quarta-feira, 11 de novembro de 2020

NOVO CINE PE 2020 anuncia data e formato inédito

 Gazeta da Torre

Festival Audiovisual terá exibições das mostras competitivas no Canal Brasil, pela TV e pela plataforma de streaming Canais Globo (antigo Canal Brasil Play), entre os dias 23 e 25 de novembro

Em um ano totalmente atípico devido à pandemia de COVID-19, o NOVO CINE PE - Festival do Audiovisual será um pouco diferente. Prevista inicialmente para o mês de maio, a 24ª edição do festival ganha nova data e será realizada exclusivamente pelo Canal Brasil na televisão e na internet – por meio da plataforma de streaming Canais Globo (antigo Canal Brasil Play) –, além da TV Pernambuco, uma vez que ainda não é recomendável a realização de eventos presenciais de grande porte. O formato multiplataforma vai possibilitar que ainda mais pessoas possam ter acesso ao conteúdo do festival, democratizando ainda mais o acesso ao cinema.

De 23 a 25 de novembro, a programação do horário nobre do Canal Brasil será ocupada pelos longas-metragens selecionados para a mostra competitiva do NOVO CINE PE 2020, sendo dois por noite, a partir das 18h, com exibição simultânea no streaming Canais Globo.  Já os 31 curtas escolhidos para as mostras competitivas de curtas-metragens Nacional e Pernambuco ficarão disponíveis online, para assinantes da plataforma Canais Globo, durante os três dias de festival, o que vai possibilitar que os cinéfilos assistam às películas nos horários que lhes forem convenientes. As mostras competitivas de curtas ainda serão exibidas na TV Pernambuco, com data a ser definida. 

Dos 941 filmes inscritos para as mostras competitivas, número que representa um crescimento de discretos 5,37% em relação ao número de 2019, que foi de 892 filmes, seis longas, sendo três na categoria ficção e três na categoria documentário, estarão juntos na Mostra Competitiva de Longas-Metragens, oito títulos na Mostra Competitiva de Curtas-Metragens Pernambucanos e vinte e três na Mostra Competitiva de Curtas-Metragens Nacionais.

NOVO CINE PE 2020  
Ninive Caldas apresenta
festival no cinema São Luiz
Foto:Felipe Souto 

Os seis longas nacionais selecionados para a mostra competitiva foram as ficções “O Buscador” (RJ), de Bernardo Barreto; “Mudança” (RS), de Fabiano de Souza; e “Mulher Oceano” (SP), de Djin Sganzerla; e os documentários "Nós, que ficamos” (PE), de Eduardo Monteiro; “Memórias Afro-Atlânticas” (BA), de Gabriela Barreto; e “Ioiô de Iaiá” (RJ), de Paula Braun. Para Mostra Competitiva de Curtas-Metragens Nacionais foram selecionadas 23 produções do Amazonas, Alagoas, Bahia, Ceará, Goiás, Minas Gerais, Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul e São Paulo. (Veja abaixo a lista completa de selecionados e detalhes).

A missão de selecionar os curtas e longas das mostras competitivas do NOVO CINE PE 2020 ficou nas mãos dos curadores Edu Fernandes, crítico e programador do circuito Cine Materna, e Nayara Reynaud, crítica de cinema, repórter, criadora e editora-chefe do site cultural Nervos (SP). Vale a pena destacar o crescimento da participação de produções pernambucanas. De acordo com Edu Fernandes, foram mais filmes avaliados e com alto grau de qualidade. “Por essa razão, a Mostra Nacional de Curtas abriga mais produções pernambucanas do que nos últimos anos, para poder contemplar as realizações locais que precisam ser vistas. Outro desdobramento dessa maior participação dos produtores locais é a alegria de voltar a ter um longa pernambucano em competição no NOVO CINE PE, algo que não acontecia há alguns anos”, comemora o curador.

A ideia dos curadores para a edição 2020 foi compor um retrato o mais diverso possível da produção nacional de cinema, com filmes das cinco regiões do país. De acordo com Edu, “o público pode esperar, de alguma forma, se ver na tela. Os temas e abordagens dos filmes da seleção dialogam com diversos assuntos da pauta que a sociedade vem discutindo. Ainda nesse assunto, a mostra de longa tem uma paridade de gêneros entre os diretores e diretoras. Não foi algo que determinamos no começo do processo de curadoria, acabou acontecendo assim e considero mais um aspecto a se comemorar nesta edição do festival”.

O Júri Oficial de cada categoria das mostras competitivas será constituído por cineastas, críticos, pesquisadores e artistas com comprovada experiência, que serão responsáveis por indicar os vencedores para as seguintes categorias do Troféu Calunga: categoria de longa-metragem (Melhor Filme de longa-metragem, Melhor Direção, Melhor Ator, Melhor Atriz, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Atriz Coadjuvante, Melhor Roteiro, Melhor Fotografia, Melhor Direção de Arte, Melhor Trilha Sonora, Melhor Som, Melhor Montagem); categoria de curta-metragem (Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Ator, Melhor Atriz, Melhor Roteiro, Melhor Fotografia, Melhor Direção de Arte, Melhor Trilha Sonora, Melhor Som, Melhor Montagem). Além das categorias selecionadas pelo Júri Oficial, o público irá selecionar os premiados pelo Júri Popular, por meio do aplicativo oficial do festival, e os críticos da Abraccine também escolherão os melhores filmes nas  categorias competitivas das Mostra de Curtas Nacionais e Mostra de Longas Metragens, através do Júri da Crítica. 

Sobre as dificuldades para a realização do NOVO CINE PE 2020, ano marcado pela pandemia de COVID-19, a diretora e idealizadora do festival, Sandra Bertini, conta que os desafios foram muitos. “Foi um ano desafiador para todos os profissionais que trabalham com eventos presenciais. Tivemos que mergulhar para criar um modelo que atendesse aos realizadores dos filmes, público, patrocinadores e produtores do evento, seguindo todas as normas de segurança. Alteramos o projeto na Lei de Incentivo à Cultura, já que o projeto aprovado antes era no modelo presencial. Mas o mais fácil mesmo foram os realizadores dos filmes. Conversei com todos e 100% deles abraçaram a proposta. Muitas vezes me emocionei com tamanho apoio”, relata Bertini.

