso mesmo, pequenos buracos afundam grandes navios, e o orçamento de muitas famílias também.

A ideia é que seu José esteja fora dessa, a fim de que possa absorver os gastos com saúde, entre outros imprevistos que surgem no dia a dia.

E aqui estou para apresentar seu José, por mais pessoas como ele, por mais pessoas sonhadoras, e que tem o prazer de viver intensamente, sempre abertas ao aprendizado e de olho no amanhã.

Abraço e até a próxima!

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

O CARLITOS BURGUER DA TORRE

Redação Gazeta da Torre


Como afirmam muitos pesquisadores do assunto, as origens do hambúrguer são incertas e permeadas de mitos e histórias, porém é bem provável que ele tenha sido preparado pela primeira vez da maneira como o conhecemos hoje em fins do século XIX ou começo do século XX. O hambúrguer moderno é derivado das necessidades culinárias de uma sociedade que mudava rapidamente devido à industrialização e, portanto, usufruía de menos tempo para o preparo de alimentos e consumo das refeições.

Grande parte do motivo pelo qual sua história é controversa deve-se ao fato de que os americanos disputam o título de terem sido os primeiros a combinar duas fatias de pão com um bife de carne moída, formando um "sanduíche de hambúrguer".

Já, aqui na Torre, o título de melhor hambúrguer da nossa região, é disputado de maneira acirrada e saudável pelas lanchonetes Carlitos Burguer e Vila Torre Original Burguer. Ambos produzem os hambúrgueres de forma artesanal, um dos pontos fortes que fazem bastante diferença perante os apreciadores do comentado sanduíche.

Aqui, em nossa matéria, iremos falar, aos nossos leitores do Gazeta da Torre, sobre a Lanchonete Carlitos Burguer, do nosso amigo Carlos Costa Cavalcanti, o famoso Carlitos.
 Carlitos em sua área de trabalho
Sua história de trabalho, no segmento que lhe tornou famoso, iniciou por volta de 1986 na cantina do conhecido Colégio Decisão. Lá, a luta já era grande. Atender crianças e adolescentes agitados não era tarefa fácil. Mas, no famoso horário de pico, a hora do recreio, Carlitos tinha uma carta na mão, a dedicada ajudante de nome Joseane Iara de Paula, sua companheira. Participação bastante agradável diante de tanta agitação gerada pelos alunos.

Joseane na época era bancária, e, após seu horário de trabalho, corria para a cantina onde prestava sua ajuda. Daí, já se formava uma dupla que anos depois iria fazer bastante sucesso.

Em 1994, Carlitos, com seus pequenos recursos adquiridos na cantina, instala sua primeira lanchonete na Ilha do Retiro. Um Trailer convertido em lanchonete, na Rua Senador Fábio Barros, Madalena. Espaço que passou a ser muito significativo para seu trabalho e sua história.

As coisas começaram a ficar mais puxadas. Carlitos trabalhava na cantina pela manhã e tarde, sendo que a noite trabalhava em sua lanchonete na Ilha do Retiro.

Meses de muito trabalho se passaram e, em 1996, Carlitos vende a cantina e adquire um pequeno espaço na Rua Vermelha, no bairro da Torre, que se tornaria sua central. “O espaço era tão pequeno que eu ficava apavorada para trabalhar no local”, conta Joseane, sua esposa.

Hambúrguer preparado, hambúrguer vendido, começou virar rotina. Em 1997, Carlitos inaugura a Lanchonete da Torre, outro Trailer convertido em lanchonete, agora na Rua Professor Trajano de Mendonça, 340, Torre. Era muito trabalho para pouco tempo. Tanto que em 1998, Joseane sai do banco e instala o delivery na Rua Vermelha. Vale lembrar que, na época, Joseane contava com ajuda de Dona Severina França para desfiar os peitos de frango. Hoje, sua filha Valdelane França, a Ninha, é funcionária do Carlitos e pessoa de confiança de Joseane. Coisas do destino.

Em 2002, com frutos de seu intenso trabalho, Carlitos compra um imóvel na Rua Dona Isabel de Barros, 103, Torre, onde passa a ser sua nova central.

Mas, as investidas não iriam parar por aí. Em dezembro de 2013, com muita determinação, Carlitos e sua esposa Joseane conseguem superar as burocracias que, por incrível que pareça, um trabalhador e pequeno investidor que tem seus impostos em dia ainda enfrenta (*O tempo para o projeto ser aprovado foi de 2 anos). E inaugura uma estonteante lanchonete na Avenida José Gonçalves de Medeiros, 84, Madalena. A nova unidade fica ao lado da saída secundária do estacionamento do antigo supermercado Extra, perto do Clube do Sport.

