Gazeta da Torre
Nos últimos anos, tem-se observado um número crescente de
pessoas que optaram por ter animais de estimação em vez de filhos. Esse
movimento, conhecido como pet parenting ou parentalidade de animais de
estimação, reflete uma mudança nos padrões de vida e nas prioridades das
pessoas.
O professor Sérgio Kodato, da Faculdade de Filosofia, Ciências
e Letras da USP de Ribeirão Preto, acredita que os donos de pets podem adquirir
um forte vínculo emocional pelos seus bichos, uma vez que esses animais passam
a ocupar o lugar de um filho, tornando-se membro da família, criando hábitos,
alterando rotinas de seus donos e até mesmo modificando o financeiro de um lar,
fatores que alimentam uma dinâmica familiar.
Wlaumir Souza, sociólogo e psicanalista, explica que o
fenômeno pet parenting está se tornando cada vez mais comum, devido às
condições financeiras e ao encarecimento de ter um filho, além de uma mudança
no modelo familiar. “Nós estamos saindo do modelo da família nuclear familiar
para a família pet familiar, isso significa maior isolamento humano diante da
incapacidade de comunicação e diálogo.”
Souza explica que os animais não respondem, não
questionam e são fiéis aos seus donos e, portanto, são mais fáceis no convívio.
“Para ser exato, o tutor do pet não quer uma pessoa independente, com opiniões
únicas e pensamento crítico, ele quer alguém que não o questione.”
Kodato chama esse fenômeno moderno de humanização de
animais e desumanização de crianças. “Essa perspectiva traz à tona uma série de
reflexões e questionamentos sobre a maneira como estamos moldando nossas
relações com os animais de estimação e os impactos que isso pode ter no
desenvolvimento das crianças.”
O professor ainda informa que, à medida que a atenção e
os recursos são desviados dos filhos para os pets, pode ocorrer uma diminuição
da interação familiar e da convivência entre pais e filhos. “Algumas famílias
podem concentrar seus esforços emocionais e financeiros no cuidado dos animais,
negligenciando aspectos fundamentais do desenvolvimento infantil, como a
educação, o apoio emocional e as experiências sociais.”
Fonte: Jornal
da USP


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