quarta-feira, 4 de março de 2026

Moda pode ser fator de diferenciação, segundo contextos políticos, culturais e econômicos

 Gazeta da Torre

A moda segue tanto um desejo de diferenciação quanto um desejo de sinalizar um pertencimento, mas sempre como um movimento social que expressa algum valor

As tendências da moda são cíclicas e afetadas de acordo com a realidade da sociedade em cada momento, com influência do contexto social, político e econômico. No atual cenário, em que a moda parece estar em constante transformação, o protagonismo das redes sociais intensifica a dinamização da vida e evidencia a criação e o fim de tendências, além de suas diferentes origens.

Tendências e as classes sociais

Maria Clotilde Perez Rodrigues, professora do Departamento de Relações Públicas, Propaganda e Turismo e diretora da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, afirma que a tendência pode ser entendida como um movimento social que expressa algum valor: elas nascem de um contexto e geram manifestações, como a moda. Ou seja, tensões do ambiente político, econômico, social, educacional, tecnológico interferem nessas tendências e, assim, também alteram as manifestações.

Clotilde explica, também, a relação entre a criação das tendências e as classes sociais. A professora conta que, historicamente, as classes privilegiadas ditavam a moda, influenciando as outras camadas da sociedade, mas que também buscavam se diferenciar. Hoje, contudo, é possível observar esse movimento acontecendo em outras direções: “Acontecem também movimentos de baixo para cima, que a gente chama de bubble up. Por exemplo, um movimento como o funk começa nas classes menos favorecidas, principalmente dos grandes centros, e eles vão para cima. Elas sobem em direção a camadas que estão numa condição mais privilegiada, como a gente pode constatar que não tem hoje um grande evento ou um casamento de uma classe social mais abastada que não termina em funk. Então esse também é um movimento de baixo para cima”.

Padrão de consumo e pertencimento social

Por outro lado, as conjunturas histórica, econômica e política também moldam a forma de expressão das pessoas. O professor André Vereta Nahoum, do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, comenta que essas mudanças têm a ver com o acesso a recursos. “Quando os tecidos eram naturais, mas mesmo agora tecidos sintéticos estão ligados a petróleo, acesso a petróleo, à transformação do petróleo. Socialmente também. Porque, na verdade, você tem, historicamente, uma mudança muito grande do padrão de consumo. Se consome mais e mais rápido do que se consumia no passado. Se comprava pouca roupa, a roupa precisava durar muito tempo. Hoje em dia é uma roupa feita para muito menos.”

Momentos da história de profundas disputas políticas foram marcados pela moda e consumo: “Tem o caso célebre do Gandhi, que falou, ‘olha, a luta contra o império, a luta contra a metrópole, tem que ser uma luta para usar os nossos tecidos e não os tecidos que vêm do Reino Unido'”.

Além disso, Vereta aponta que a moda é sobre inovar em qualquer forma de expressão em que um grupo busque mostrar que é inovador. “A gente adere a um estilo de se vestir, a um estilo de música, à expressão artística, o que quer que seja, porque essa adesão opera como um símbolo de que a gente está junto ou quer ser visto pelos outros como pertencendo a um grupo social que também se veste daquela maneira, também ouve aquele tipo de música, também frequenta aqueles espaços. No geral, hoje em dia, a gente acha que é uma combinação de ambos. Quer dizer, tem tanto um desejo de diferenciação quanto um desejo de sinalizar um pertencimento”, explica.

O professor comenta como a sociedade hoje é centrada no consumo e que, por isso, o jogo da moda é aderido por todas as classes sociais. Ele destaca, também, a participação de celebridades e influencers promovendo nas redes sociais esses símbolos de novas formas. “Mas a moda é um espaço muito bom para a gente ver também como indivíduos se apropriam disso de modo criativo o tempo todo e fazem combinações, recombinações e bagunçam um pouco o tempo todo esse jogo. É um jogo dinâmico. Então, sem dúvida, recursos importam, mas a gente vê o tempo todo pessoas fazendo o que podem com os recursos que têm para bagunçar um pouco o que poderia parecer mais determinado, e não é tão determinado assim.”

Fonte: Jornal da USP

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