 A lanchonete na Avenida José Gonçalves de Medeiros, 84, Madalena;
Já, no dia 13 de Maio, com frutos de seu intenso trabalho, Carlitos inaugura mais uma unidade. Outra estonteante lanchonete na Rua José Bonifácio, próxima a  Delicatessen Nova Armada. Um novo e grande presente para os apreciadores de hambúrgueres de nosso bairro.

 A mais nova lanchonete na Rua José Bonifácio - Torre;
Hoje, a Lanchonete Carlitos Burguer conta com mais de 30 funcionários, sua central com câmara fria, seus projetos de investimentos são realizados por arquitetos, nos serviços de Delivery o transporte é realizado por uma empresa especializada em entregas, as lanchonetes, como a central, seguem rigorosamente os padrões de higiene entre outras citações. 

Quando perguntamos a Joseane o que mais falta, ela respondeu: “Eu e Carlitos já estamos amadurecendo a ideia de abrirmos uma franquia”, diz sorridente. E para finalizar, a pergunta: o que é Carlitos Burguer, hoje, para vocês, diante de tantas privações passadas e batalhas incontáveis? “Quase um filho”, responde ela.

#REPOST  Gazeta da Torre

Boa gestão depende de um propósito importante, confiança nas pessoas e responsabilidade sobre o sucesso do negócio

 Gazeta da Torre

Chieko Aoki

Para a presidente da Blue Tree Hotels, Chieko Aoki, alguns valores fundamentais para o sucesso do empreendimento podem guiar quem busca adentrar a jornada do empreendedorismo, como a responsabilidade pelo sucesso do negócio, a confianças nas pessoas, o reconhecimento das oportunidades certas, a criação de um círculo de laços – isto é, de conexões – e a identificação de um propósito.

 “A palavra ‘propósito’ é muito simples, mas se trata de saber para onde se está indo, se aquilo que estamos fazendo tem importância. Eu, por exemplo, criei um método de hospitalidade. Isso faz parte do meu plano de melhorar a qualidade de serviços no Brasil, agregando as qualidades do País às técnicas, aos procedimentos e ao aprendizado”, afirma, na segunda entrevista da série especial do Mês da Mulher, comandada pela jornalista Raquel Landim, do  Canal UM BRASIL, uma realização da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP).

Uma das estratégias implementadas por ela, inclusive, foi a adoção de elementos culturais de algumas regiões do mundo em seus negócios: a rigidez estadunidense com normas e processos; o espírito de “servir a reis e rainhas” e a elegância no atendimento dos europeus; e os elementos mais místicos e formais dos asiáticos, em particular os japoneses, como considerar o cliente um “presente divino”. “São coisas diferentes, mas que formam uma hotelaria melhor e dão mais capacidade para entender os clientes. A flexibilidade cultural me ajudou muito a compreender o nosso papel, o que tínhamos de fazer com determinadas culturas, bem como o que os clientes gostariam que fizéssemos. Esta mistura tem sido útil na busca de uma solução de hospitalidade que fosse brasileira. Um dos meus objetivos é criar a hospitalidade brasileira com as características universais que todos os clientes gostam.”

Outra das iniciativas dela, por exemplo, voltada às mulheres, foi a criação de um cargo que cuidasse das relações com as hóspedes, a fim de ajudar sobretudo as clientes a se sentirem mais à vontade dentro de um hotel. “Antigamente, não havia esta liberdade. As mulheres comiam no quarto, pois se sentiam constrangidas de entrar no bar”, lembra.

No bate-papo, a presidente da rede hoteleira ainda avalia a falta de espaços para mulheres liderarem negócios e empreendimentos. “Há barreiras transparentes, mas que existem, as quais as mulheres precisam romper. Uma coisa que hoje já não soa tão natural é uma fotografia [em um ambiente corporativo] composta somente por homens. Os líderes homens geralmente só indicam outros homens. O salto precisa ser grande, de forma que mais mulheres na liderança possam ‘puxar’ outras”, enfatiza a presidente da Blue Tree.

Turismo como política de Estado

Especificamente a respeito do setor de turismo em uma visão macro, a CEO comenta que os planos para o sucesso ainda envolvem estratégias mais duradouras, tendo em vista que a concorrência é internacional. “Quando o país não tem nenhum recurso, recorre ao turismo, pois sempre há algo diferente para mostrar. Como valorizar isso? Criando infraestrutura e um investimento de longo prazo consistente. É necessário um plano de Estado para o turismo.”