Embora o formato seja diferente em 2020, a produção do NOVO CINE PE fez questão de seguir com a cerimônia de apresentação dos curtas e longas direto do Cinema São Luiz, um dos últimos grandes cinemas de rua do país, tradicional palco do Festival Audiovisual, para manter o clima. A cerimônia foi gravada e será exibida sempre antes dos longas. Quem assume a apresentação do festival pelo segundo ano consecutivo é a atriz pernambucana Nínive Caldas. Com 10 anos de carreira, Nínive é integrante do “Coletivo Angu de Teatro” e já participou de filmes nacionais e internacionais.

O NOVO CINE PE 2020 terá ainda espaço para a formação com seminários realizados de forma on-line e temáticas girando em torno da interrogativa "Como encarar o desafio de empreender e fazer novos negócios num mundo afetado pela pandemia?". Os encontros virtuais deverão acontecer entre os meses de novembro de 2020 e março de 2021, com divulgação de mais informações em breve. 

A Mostra Infantil de Cinema, uma das ações sociais do projeto, só será realizada com o retorno às aulas dos alunos das escolas públicas municipais e estaduais de Pernambuco. Além disso, não haverá artista homenageado neste formato de festival. Para Sandra Bertini, a homenagem só faz sentido com o calor do público. “É uma forma do artista chegar perto do fã, trocar energia. Um momento único tanto para o homenageado quanto para o público. Na edição de 2021 retomamos com os Calungas de Ouro”, explica Sandra.

As expectativas da diretora do festival para esta nova edição 2020 são positivas, principalmente por possibilitar uma democratização do acesso ao evento. “Um festival de cinema é como um grande congresso da sétima arte. Não ter a presença do público, esse encontro do filme com as pessoas, essa emoção ao vivo e em cores, nos traz  certa melancolia. Por outro lado, com a realização na TV podemos atingir um público bem maior do que estaria na sala de exibição do Cinema São Luiz e também um público que nunca esteve presente em um festival”, destaca Sandra.

Premiações – De acordo com o regulamento do NOVO CINE PE, são 12 categorias de prêmios para a Mostra Competitiva de Longas-Metragens: Melhor filme, direção, roteiro, fotografia, montagem, edição de som, trilha sonora, direção de arte, ator coadjuvante, atriz coadjuvante, atriz e ator. Os filmes das Mostras Competitivas de Curtas-Metragens Nacionais e Pernambucanos serão julgados em dez categorias: Melhor filme, direção, roteiro, fotografia, montagem, edição de som, trilha sonora, direção de arte, ator e atriz. Os vencedores de cada categoria serão contemplados com o Troféu Calunga de Ouro.

Além da premiação oficial, o Canal Brasil oferece o Prêmio Canal Brasil de Curtas, que tem como objetivo estimular a nova geração de cineastas, contemplando os vencedores na categoria curta-metragem dos mais representativos festivais de cinema do país. Um júri convidado pelo Canal Brasil e composto por jornalistas especializados em cinema escolhe o melhor curta da Mostra Nacional em competição que recebe o troféu Canal Brasil e um prêmio no valor de R$ 15 mil.

A Abraccine - Associação Brasileira de Críticos de Cinema também reunirá um time de críticos para eleger o melhor filme de cada uma das três categorias no prêmio Júri da Crítica. 

Sobre o Canal Brasil:

O Canal Brasil é, hoje, o canal responsável pela maior parte das parcerias entre TV e cinema do país e um dos maiores do mundo, com 322 longas-metragens coproduzidos só nos últimos 10 anos. No ar há duas décadas, apresenta uma programação composta por muitos discursos, que se traduzem em filmes dos mais importantes cineastas brasileiros, e de várias fases do nosso cinema, além de programas de entrevista e séries de ficção e documentais. O que pauta o canal é a diversidade e a palavra de ordem é liberdade – desde as chamadas e vinhetas até cada atração que vai ao ar.

SERVIÇO - 24º NOVO CINE PE - Festival do Audiovisual

De 23 a 25 de novembro de 2020

EXIBIÇÕES

Canal Brasil e plataforma de streaming Canais Globo

terça-feira, 10 de novembro de 2020

Síndrome de ‘boreout’: quando o tédio no trabalho vira um problema

 Gazeta da Torre

Por trás dessa situação se esconde uma profunda ansiedade e sensação de desvalorização, que podem levar à procura por um novo emprego

Você acabou em uma hora o pouco trabalho que tinha para o dia e se entrega à tarefa de matar o tempo pelas sete restantes. Poderia pedir mais tarefas ao chefe, mas prefere ficar enrolando; se precisarem de você, que chamem. Parece um plano invejável, mas enquanto você atualiza seu Facebook, busca as melhores ofertas para os presentes de Natal e devora um sanduíche, meio saco de batatas fritas e um folhado de chocolate, preferia que esse chamado viesse. Não vem, e você percebe: seu tédio já é crônico, tem um gosto amargo de ansiedade, e você se sente desvalorizado. Isso não é normal.

É um tédio que nos círculos especializados ficou conhecido como síndrome de boreout, ou do trabalhador entediado, dominado por um enfado profissional extremo, o qual, segundo os psicólogos, pode ser tão prejudicial como o esgotamento por excesso de trabalho, a popular síndrome do burnout ou do trabalhador queimado. Tendemos a achar que um funcionário entediado (e com tempo de sobra) aproveitará para se dedicar mais a cada tarefa, mas não é assim. Segundo um estudo da Universidade de Lancashire (Inglaterra), as pessoas entediadas, na verdade, têm um desempenho profissional precário e comentem mais erros.

Claro que, para evitar se envolverem com a origem de seu tédio, as pessoas com essa síndrome (um termo cunhado em um livro pelos psicólogos suíços Philippe Rothlin e Peter Werder, em 2007, e que não foi reconhecido oficialmente como um diagnóstico) tendem a se distrair com recursos como as redes sociais, podendo inclusive desenvolver um vício. A comida, o álcool e o tabaco são fortes candidatos a preencher seu tempo. Soa familiar?

