quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

DELÍRIO DE FEVEREIRO - Quando a cidade inteira pulsa no mesmo ritmo

 Gazeta da Torre

O Carnaval de Olinda e Recife é uma das manifestações culturais mais autênticas e vibrantes do Brasil, reconhecido mundialmente como patrimônio imaterial que preserva tradições seculares enquanto se reinventa a cada ano. Para compreender a grandeza desta festa, é necessário mergulhar em suas raízes históricas, que remontam ao período colonial brasileiro.

As primeiras manifestações carnavalescas em Pernambuco surgiram ainda no século XVII, quando trabalhadores se reuniam para a Festa de Reis, formando cortejos e improvisando cantigas em ritmos que prenunciavam o que viria a ser o frevo. No entanto, foi o entrudo português, introduzido pelos colonizadores, que marcou de forma mais contundente os primórdios da folia local. O entrudo era uma brincadeira popular em que as pessoas jogavam umas nas outras farinha, água, ovos e outros elementos, em uma celebração descontraída que antecedia a Quaresma.

Com o passar dos séculos, essas manifestações foram se transformando e ganhando características próprias. No final do século XIX, o Carnaval pernambucano começou a se estruturar com o surgimento dos primeiros clubes de frevo, agremiações formadas por trabalhadores assalariados, pequenos comerciantes, capoeiras, vendedores ambulantes e outros representantes das classes populares. Clubes como Vassourinhas (fundado em 1889), Caiadores, Canna Verde e Clube das Pás de Carvão evidenciavam como as camadas menos privilegiadas da sociedade se apropriavam do Carnaval, transformando-o em uma festa genuinamente popular.

Em Olinda, as festividades carnavalescas ganharam força no início do século XX, com o surgimento de clubes carnavalescos tradicionais, tais como o Cariri Olindense (1921) e o  Homem da meia noite (1931), o bloco que se tornaria símbolo máximo do Carnaval olindense.

De lá para cá o Carnaval de Olinda e Recife consolidou-se como uma festa de rua, democrática e acessível, onde a cultura popular se expressa de forma livre e criativa. A partir da década de 1970, com a fundação do Bloco da Saudade em 1974, surgiram os blocos líricos ou blocos de pau e corda, que resgataram a poesia e a nostalgia dos antigos carnavais. Em 1978, nasceu o Galo da Madrugada, que viria a se tornar o maior bloco de carnaval do mundo, reconhecido pelo Guinness Book em 1994.

Bloco Galo da Madrugada, Recife

O Carnaval de Olinda e Recife acontece sob o sol escaldante do verão pernambucano, em um clima tropical que convida à festa ao ar livre. As ladeiras estreitas e coloridas de Olinda, com suas casas coloniais e igrejas barrocas, criam um cenário único, onde a história se mistura à folia. O Centro Histórico de Olinda, tombado como Patrimônio Mundial pela UNESCO, transforma-se em um grande palco a céu aberto, onde mais de um milhão de pessoas se espremem para acompanhar os blocos e troças.

No Recife, as ruas do bairro de São José e do Recife Antigo fervilham com a passagem de dezenas de agremiações. O calor intenso, a cerveja gelada, a alegria contagiante e a música incessante criam uma atmosfera de êxtase coletivo. É um carnaval que acontece de dia, sob o sol inclemente, onde o suor se mistura ao brilho das fantasias e ao colorido dos confetes e serpentinas.

Recife Antigo

Mas é na música que reside a verdadeira alma do Carnaval pernambucano. O frevo, ritmo nascido no Recife no final do século XIX, é a trilha sonora desta festa. A palavra “frevo” vem de “ferver”, uma referência ao modo como a dança fervilha nas ruas, com seus passos acrobáticos e sua energia contagiante. O frevo mistura elementos da marcha, do maxixe e da capoeira, criando um ritmo acelerado e vibrante que é executado por orquestras de sopro e metais.

Frevo

Os blocos líricos que surgiram no Recife no início dos anos 1920 foram inspirados nos pastoris e nas folias de reis. Sua característica principal é a orquestra de pau e corda acompanhada por um coral feminino, que canta marchas e canções líricas com arranjos sofisticados. A partir de 1974, com a fundação do Bloco da Saudade, esses blocos passaram a ser conhecidos como Blocos Independentes ou Blocos Líricos, e se multiplicaram pela cidade.

Blocos Líricos

Além do frevo, o Carnaval pernambucano também celebra outros ritmos tradicionais, como o maracatu, o manguebeat, a ciranda, o coco e os caboclinhos, evidenciando a riqueza e a diversidade da cultura popular de Pernambuco. O Maracatu Nação, com seus tambores pesados e seu cortejo majestoso, é uma homenagem às raízes africanas da cultura pernambucana, enquanto o manguebeat, movimento musical surgido nos anos 1990, trouxe uma renovação ao Carnaval, misturando ritmos tradicionais com rock, hip-hop e música eletrônica.

Uma das características mais marcantes do Carnaval de Olinda e Recife é a espontaneidade e a participação popular. Diferentemente de outros grandes carnavais do Brasil, onde a festa é organizada em torno de desfiles de escolas de samba ou blocos fechados com cordões de isolamento, a folia pernambucana acontece na rua, de forma democrática, descentralizada e acessível a todos.