Além disso, ela pondera ser relevante fundamentar todo um processo de educação da sociedade sobre como receber turistas. “Eu vi este exemplo quando, nas Olimpíadas do Japão, as escolas primárias ensinavam as crianças. Todos estavam preparados para explicar o que tem em sua cidade, mostrar caminhos. É um trabalho de conscientização nas escolas, nos negócios e na sociedade”, conclui.

Fonte: UM Brasil

- divulgação -



terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

Grazing: o que o hábito de beliscar comida pode revelar sobre a nossa saúde mental?

 Gazeta da Torre


A prática de beliscar comida de modo contínuo, ao longo do dia, mesmo sem fome, é conhecido como grazing. Identificar esse comportamento pode ajudar a prevenir transtornos associados a problemas psicológicos e alimentares.

Essa é a conclusão do estudo de doutorado "Comportamentos alimentares nos contextos comunitário e de sobrepeso e obesidade: compreensão e avaliação do Grazing", defendido na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP, em março, pela psicóloga Marília Consolini Teodoro, sob orientação da professora Carmem Beatriz Neufeld.

A pesquisa mostra a importância do trabalho preventivo de regulação emocional para prevenir a manifestação desse tipo de comportamento.

Marília explica que o grazing, tema pouco estudado no Brasil, é o nome dado a comer quantidades pequenas ou modestas de alimentos de maneira repetitiva e não planejada, sem ser em resposta à sensação de fome ou saciedade, com algum nível de sensação de perda de controle. Segundo a professora Carmem, “em um primeiro momento, não é necessariamente um comportamento problemático ou associado a uma psicopatologia”. Mas explica que pode gerar desdobramentos associados a “uma maior probabilidade de desenvolvimento de uma psicopatologia, de uma patologia do comportamento alimentar”.

Por isso, a identificação desse comportamento, aponta a pesquisadora, poderá proporcionar “novas investigações para intervenções mais direcionadas, principalmente na área dos problemas alimentares”.

Assim como abordagens multifatoriais para tratar essas condições, que, “muitas vezes, não são consideradas um transtorno mental, mas estão extremamente relacionadas com condições psicológicas”, para que os pacientes sejam cuidados de forma integrativa e os resultados sejam mais efetivos.

O estudo colocou como hipótese o entendimento de que o grazing funciona como um mecanismo de regulação emocional para o alívio de ansiedade, por exemplo. Outros estudos já associaram o comportamento, principalmente, com a obesidade, a dificuldade de perder peso e outros tipos de transtornos alimentares e sintomas depressivos e ansiosos. “O peso está extremamente relacionado com condições psicológicas, assim como condições comportamentais, como é o caso desse comportamento em específico”, afirma Marília.

A pesquisadora investigou e avaliou a manifestação desse comportamento na população brasileira, com uma amostra comunitária de 542 pessoas, em que a maioria estava em nível de peso considerado normal, e uma amostra clínica de 281 pessoas, com participantes que apresentavam algum nível de obesidade.

Marília conta que as amostras foram comparadas para “entender também se havia alguma diferença na manifestação desse comportamento”. Na amostra clínica, o grazing foi mais prejudicial, mas também se manifestou de forma significativa na amostra comunitária, o que indica “a relevância desse comportamento no Brasil”.

As pesquisadoras dividiram a manifestação desse comportamento em dois grupos: o grazing repetitivo, que ocorre de forma contínua, porém mais leve, menos prejudicial e menos associado à perda de controle; e o grazing compulsivo, mais associado à perda de controle e a sintomas psicológicos.

Outro resultado que chamou a atenção das pesquisadoras foi que o estresse apresentou uma variação do grazing compulsivo, mais associado à perda de controle. “Então a gente entende que o estresse parece ser uma variável que colabora, que está relacionada com a manifestação desse comportamento.”

Adaptação e validação de questionário

Para a pesquisa foi utilizado o Repeat Questionary (Rep(eat)-Q), ferramenta que investiga a relação do grazing com o Índice de Massa Corporal (IMC) e a psicopatologia. O IMC é um índice usado mundialmente para saber se uma pessoa está em seu peso ideal, dividindo o peso pela sua altura ao quadrado. O questionário foi adaptado e validado pelas pesquisadoras para a população brasileira, mediante etapas de avaliação e estudo piloto, até chegar à versão final adaptada como Questionário de Belisco Contínuo. Foi aplicado também um questionário sociodemográfico e um questionário de avaliação de sintomas ansiosos, depressivos e de estresse.