Como saber que não é um tédio passageiro

É importante distinguir o tédio normal, inclusive saudável, daquele constante e crônico, que acaba fazendo você se sentir inútil, um sentimento que gera uma profunda ansiedade e que pode afetar negativamente todos os aspectos da vida, inclusive os que têm a ver com família, amigos e relacionamento conjugal. Sabemos que normalmente “as coisas que nos entediam são aquelas das quais não gostamos; isto reduz seus níveis de motivação, de envolvimento, baixam seus níveis de responsabilidade, e você adota uma atitude passiva, vai procrastinando”, diz a psicóloga Gabriela Paoli, autora do livro Salud Digital. Mas tem mais.

Para começar, grave a fogo que entediar-se ao longo do dia independe do trabalho que você faz, e sim dos interesses que você tem. É possível ter o melhor emprego, inclusive ser o chefe, e se sentir profundamente entediado e desvalorizado. Ou seja, trabalhar em algo que não corresponde à sua formação ou experiência e que não lhe permite se desenvolver plenamente é uma bomba-relógio. A falta de comunicação com os outros, desempenhar tarefas monótonas, que não lhe representem nenhum tipo de desafio, e receber um salário precário também são aspectos que desmotivam constantemente.

Todos esses fatores aumentam quando você tem que aceitar trabalhos a contragosto e não tem outra opção nem pode se dar ao luxo de mudar —e a situação se agrava nestes tempos devido à conjuntura econômica decorrente da pandemia. “Quem aceita trabalhos que limitam suas capacidades tem muito mais risco de sofrer boreout e burnout, porque faz algo que já de cara sabe que não gosta; a única motivação é a econômica, e após alguns anos isso começa a pesar bastante. É extremamente grave porque passamos quase 33% do dia no trabalho, às vezes mais”, afirma Andrés Quinteros, psicólogo e diretor do Centro Psicológico CEPSIM.

Outro motivo para buscar um ‘hobby’

Os autores da obra que apresentou pela primeira vez a síndrome do boreout não descreveram apenas uma pena de tédio e desmotivação. Como no mito de Pandora, no fundo da caixa estava a esperança, que, neste caso, tem a forma de uma lista de métodos para preveni-lo. Para começar, aconselham o trabalhador a se esforçar para encontrar pequenas motivações que possa intercalar em seu trabalho ao longo do dia. A ideia é que cada dia seja significativo. Tanto Paoli como Quinteros avalizam esta ideia e observam que comunicar aos superiores o seu interesse e compromisso em desenvolver novas tarefas também pode ajudar. Encontrar alguma atividade apaixonante para preencher os momentos mortos no trabalho é uma ajuda interessante, mas às vezes impossível. Nesses casos, os especialistas propõem transferi-la para momentos livres logo depois da jornada de trabalho.

Se mesmo assim sua motivação não aumentar, talvez o melhor seja mesmo procurar outro trabalho que realmente lhe agrade, algo que você terá que fazer enquanto mantém o emprego que já tem. Afinal, não convém aumentar a ansiedade gerada pela falta de motivação profissional com a decorrente da escassez econômica.

Por outro lado, embora ambos sejam resultado de uma grande insatisfação ou desmotivação trabalhista, é importante não confundir o termo boreout com a já famosa síndrome do burnout. O primeiro se refere ao transtorno do trabalhador entediado, que constantemente se sente desvalorizado, enquanto o segundo é um transtorno vinculado ao estresse por excesso de trabalho. “Têm origens diferentes, um é por falta de trabalho ou porque realiza tarefas monótonas, onde não há feedback nem um contato social real, e o outro é por excesso, um estresse crônico, uma saturação, esgotamento mental e infoxicação”, diz Paoli. Mas adverte: “Ao final, os extremos se tocam. Um pode levar ao outro”.

Artigo de Mariana GálvezPsicologia/Antropologia

Mulher e negra, Kamala Harris faz história

 Gazeta da Torre

Kamala Harris

A senadora da Califórnia acrescenta à sua vida mais algumas ‘primeiras vezes’, desta vez conquistando a posição número dois da Casa Branca

A vida de Kamala Harris é repleta de primeiras vezes, dessas que rompem o famoso teto de vidro. Aquele nível de ascensão que, em alguns casos parece ter se tornado uma teto de aço― que o diga Hillary Clinton. Aos 40 anos, Harris se tornou procuradora de São Francisco, a primeira mulher e a primeira pessoa não branca a ocupar o cargo. Em 2011, havia subido tantos degraus em direção a esse teto invisível, mas verdadeiro, que já era procuradora-geral da Califórnia, onde de novo ocorreu uma primeira vez: mulher e negra.

Harris ganhou a cadeira no Senado nas eleições em que Donald Trump chegou à Casa Branca. Desde este sábado, 7 de novembro, com a vitória de Joe Biden, Trump já faz parte da história dos ex-presidentes e Harris substituirá o homem a quem disse repetidamente, durante o debate entre os candidatos a vice: “Sr. vice-presidente, eu estou falando”. Mike Pence interrompeu Kamala Harris o dobro de vezes em que ela fez o mesmo com ele, 10 a 5. Desde este sábado, Kamala Harris é a voz, às vezes suave, às vezes litigiosa, às vezes reivindicativa, da vice-presidência dos Estados Unidos. A partir de 20 de janeiro, quando Joe Biden fará o juramento nas escadarias do Capitólio, poderá ser ouvida sem interrupções essa voz que pertence, pela primeira vez, a uma mulher negra. Mais uma vez, uma primeira vez histórica.

