domingo, 1 de fevereiro de 2026

Entre Orelhas: o cachorro, o banqueiro e o Brasil

 Gazeta da Torre

*imagem: “O Cão”. Pintura de Francisco Goya, 1823. Fonte: Museu do Prado. O Cão é uma das “Pinturas Sombrias” de Goya, um conjunto de catorze imagens que ele criou enquanto vivia numa casa chamada Quinta del Sordo, que se traduz como a Villa dos Surdos. Na fase final da sua vida, Goya sofria de transtornos mentais e físicos, toda essa dor e agonia é visivel nas pinturas em questão.

Orelha não devia bilhões a ninguém. Seu único "crime" foi existir no lugar errado, na hora errada, cruzando o caminho de jovens para quem a violência se tornou uma forma de entretenimento, uma performance a ser transmitida ao vivo pelo Discord

O Brasil, este vasto palco de contradições, encena diariamente um drama que oscila entre a tragédia e a farsa. De um lado, a frieza dos números, os bilhões que evaporam em esquemas financeiros complexos, protegidos por um labirinto de liminares e sigilos. Do outro, a brutalidade visceral, o som de ossos se partindo sob o peso de uma violência gratuita, filmada e compartilhada como troféu. Em ambos os cenários, um mesmo espectro assombra a nação: a impunidade, essa entidade onipresente que garante que, no fim das contas, a balança da justiça penderá sempre para o lado do privilégio.

Em um canto do ringue, temos Daniel Vorcaro, o arquiteto do que o próprio Ministro da Fazenda descreveu como a “maior fraude bancária” do país (eu diria banqueira, bancária é trabalhadora, não herdeira). Com o Banco Master, tudo indica que Vorcaro orquestrou um esquema que fez desaparecer algo entre 12 e 23 bilhões de reais, através da mágica contábil de vender carteiras de crédito que, na prática, não passavam de fumaça. É o tipo de crime que não suja as mãos de sangue, mas corrói as fundações da confiança pública (ou deveria) e drena recursos que poderiam construir hospitais, escolas ou, quem sabe, abrigos para os incontáveis “Orelhas” que perambulam pelas ruas.

E por falar em Orelha, no outro canto do ringue, temos sua história. Um cão comunitário, um vira-lata de dez anos que conhecia a Praia Brava, em Florianópolis, como a palma de sua pata. Sua rotina de afagos e restos de comida foi interrompida por uma sessão de tortura perpetrada por quatro adolescentes de classe média-alta. Orelha não devia bilhões a ninguém. Seu único “crime” foi existir no lugar “errado”, na “hora errada”, cruzando o caminho de jovens para quem a violência se tornou uma forma de entretenimento, uma performance a ser transmitida ao vivo pelo Discord (aplicativo usado por gamers).

À primeira vista, os dois casos parecem pertencer a universos distintos. O que a alta finança, com seus ternos bem cortados e jargões impenetráveis, tem a ver com a crueldade suburbana de jovens entediados? Tudo. Ambos são manifestações da mesma doença social, a certeza de que certas vidas e certas ações estão acima da lei. Vorcaro, com suas alegadas conexões políticas que se estendem de Ciro Nogueira a Ibaneis Rocha, move-se em um tabuleiro onde a “facilitação política” é apenas mais uma peça no jogo. Seus advogados tecem defesas, seus aliados nos altíssimos escalões da República garantem o sigilo do processo, e a opinião pública assiste, perplexa, à transformação de um rombo bilionário em uma nota de rodapé nos jornais.

Enquanto isso, os agressores de Orelha, após o ato, embarcam para uma viagem “pré-programada” à Disney, o templo máximo do consumo e da fantasia, como se a brutalidade que deixaram para trás fosse apenas um pesadelo a ser esquecido entre montanhas-russas e personagens sorridentes. Parece que o Mickey não tem cessado de vencer. Lembremos que a juíza Vanessa Cavalieri, que estuda a radicalização de jovens, alerta que o que aconteceu com Orelha não é um ponto fora da curva, mas um evento diário nas profundezas da internet, onde a tortura animal virou commodity, com uma média de 30 cães e gatos mortos por noite em transmissões ao vivo. O mundo é sombrio, brava gente que lê.

O privilégio, em ambos os casos, opera como um solvente universal da responsabilidade. Para Vorcaro, é o privilégio do capital, a capacidade de comprar influência, de contratar os melhores advogados, de navegar pelos corredores do poder com uma desenvoltura que o cidadão comum jamais sonharia. Ele nega a fraude, claro, e chega a ironizar, dizendo que, se tivesse tanto poder, não estaria sendo investigado. É a clássica inversão de narrativa: a vítima, agora, é o bilionário acuado pela justiça. O privilégio se ressignifica como perseguição.

Para os adolescentes, o privilégio é o da classe social e da idade. A certeza de que o sobrenome, a escola cara e a viagem internacional funcionam como um passaporte para a impunidade. A violência que praticam é dessensibilizada, um produto de horas a fio consumindo conteúdo extremo online, um fenômeno que transforma a empatia em fraqueza e a crueldade em status. O privilégio, aqui, se ressignifica como uma “fase”, um “desvio de conduta” de “bons meninos” que “não tinham a intenção”.

Essa história de impunidade não é nova. Ela é a argamassa que une os tijolos da história brasileira. É a mesma impunidade que permitiu que, em 1997, jovens de Brasília queimassem vivo o indígena pataxó Galdino Jesus dos Santos e, mais tarde, tivessem suas penas reduzidas a quase nada. É a mesma lógica que garante que crimes de colarinho branco – Collor e PC Farias que o digam – raramente resultem em algo além de uma tornozeleira eletrônica e uma biografia de superação. A mensagem é clara e consistente: no Brasil, o tamanho do crime e a severidade da punição são inversamente proporcionais ao status social do criminoso.

Vorcaro e os agressores de Orelha são, portanto, dois lados da mesma moeda farsesca. Um representa a violência fria e sistêmica, que opera nas sombras dos balanços e dos gabinetes. Os outros representam a violência quente e explícita, que se manifesta na ponta de um porrete contra um corpo indefeso. Mas a origem de ambos é a mesma: uma sociedade que normalizou a desigualdade a tal ponto que a própria noção de justiça se tornou relativa. Uma justiça para os que podem pagar por ela, e outra para o resto – incluindo os Orelhas, humanos ou não, que têm a má sorte de cruzar o caminho dos privilegiados.

A crônica do Brasil é, assim, a crônica de uma impunidade que se reinventa. Ela troca o terno pela bermuda de marca, o jatinho particular pela viagem à Disney, a fraude contábil pela transmissão no Discord. Mas sua essência permanece intacta, um lembrete constante de que, nesta terra – de palmeiras, sabiás e corpos torturados – alguns são mais iguais que outros. E enquanto os bilhões de Vorcaro se perdem em um abismo fiscal e os ossos de Orelha se decompõem sob a terra, a pergunta que fica, ecoando no silêncio da nossa indignação seletiva, é: até quando?

Por Lindener Pareto, Professor, Historiador, Comunicador. Mestre e Doutor pela USP

Nenhum comentário:

Postar um comentário