Ao todo, a pesquisa contou com quatro etapas. Na primeira, as pesquisadoras traçaram um panorama sobre a avaliação psicológica de transtornos alimentares e problemas alimentares associados, apresentando o conceito de grazing e os instrumentos disponíveis para a avaliação. A segunda foi uma revisão da literatura sobre o tema e as definições usadas, população estudada, prevalência e associações já encontradas sobre o comportamento, além das lacunas que ainda existem sobre a questão. Já a terceira foi a adaptação e validação do questionário para a população brasileira e, para finalizar,  a aplicação nas amostras comunitária e clínica, além de análises de comparação entre elas.

Fonte: Jornal da USP

- divulgação -

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

O antissemitismo reciclado: preconceitos seculares alimentam o germe da intolerância

 Gazeta da Torre

Por Maria Luiza Tucci Carneiro, Historiadora e professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP

Em situações de crise – como esta em que o Brasil vive, abalado pelas fragilidades da nossa democracia –, constatamos que a polarização radical compromete a vida e negligencia a morte. É neste contexto que avalio o discurso antissemita e as acusações de genocídio feitas pelo presidente Lula da Silva ao Estado de Israel e ao povo judeu. Suas declarações emergem como uma terrível combinação de ingredientes clássicos que compõem o discurso antissemita de raiz, (re)alimentando versões deturpadas da História. Não foi por acaso que o ministro das Relações Exteriores de Israel, Israel Katz, afirmou que Lula é persona non grata em Israel até que se desculpe em relação à sua fala comparando a atuação atual de Israel ao Holocausto.

Após o ataque empreendido pelo grupo terrorista Hamas contra a população civil de Israel em 7 de outubro de 2023, a banalização do Holocausto ressurgiu em meio aos discursos do presidente Lula reciclados como arma política contra o Estado de Israel e à comunidade judaica como um todo. É fato que, desde outubro de 2023, o antissemitismo maquiado de antissionismo ganhou status de verdade, sendo disseminado por uma legião de racistas que sustentam discursos acusatórios sem a real dimensão das consequências.

Neste contexto, o antissionismo que mascara o “antissemitismo de raiz” assimilado por Lula deve ser interpretado como uma recaída da postura do governo brasileiro simbolizando um retrocesso na nossa luta contra o racismo, o negacionismo e a xenofobia. Recupera-se, assim, a histórica tensão entre antissemitismo/antissionismo e os ideais democráticos. As frases aleatórias e descontextualizadas que Lula tem empregado contra o Estado de Israel têm despertado sentimentos antijudaicos por parte dos seus correligionários e, ao mesmo tempo, têm gerado uma certa decepção naqueles que votaram no PT. Daí a importância de investirmos contra o negacionismo de natureza ideológica e contra o antissemitismo que, enquanto uma forma de racismo, tem servido aos grupos, tanto de direita como de esquerda, que atuam no cenário político nacional e internacional.

Independente de qualquer sigla partidária, negacionistas e antissemitas sempre tentam impor suas “visões de mundo” deturpadas pela ignorância dos fatos. Dessa forma, instigam a violência e o ódio, negando e/ou ignorando a verdade dos fatos históricos, dentre os quais o Holocausto, genocídio singular na história da humanidade. Os grupos signatários dos “tratados negacionistas” devem ser qualificados como uma espécie de “perpetradores da memória”, que por ignorância ou interesses políticos tentam sustentar falsas versões. Interessa a essas lideranças gerar uma multidão de desmemoriados, alienados e despossuídos de espírito crítico.

É evidente que a ignorância favorece o avanço de movimentos “antis” que, valendo-se das crises sociais, vêm a público no formato de discursos de ódio. Assim, sob este viés, poderemos avaliar a proliferação de novas cepas de perpetradores das mais distintas linhagens: racistas, revisionistas, negacionistas, populistas, neonazistas, fascistas, dentre outros “istas” e “ismos”. O debate sobre este tema passa, necessariamente, pela compreensão dos direitos humanos, levando-nos a refletir acerca da responsabilidade do Estado sobre a vida do cidadão.

Aqui retomamos o tema da banalização do Holocausto: o fato do Holocausto ser uma categoria única dentre tantos outros genocídios, tem servido aos negacionistas, neonazistas e antissemitas para desmoralizar os testemunhos das vítimas, dentre as quais temos seis milhões de judeus assassinados pelos nacional-socialistas e colaboracionistas. Aliás, esta é mais uma das razões para o Estado brasileiro estimular (e não negar) a memória pública de um dos episódios mais abomináveis da história: o Holocausto, além de estimular o processo de implementação de dois Estados: o Estado de Israel e o Estado Palestino.