Kamala Harris, 55 anos, nascida em Oakland, Califórnia, não gosta de falar de si mesma, o que sem dúvida não é uma boa informação para o cargo que vai desempenhar a partir de agora. Nas entrevistas que deu, sobretudo quando lançou sua campanha pela indicação democrata, confessou aos jornalistas que eles teriam que arrancar as palavras dela à fórceps, porque não era boa em falar de si mesma. Sem dúvida é uma questão de berço, de educação. Em suas memórias, Kamala Harris escreve que foi criada “para não falar sobre si”, já que tal coisa era considerada “narcisista e vaidosa”. Claro, “se você não quer que ninguém te defina, é melhor que você mesma o faça”, aconselhou sua mãe, que a acompanhou de perto por toda a vida até sua morte, em 2005, de câncer de cólon.

Filha de Shyamala Gopalan, nascida no sul da Índia, e Donald Harris, originário da Jamaica, Harris cresceu nos círculos da famosa Universidade de Berkeley, na Califórnia, onde o movimento pelos direitos civis era a luta do momento. O ativismo dela vem de berço e nele ela cresceu, explicou a ex-senadora em seu livro The Truths We Hold, ao mesmo tempo em que recorda que, por causa de sua baixa estatura e pouca idade, o que observava nas manifestações a que seus pais a levavam quando criança era uma paisagem de pernas.

A história de amor entre os imigrantes da Índia e da Jamaica ―a mãe, pesquisadora de câncer de mama, e o pai, hoje professor emérito em Stanford―terminou quando Harris tinha sete anos e uma irmã dois anos mais nova que ela. “A partir de então, nos tornamos as meninas de Shyamala”, escreve a vice-presidenta eleita, que afirma ter uma memória quase atual de todas as vezes que se mudaram de casa e que ela recorda na forma do caminhão da empresa de mudanças Mayflower. “Nós nos mudamos muito, muito mesmo.”

Fonte:El País

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

Por que o Brasil precisa de um correio público?

 Gazeta da Torre

O confinamento imposto pela situação de emergência na pandemia da covid-19 vem escancarando a relevância de três setores fundamentais do Brasil: as universidades públicas, o Sistema Único de Saúde e o correio.

Com as instituições e o comércio fechados por meses, tanto o envio de documentos essenciais quanto a compra de produtos básicos foram realizados a distância, sendo possível, na maioria dos lugares, por conta do serviço postal. Como teriam sido esses primeiros meses de pandemia sem um correio público no Brasil?

Com mais de três séculos e meio, o correio foi um elemento fundamental no processo de integração territorial brasileiro. Inicialmente conectando algumas cidades do litoral à metrópole lusitana, aos poucos o serviço postal e telegráfico foi se difundindo até alcançar, no último quartel do século XX, todo o território nacional. Com o advento da internet, as teses que advogaram o fim do correio não se confirmaram: do contrário, houve um aumento significativo do fluxo postal e o surgimento de serviços expressos com rastreamento permitiu maior agilidade. Na virada do século, o advento do comércio eletrônico culminou num crescimento do correio sem precedentes, tendo o Brasil passado de 6 para 9 bilhões de objetos postais/ano entre 2000 e 2010.

Por sua relevância para a integração territorial, o serviço postal está incluído na Constituição de 1988, que atribuiu à União competência em oferecê-lo de maneira universal. Única instituição pública presente em todos os 5.570 municípios brasileiros, os Correios possuem uma capilaridade que o serviço bancário ou o acesso à internet jamais alcançou, cobrindo todo o território por meio de agências próprias. Essa conexão dos lugares é um atributo que permite a integração de um território vasto e desigual, como o brasileiro.

Não é o mesmo realizar uma logística em São Paulo e nas cidades ribeirinhas da Amazônia. Mais difícil é realizar ambas ao mesmo tempo, de maneira articulada, o que possibilita aos Correios um papel como “braço logístico” do Estado para a execução de políticas públicas, dentre as quais destaco três pela atualidade na conjuntura. Parte significativa dos materiais que chegam aos postos de saúde e unidades de atenção básica nos municípios são entregues pelos Correios, aí incluídas as vacinas, especialmente para as cidades pequenas, que são a maioria. Para o Ministério da Educação, o correio público é essencial na distribuição de livros didáticos a tempo do calendário escolar, maior operação dessa natureza no mundo; além dos exames como o Enem, que acontecem concomitantemente em todos os lugares e as provas são entregues e devolvidas pelos Correios. Agora, nas eleições, parte do material necessário, em muitos casos as próprias urnas eletrônicas, devem ser entregues a tempo e em segurança em todo o País. Isso custa pouco (ou nada) para um Estado que possui uma empresa estatal.

Contudo, eventualmente ressurge a proposta de privatização dos Correios, geralmente descontextualizada da discussão necessária e valendo-se apenas dos balanços fiscais, que já voltaram ao azul após um breve período de problemas entre 2015 e 2017, e deve crescer muito após a pandemia. Devemos ter em conta, também, que os Correios não utilizam dinheiro proveniente de impostos, sendo uma empresa cujos lucros custeiam totalmente sua operação.

No mundo, o modelo de serviço postal público é absolutamente majoritário, cuja importância foi mais uma vez destacada pelos recentes embates envolvendo o voto pelo correio nas eleições presidenciais dos EUA, país que mantém a estatal USPS. Experiências de privatização como na Argentina ou Portugal, por outro lado, não se mostraram adequadas porque a empresa privada restringiu o atendimento às maiores cidades e regiões mais lucrativas.

Ocorre que a maioria dos países tem absoluta noção do que significa para a soberania nacional entregar um serviço estratégico para uma empresa privada, principalmente no caso de empresas estrangeiras como FedEx, DHL ou Amazon, que já anunciaram interesse na compra dos Correios. Não apenas o controle dos fluxos que articulam os lugares, estão em jogo também as informações do cadastro de endereços e o que chega aos domicílios. O princípio da inviolabilidade postal não estaria garantido em empresas que já demonstraram como tratam os dados dos consumidores.

Por isso mesmo um processo de privatização dos Correios precisa passar por uma mudança na própria Constituição, no rito de 3/5 de aprovação em duas votações nas duas casas do Legislativo. As consequências da privatização, uma proposta que atenderia aos interesses de empresas estrangeiras, poderiam ser sentidas desde as pequenas cidades que ficariam sem atendimento e na inviabilidade de políticas públicas universais, até no próprio comércio eletrônico com a eliminação de um agente logístico que atende a todos os lugares.