O folião não é um mero espectador, mas o protagonista do espetáculo. A festa é gratuita, aberta e sem barreiras. Não há cordas separando os brincantes dos observadores. Todos são convidados a participar, a dançar, a cantar, a se fantasiar e a se entregar à alegria coletiva. Como descreveu o escritor Paulo Montezuma, “O Galo da Madrugada invade o centro da cidade de tal maneira que não se sabe mais quem é o Galo, quem olha para o Galo, quem não é o Galo, onde está o Galo. O galo é o povo. São as pessoas que sonham, cantam, brincam, sem preconceitos e sem cordas de isolamento, sob o sol ou a chuva, com dinheiro ou sem dinheiro.”

Nas ladeiras de Olinda, a multidão se espreme para seguir as troças e blocos, cantando e dançando em uma comunhão contagiante. A criatividade se manifesta nas fantasias, muitas vezes improvisadas, que vão do humor à crítica política e social. É comum ver foliões fantasiados de personagens históricos, super-heróis, animais, figuras do folclore ou simplesmente vestidos com roupas coloridas e extravagantes. Os bonecos gigantes, com mais de dois metros de altura, são um dos símbolos máximos do Carnaval olindense, e dezenas deles desfilam pelas ruas, representando personalidades, personagens de ficção ou figuras criadas pela imaginação popular.

Bonecos gigantes de Olinda

Olinda no dia de carnaval

No Recife, o Galo da Madrugada é a expressão máxima dessa espontaneidade. Fundado em 1978 por um grupo de amigos que queria resgatar o Carnaval de rua da cidade, o Galo começou com apenas 75 pessoas fantasiadas de almas penadas, acompanhadas por uma pequena orquestra de frevo. Hoje, o bloco arrasta cerca de 2 milhões de foliões no Sábado de Zé Pereira, em um desfile que dura mais de nove horas e conta com 30 trios elétricos, 30 bandas de frevo, 6 carros alegóricos e milhares de pessoas de apoio.

Essa espontaneidade é a alma do Carnaval de Olinda e Recife. É a liberdade de ser quem se quer ser, de se juntar a um bloco desconhecido, de dançar frevo até o sol raiar, de se emocionar com a passagem de um bloco lírico, de rir com as fantasias criativas, de se perder nas ladeiras de Olinda e se encontrar na multidão. É uma festa que se reinventa a cada ano, mantendo vivas suas tradições ao mesmo tempo em que abre espaço para o novo, para a crítica, para a experimentação e para a celebração da vida.

O Carnaval de Olinda e Recife é muito mais do que uma festa. É uma manifestação cultural complexa e multifacetada, que expressa a identidade, a criatividade e a resistência do povo pernambucano. Desde suas origens no entrudo colonial até a consolidação como uma das maiores festas populares do mundo, o Carnaval pernambucano soube preservar suas tradições ao mesmo tempo em que se renova e se adapta aos novos tempos.

O lirismo do frevo de bloco, a energia contagiante do frevo de rua, a espontaneidade dos foliões, a democratização da festa, a criatividade das fantasias, a grandiosidade dos bonecos gigantes, a diversidade de ritmos e manifestações culturais – tudo isso faz do Carnaval de Olinda e Recife uma experiência única e inesquecível.

É uma festa que celebra a vida, a arte, a música, a dança, a poesia, a crítica social, a diversidade e a liberdade. É um carnaval que acontece na rua, sem cordas, sem barreiras, sem preconceitos. É o povo que se transforma em artista, que se apropria do espaço público, que cria e recria a cada ano a maior folia popular do Brasil.

A Irreverência dos Blocos de Bairro: O Caso do Mercado da Madalena

Além das grandes e tradicionais agremiações, o Carnaval de Recife é marcado pela efervescência de centenas de blocos de bairro, que representam a alma mais irreverente e espontânea da folia. O Mercado da Madalena, um dos mais tradicionais da cidade, é um polo de criatividade carnavalesca, onde surgem blocos com nomes humorísticos e de duplo sentido, uma característica marcante do espírito pernambucano.

Dois exemplos notáveis dessa veia cômica são os blocos de Socorro e Marília (*Por questões de conformidade com as políticas editoriais, não podemos apresentar os nomes). Os nomes, que à primeira vista podem parecer chocantes ou absurdos, são na verdade uma expressão do humor popular, da capacidade de rir de si mesmo e de subverter a linguagem cotidiana.

O bloco de Socorro, fundado em 2011, se autodenomina um “Bloco Etílico Hortifruti Rock Tropical Pop Psicodélico de Balcão”. A agremiação, que se apresenta no Mercado da Madalena, mistura em seu repertório pop, rock e orquestra de frevo, criando uma sonoridade única e eclética.

Bloco de Socorro

Já o bloco de Marília, embora não tenha registros oficiais de sua atuação no Mercado da Madalena (havendo blocos homônimos em outras cidades), representa perfeitamente o espírito dos blocos de bairro. O nome, de duplo sentido evidente, brinca com a ideia de exaustão após a folia, ao mesmo tempo em que utiliza uma gíria popular para criar um efeito humorístico. A existência (ou a lenda) de um bloco com esse nome demonstra a liberdade criativa e a ausência de pudores que caracterizam o carnaval de rua do Recife.

Bloco de Marília

Esses blocos, com seus nomes inusitados e sua proposta descontraída, são a prova de que o Carnaval pernambucano vai muito além dos grandes desfiles. Eles representam a festa em sua forma mais pura e democrática: a celebração da vida, do humor e da criatividade popular, que floresce em cada esquina, em cada bar, em cada mercado da cidade.

Essa é a essência do Carnaval de Olinda e Recife: uma festa do povo, pelo povo e para o povo, que celebra a cultura pernambucana em toda a sua riqueza, diversidade e beleza.

 

Márcio Nilo

FEV/2026

Nenhum comentário:

Postar um comentário