Neste Brasil multirracial – que desde o seu descobrimento convive com o racismo (histórico e estrutural) e a discriminação contra negros, judeus, indígenas, ciganos, doentes mentais e dissidentes políticos – fica difícil falarmos em uma política de intolerância zero, pois esse ódio, assim como a ignorância, tem raízes seculares neste país. Se por um lado as lideranças políticas têm dificuldades em assumir a verdade histórica e promover a justiça social, por outro, os negacionistas aproveitam-se das redes sociais para instigar o linchamento virtual daqueles que clamam pelos seus direitos, incluindo o direito à vida e o direito de existir enquanto nação.

Essa equidistância pragmática herdada do governo Vargas foi retomada em 1975, quando o governo brasileiro, atingido pela crise mundial do petróleo, optou por uma postura radical: votou na Assembleia Geral da ONU a favor da Resolução n. 3379, que qualificava o “Sionismo como forma de racismo e discriminação racial”. Com o fim da Guerra Fria alguns países árabes e muçulmanos, junto com Cuba, Coreia do Norte e Vietnã, não mudaram suas posições apesar da Resolução n. 4686, de 1991, ter anulado a decisão da Resolução n. 3379.

A grande guinada do Estado brasileiro no reconhecimento da centralidade do racismo na estruturação das desigualdades sociais foi dada em 2001, por ocasião da 3ª Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e Formas Correlatas de Intolerância, promovida pela ONU em Durban, na África do Sul. Em meio ao debate, os países árabes tentaram desviar o foco da reunião ao comparar, novamente, o sionismo ao racismo. Felizmente, no documento final, os países participantes, incluindo o Brasil, proclamaram que o Holocausto não deve ser nunca esquecido, além de condenarem a persistência e o reaparecimento do neonazismo, do neofascismo e das ideologias violentas baseadas em preconceitos raciais ou nacionais. Declararam, por consenso, que esses fenômenos “não se podem justificar em qualquer caso, nem em qualquer circunstância”.

Atualmente – analisando as recentes falas do presidente Lula da Silva classificando as ações de Israel como genocídio, comparando-as ao Holocausto [sic] – constatamos que o eixo de argumentação emerge desfocado, destituído de saber e do sentimento de humanidade que privilegia o direito à vida. O Holocausto não deve ser visto como um “item ocasional da conduta do Terceiro Reich na Segunda Guerra Mundial”, e sim como uma política meticulosamente planejada pelas lideranças do Estado nacional-socialista alemão e executado por meio de aparatos repressivos do poder, como a polícia e a censura. Calculismo, burocracia, antissemitismo e fanatismo foram ingredientes que garantiram sucesso à fórmula acionada por Adolf Hitler, que, a partir de 1933, encontrou um ambiente de crise propício à proliferação de suas ideias antissemitas.

Daí a importância de distinguirmos o que realmente foi o Holocausto, que, pela força de suas singularidades, é hoje considerado como um genocídio sem precedentes na história da humanidade: exatamente por ultrapassar a ideia de “tragédia judaica”, por envolver outras minorias em diferentes escalas e, ao mesmo tempo, por trazer para o debate a questão humana, ainda que irrepresentável em sua absoluta excepcionalidade, como querem alguns.

Enfim: não podemos dar chance à proliferação da mentira que fundamenta a “teoria da cegueira”. Antes de empregar de forma irresponsável as palavras Genocídio e Holocausto, todo cidadão deve estar atento às persistências e ambiguidades dos discursos racistas. Tais “enganos” corroem a democracia alimentando visões distorcidas com o propósito de acuar, perseguir, isolar e, até mesmo, exterminar aqueles que não se encaixam no modelo idealizado como “normal”. Revisitando o nosso passado e avaliando a atual crise humanitária vivenciada por israelenses e palestinos na Faixa de Gaza durante o conflito Israel versus grupo terrorista Hamas, questiono: a quem serve a cultura da ignorância que privilegia o terror e a mediocridade?

Uma coisa é certa: a ignorância mata, sendo hoje uma espécie de “vírus” que abre fissuras para a proliferação de novas cepas racistas das mais distintas linhagens. Enquanto resíduos criptografados no inconsciente coletivo, os arquétipos antissemitas sugerem (e instigam) os seres humanos a endossar ações para a violência e o ódio sem limites. Assim, considero que, atualmente, os mitos sobre os judeus emergem reciclados, simultaneamente e em várias partes do mundo, corroídos por preconceitos seculares que carregam nas suas entranhas o germe da intolerância. Para a escala do ódio basta um passo.

Fonte: Jornal da USP