É preciso retornar, portanto, para a discussão da cidadania e do serviço postal como um direito universal constitucional. A saída estaria em reassumir um projeto nacional condizente com a Constituição vigente e garantindo a integração territorial conquistada com séculos de dificuldades. Nessa empreitada, duas ideias fundamentais podem nos inspirar: a insistência num modelo cívico do território, como postulou o geógrafo Milton Santos; e busca por uma alternativa de logística para os lugares, como pleiteava Bertha Becker em seus estudos sobre a Amazônia brasileira.

Por Igor Venceslau, doutorando em Geografia Humana na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP

Seis capitais caminham para decisão já no primeiro turno

Gazeta da Torre

A dias do primeiro turno da eleição municipal, pesquisas de intenção de voto apontam para uma decisão ainda em primeiro turno em 6 das 26 capitais de estados.

O levantamento leva em contas pesquisas feitas pelos institutos Ibope ou Datafolha realizadas nas 26 capitais. Destas, 16 foram realizadas na última semana.

As sondagens revelam que em Belo Horizonte, Curitiba, Salvador, Natal, Campo Grande e Florianópolis a disputa eleitoral caminha para uma decisão já no dia 15 de novembro.

Nestas cidades, o candidato que lidera tem um índice de intenção de votos maior que o de seus adversários somados. Em cinco delas, o líder nas pesquisas é o atual prefeito.

O chefe do Executivo de Belo Horizonte, Alexandre Kalil (PSD), enfrenta o cenário mais tranquilo. Ele lidera com 63% das intenções de voto, segundo o Ibope.

Também lideram com margem folgada em suas respectivas cidades os prefeitos Rafael Greca (DEM) em Curitiba, Gean Loureiro (DEM) em Florianópolis, Álvaro Dias (PSDB) em Natal e Marquinhos Trad (PSD) em Campo Grande.

Em Salvador, o líder nas pesquisas é o atual vice-prefeito, Bruno Reis (DEM), candidato apoiado pelo prefeito ACM Neto (DEM). Ele cresceu 19 pontos percentuais e chegou a 61% das intenções de voto segundo pesquisa Ibope divulgada na sexta-feira (30).

Há possibilidade de vitória no primeiro turno também em São Luís. O candidato da oposição, Eduardo Braide (Podemos), chega a 44%, número pouco menor que a soma de seus adversários.

Nas demais capitais, incluindo São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Porto Alegre e Fortaleza, a tendência é que a disputa seja definida no segundo turno. Nessas cinco cidades, ainda não há um quadro claro sobre quais candidatos seguirão para o segundo turno.

Analisando o quadro das 26 capitais, segundo o retrato das pesquisas do momento, DEM e PSDB seriam os dois partidos que mais conquistariam prefeituras de capitais, com cinco eleitos cada.

O DEM, contudo, lidera em três capitais de maior porte. Estão na frente das pesquisas Eduardo Paes no Rio de Janeiro, Bruno Reis em Salvador e Rafael Greca em Curitiba. Entre as cidades de menor porte, lideram Gean Loureiro em Florianópolis e Josiel Alcolumbre em Macapá.

Já o PSDB lidera apenas com Bruno Covas em São Paulo, dentre as capitais com mais de 1 milhão de habitantes. Nas capitais de menor porte, os tucanos estão na liderança com Álvaro Dias em Natal, Hildon Chaves em Porto Velho, Cinthia Ribeiro em Palmas e Minoru Kinpara em Rio Branco.

Em Natal, Porto Velho e Palmas, os candidatos tucanos são os atuais prefeitos que disputam a reeleição. Em Rio Branco, Kinpara --que já foi presidente do PT do Acre e tem passagem pela Rede-- disputa pela oposição.

No campo da esquerda, lideram as pesquisas João Campos (PSB) no Recife, Manuela D'Ávila (PC do B) em Porto Alegre, Edmílson Rodrigues (PSOL) em Belém e Edvaldo Nogueira (PDT) em Aracaju.

Em Vitória, João Coser (PT) aparece na liderança, segundo pesquisa Ibope, mas está numericamente empatado com Gandini (Cidadania), candidato apoiado pelo prefeito Luciano Rezende (Cidadania).

As pesquisas divulgadas nesta última semana apontam mudanças no quadro eleitoral em Macapá e Boa Vista, e mostram candidatos encostando nos primeiros colocados em Rio Branco e Maceió.

Na capital do Amapá, Josiel Alcolumbre (DEM), irmão do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM), cresceu 15 pontos na pesquisa Ibope e começa a consolidar seu favoritismo na disputa pela prefeitura.

Na capital de Roraima, o candidato da oposição Ottaci Nascimento (Solidariedade) cresceu e ultrapassou numericamente o vice-prefeito Arthur Henrique (MDB), apoiado pela prefeita Teresa Surita (MDB). Levando em conta a margem de erro, ambos estão empatados.

Em Maceió, o deputado estadual Davi Davino (PP) cresceu dez pontos percentuais e começa a aproximar-se dos líderes Alfredo Gaspar (MDB) e João Henrique Caldas (PSB).

Em Rio Branco, foi o candidato Tião Bocalom (PP) que cresceu e encostou nos líderes Kinpara e Socorro Neri (PSB).

Fonte:Folhapress

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Conheça os principais vilões da memória

 Gazeta da Torre

É importante saber que muitos problemas de memória não estarão presentes em decorrência de um problema de saúde, mas talvez pela convivência com os que chamamos de vilões da memória. O primeiro deles seria a falta de atenção. Sabe-se que a atenção é a primeira etapa do processamento da memória recente; quanto mais atentos estivermos, melhor será o desempenho da nossa memória.

A desorganização ambiental e a falta de uma rotina obrigatória pré-estabelecida também interfere em um pior desempenho do processamento das nossas habilidades mentais.  Por isso, estabelecer um ritmo de tarefas obrigatórias e que envolvam hábitos de vida saudáveis são fundamentais para uma boa qualidade do processo de memorização e do resgate da informação memorizada.

Outro aspecto importante para se observar em pessoas adultas e idosas é o desempenho da chamada acuidade visual; ou seja, o quão sua visão está preservada e mantida, para interpretar as informações sensoriais visuais recebidas do meio. É descrito na ciência que pessoas com dificuldades visuais não corrigidas, seja por óculos, lentes oculares ou cirurgias podem ter um pior desempenho de memória e a longo prazo, podem desenvolver doenças neurodegenerativas.

O mesmo acontece com a capacidade auditiva; um indivíduo que em sua fase adulta relata sentir dificuldades auditivas, decorrentes de mudanças do processo normal do envelhecimento, precisa procurar auxílio de profissionais especializados, uma vez que a dificuldade auditiva também está relacionado a um pior desempenho de memória.

Neste sentido podemos ter algumas dúvidas que surgem: por que as dificuldades visuais e auditivas seriam vilões da memória? Porque estas dificuldades interferem nos estímulos recebidos pelo cérebro; além disso, muitas vezes pessoas com estas dificuldades passam a se isolar socialmente, interagindo menos com outras pessoas, e consequentemente, buscam por menos estímulos de memória e de atenção, apresentando assim um estilo de vida pouco desafiador para as habilidades mentais.

Ressalta-se também dentre os vilões da memória o estado de humor e a presença de sintomas de ansiedade. Indivíduos deprimidos ou com a presença de sintomas de ansiedade são indivíduos com dificuldades de atenção e concentração e podem apresentae um pior processamento da memória.

São pessoas que costumam se esforçar menos para novas aprendizagens, possuem crenças negativas sobre o seu desempenho cognitivo por se acharem menos capazes de enfrentar grandes desafios, pois apresentam pensamentos negativos e falta de ânimo na maioria das vezes. Em relação a este aspecto a nossa dica seria: cuide do seu estado do humor, a partir do momento que ele interfere na sua qualidade de vida, pois pode ser um problema de saúde a ser tratado.

Importante também se atentar à qualidade do sono, pois a insônia é uma grande vilã para um mau desempenho das habilidades mentais. É durante o sono que formamos as aprendizagens adquiridas durante o dia; então, uma boa qualidade do sono é fundamental para um bom funcionamento da memória.

Nos estudos das neurociências também se destaca a importância de evitar o abuso de alimentos industrializados, com excesso de açúcares e gorduras saturadas, pois estes alimentos podem acumular no cérebro proteínas não utilizadas, os radicais livres, e podem possibilitar o aparecimento de toxinas no cérebro. A longo prazo, podem gerar prejuízos no funcionamento das habilidades mentais, sendo um fator de risco para o desenvolvimento de demências.

No entanto, sabemos que, embora convivamos com vilões que interferem no desempenho da memória, temos que nos lembrar que há formas de combatê-los.

A partir dos hábitos de vida saudáveis, como uma alimentação balanceada, boa qualidade do sono, realização de exercícios intelectuais que estimulem as habilidades cognitiva (como por exemplo, os exercícios de ginástica cerebral oferecidos pelo SUPERA), a prática regular de atividades físicas prescritas por um profissional e os cuidados com o estado de humor e com a prevenção ou manejo adequado de doenças crônicas presentes. Evite vícios, seja em alimentos industrializados, jogos de azar; desafie-se, busque a interação social, e viva uma vida saudável e com tranquilidade em todas as fases da vida.

Fonte:Método SUPERA

Estupro culposo: Especialistas explicam porque argumento não tem qualquer validade

Gazeta da Torre

O termo “estupro culposo” passou toda a terça-feira, 3, entre os assuntos mais comentados nas redes sociais. O termo foi usado pelo promotor Thiago Carriço de Oliveira, responsável pelo caso em que André de Camargo Aranha é acusado de estuprar Mariana Ferrer.

O “estupro culposo” seria aquele sem intenção. A justificativa do advogado de Aranha, Cláudio Gastão da Rosa Filho, é que o empresário não tinha como saber que a jovem estava em situação de vulnerabilidade. A argumentação, revelada pelo The Intercept Brasil, deixou muitas pessoas indignadas.

Para Debora Diniz, antropóloga, professora da Faculdade de Direito na Universidade de Brasília, o que se viu na audiência de Mariana e Aranha foi “como olhar pelo buraco da fechadura do que vivem as mulheres vítimas de violência nas delegacias e nos tribunais”.

A professora descreve que, nessas situações, mulheres são maltratadas, expostas ao ridículo, violentadas simplesmente por serem mulheres em uma ordem de poder patriarcal. Na audiência, o advogado Cláudio Gastão da Rosa Filho usou fotos de Mariana para desqualificar a vítima e a acusação.

“É preciso repetir que não há nem na lei ou na ética tamanho absurdo. Só mesmo na ousadia patriarcal que violenta mulheres e justifica a violência como um descuido, cuja culpada seria a própria vítima”, coloca Debora Diniz.

Flavio Grossi, advogado criminalista e especialista em direitos fundamentais pela Universidade de Coimbra, explica que não há a possibilidade de o estupro ser tipificado sem dolo, ou seja, sem culpa.

“Tecnicamente - e também por decorrência lógica do tipo do crime - o estupro demanda dolo, ou seja, a vontade deliberada de praticar aquele ato contra a vítima; intenção. Se não tem dolo, não tem crime, porque, repito, o estupro é doloso. Os crimes culposos - cometidos por negligência, imprudência ou imperícia - são previstos na legislação. Se não está previsto, não pode ser punível a título de culpa. Por isso ele pediu a absolvição do André”, explica Flavio.

Sobre o promotor, Flavio afirma que o entendimento do membro do Ministério Público foi de que Aranha não tinha como distinguir se Mariana Ferrer estava ou não em condições para consentir com o ato sexual e, por isso, pediu a absolvição dele.

“Ouso dizer que não há, em qualquer ordenamento jurídico democrático, que preza por um direito e processo penais justos, possibilidade de se punir estupro - ou qualquer outro delito contra dignidade sexual - por culpa. São crimes eminentemente dolosos”, diz Grossi. “Uma pessoa mata a outra por imprudência, negligência ou imperícia. Mas ninguém passa a mão no corpo, beija, importuna ou introduz um pênis em outra por negligência, imprudência ou imperícia. Não existe.”

Flavio acredita que o caso dificilmente abra precedentes. “Ele só deixa claro o machismo de alguns atores do sistema de justiça criminal. Escancara a dificuldade de mulheres vítimas de violência sexual obterem justiça. Não há qualquer hipótese técnica, por mais remota que seja, de se considerar a existência de ‘estupro culpável’.”

“O que mais errou nesse caso foi o promotor de justiça: permitiu a intimidação da vítima, ofensas a ela, não buscou maiores formas de provar a participação do André no caso.”

POSTURA DO ADVOGADO

Flavio Grossi ainda comentou a postura do advogado de defesa Cláudio Gastão da Rosa Filho, que usou fotos de Mariana Ferrer para ataca-la. “Qualquer advogado, promotor ou juiz dignos ficariam incomodados pela postura do advogado Cláudio Gastão da Rosa Filho. O advogado do empresário foi extremamente desrespeitoso com a vítima”, opinou.

“Ele importunou a Mariana; assediou-a moralmente, desestabilizou propositalmente ela. Isso sequer é estratégia de defesa! Isso é antiético, baixo, vil, maldoso. Além de tudo: machista e misógino”, diz Flavio. Para ele, a defesa não foi digna nem técnica.

O advogado ainda lembra que juiz, promotor e advogado devem ser sempre técnicos e não se pode usar sentimentos em julgamentos. “Processo tem conteúdo, não sentimento”, afirma. Grossi diz que, ao ver o vídeo, se assustou com a inércia dos envolvidos, que não se opuseram ao ver Mariana ser atacada.

“Todos eles devem ser devidamente investigados por suas atuações em seus órgãos correcionais competentes e, espero, punidos. Não é assim que se faz uma audiência criminal. Aquilo é cena de filme, de série de tema advocatício. São raríssimos os casos em que é tolerável um advogado comportar-se de tal maneira. Porém, quando se trata de vítima, por mais que você acredite na inocência do seu cliente, há de se ter em mente que ela está ali tentando ser ouvida, acolhida, entendida. O advogado do réu não pode estar contra a vítima. Ele deve combater fatos e teses, não humilhar alguém.”

Fonte:Anita Efraim - jornalismo pela ESPM-SP em 2016, tem passagens por Estadão, Rádio Globo e CBN

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

O que há de natural na natureza da cidade do Recife?

 Gazeta da Torre

Cidade do Recife/PE

Que a gente mora numa cidade top muita gente já sabe. Tem muitas pessoas mandando bem na música, na arte, na dança, nas comidas... Da mesma forma, tem outra coisa que faz daqui um lugar mega: a natureza!

Pra começo de conversa, qualquer rolê pela nossa cidade nos coloca em contato com os rios. Não é à toa a fama do Recife de Veneza Brasileira. Os mais famosos são o Capibaribe e o Beberibe mas, além deles, ainda têm o Tejipió e os braços do Jaboatão e do Pirapama. Eles trazem, de fato, uma cara única aos nossos territórios. Navegar por essas águas também é possível! A Catamaran Tours tem vários roteiros de barco que nos permitem apreciar a nossa capital por uma outra perspectiva além das pontes.

Passeio de Catamaran no Recife

Com uma ligação forte com os rios e com o mar estão os manguezais, biomas que abrigam grande biodiversidade e servem de berçário para várias espécies marinhas. Chico Science, cantor e compositor pernambucano e a galera do Mangue Beat (movimento cultural), inclusive, fizeram o recifense se sentir bem parte deles. Por aqui está a maior reserva de mangue em área urbana da América.

O Parque dos Manguezais, situado entre os bairros do Pina, de Boa Viagem e da Imbiribeira, é de impressionar! Fora as riquezas já ditas anteriormente e algumas outras, ele é responsável pela amenização climática. Um estudo realizado pela UFPE, citado pela CPRH-PE, atestou que o replantio no Parque garantiu a diminuição média de um grau Celsius na temperatura do Pina, contrariando a tendência em outras localidades da cidade, que acusaram o aumento de até dois graus.

Parque de Manguezais - Recife/PE

Já que falamos em mar, nossas praias são perfeitas demais pra nos aproximarmos da natureza! Aquela brisa gostosa na cara, mar de água morninha, o barulho das ondas, sol e areia pra gente relaxar! São 8 Km de puro deleite em terras recifenses. É tão bom dar uma caminhada e tomar uma água de coco por lá. Essa é só uma das tantas opções para aproveitar a beirinha da cidade.

Praia de Boa Viagem - Recife/PE

Água de coco na praia de Boa Viagem - Recife/PE

Já tinha até dado um spoiler de que é possível encontrar muitas outras áreas verdes seguindo Recife adentro. Pois é! São hectares e mais hectares de mata que nos lembram como a cidade tem uma condição privilegiada. O Jardim Botânico, o Parque Dois Irmãos, a Lagoa do Araçá, o Açude de Apipucos, a Mata da Várzea, a Mata de Dois Unidos e mais um bocado nos permitem, inclusive, uma verdadeira imersão numa experiência naturalmente deliciosa.

Entrada do Jardim Botânico no Recife/PE

E não precisa se embrenhar na mata pra recarregar as suas baterias. É só procurar pelos parques como o Parque da Jaqueira, o Parque 13 de Maio, o Parque Santana, o Parque da Macaxeira ou o Jardim do Baobá, por exemplo. Lá, você pode brincar com os pequenos ou praticar diversas formas de atividades físicas ao ar livre. Tem ainda um montão de praças e outros cantinhos arretados que podem te trazer os benefícios do contato com o meio ambiente.

Imagens do Jardim Botânico do Recife/PE



Seja na beira do rio, na mata, no parque ou na praia, o negócio é não deixar de se relacionar com esse universo. Em uma publicação da Harvard Health School, o Dr. Jason Strauss, diretor de psiquiatria geriátrica da Cambridge Health Alliance, afirma que o tipo de configuração da natureza não importa. “Concentre-se nos lugares que você achar mais agradáveis”, diz o Dr. Strauss. “O objetivo é se afastar dos estímulos do ambiente urbano e cercar-se de um ambiente natural”. Então, não perca tempo! Quando essa pandemia sossegar, não perde a oportunidade de aproveitar o que de natural a natureza do Recife tem!

Fonte: Leilane Alcântara, Prefeitura da Cidade do Recife.

domingo, 1 de novembro de 2020

Com imenso poder econômico, “big techs” (grandes empresas de tecnologia) atuam como governos

 Gazeta da Torre

O avanço e o alcance de grandes empresas de tecnologia sobre os consumidores estão moldando uma relação complexa entre ambas as partes.

As big techs, que detêm bilhões de consumidores integrados em ecossistemas de produtos e de serviços, já atuam como imensas estruturas econômicas com capacidades superiores às de muitas nações. Estas organizações, com força quase como a de um Estado e sem barreiras físicas, são os chamados “governos de rede”, conforme caracteriza a escritora, pesquisadora e professora da Universidade Columbia, nos Estados Unidos, Alexis Wichowski.

“Governos de rede trabalham com produtos e serviços tecnológicos, e uma das coisas que os diferencia é que eles tratam os clientes quase como cidadãos de seus produtos e serviços. Eles investem em serviços para protegê-los, por exemplo. O Facebook tem uma equipe antiterrorista que é maior do que a do governo americano”, reforça a escritora.

Em entrevista para o canal UM BRASIL, uma realização da FecomercioSP, em parceria com a Brazilian Student Association (BRASA) – associação formada por brasileiros que estudam no exterior –, Alexis pontua que, quando a pandemia ganhou força no país norte-americano entre fevereiro e março, quem realmente tomou a iniciativa de proteger as pessoas não foi o governo ou o país, mas os “governos de rede”, isto é, as empresas que compõem a grande indústria tecnológica, como Google, Microsoft, Amazon e Facebook.

“Elas foram algumas das primeiras entidades a declarar que os funcionários trabalhariam em casa – para a proteção deles –; a garantir que funcionários que trabalhem por hora não perderiam o emprego, mesmo incapazes de irem ao local de trabalho; bem como dariam licença parental àqueles cujos filhos não fossem mais à escola”, enfatiza a especialista em política internacional e em relações públicas. Ainda assim, a escritora defende a importância de que as ações dessas entidades sejam reguladas em âmbito internacional.

Fonte:UM Brasil

No Brasil, Halloween ofusca folclore brasileiro

 Gazeta da Torre

Festa do Saci em São Luiz do Paratinga - Foto:Divulgação/Bem Bolado

Essa inversão cultural faz com que não lembremos que o dia 31 de outubro, no Brasil, é dedicado a um personagem genuíno do folclore nacional: o Saci-Pererê, que permanece parcialmente esquecido do nosso imaginário.

Anualmente, comemora-se o Halloween no dia 31 de outubro. “Gostosuras ou travessuras?”, perguntam as crianças ao saírem fantasiadas pedindo doces de casa em casa. A festa, normalmente celebrada em países do mundo anglófono – falante da língua inglesa -, foi importada para a cultura brasileira.

A intensa influência, especialmente norte-americana, fez com que o Dia das Bruxas, como ficou conhecido por aqui, fosse celebrado como mais uma comemoração no calendário nacional. Personagens como vampiros e bruxas, que não fazem parte da nossa cultura, foram incorporados às festividades brasileiras, apesar das importantes lendas da cultura nacional que poderiam ser celebradas, como o Saci-Pererê, menino negro de uma perna só que usa uma carapuça vermelha e fuma cachimbo. Mas o que muita gente não sabe é que, de fato, esse personagem também é comemorado no dia 31 de outubro, data que foi oficializada em 2004 no Estado de São Paulo e, em 2010, em todo o País.

Para entender por que a celebração Halloween tornou-se tão comum no Brasil, apesar da presença de figuras emblemáticas no folclore brasileiro e que fazem parte do imaginário nacional, é preciso antes saber de onde vem a cultura de celebrar essa data e de que formas ela chega até nós.

Origens das festividades

Normalmente, quando pensamos em Halloween, ou Dia das Bruxas, imagens como fantasias, doces e abóboras esculpidas com rostos medonhos vêm à nossa cabeça. Mas não foi sempre assim, como explica Ana Carolina Chiovatto, doutoranda em Estudos Linguísticos e Literários em Inglês pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Segundo ela, as origens das celebrações baseiam-se na sobreposição de diversas culturas, com a presença de festividades e rituais de diversos povos que aconteciam no mesmo período.

Uma das origens do Halloween é o festival celta Samhain, que marcava o fim do período de colheita, e era seguido do festival do Dia dos Mortos, quando, supostamente, aqueles que se foram poderiam circular no mundo dos vivos. A cultura celta contempla diversos povos que viviam na Europa e tinham cultos em comum. “Essas festividades são comumente chamadas de pagãs, um termo enviesado, já que pensamos no paganismo em oposição ao cristianismo como ponto de vista dominante”, afirma Ana.

Com a conquista pelos romanos e a cristianização desses povos, muitos desses cultos começam a ser modificados. “Os festivais celtas estavam relacionados à fertilidade, tanto da terra e dos animais quanto das pessoas, o que, para os cristãos, era considerado bárbaro. Por isso, houve uma tentativa de apagamento desses rituais”, aponta ela.

Os povos cristãos, então, passaram a celebrar seus mortos no dia 2 de novembro e, no dia em que os celtas celebravam o Dia dos Mortos (1º), instituem o Dia de Todos os Santos. “O cristianismo instituiu o Dia de Todos os Santos porque, segundo sua visão, são eles os mortos aos quais devemos prestar culto”, diz Ana. Além disso, para a visão cristã, a ideia de que as almas pudessem circular no mundo dos vivos era extremamente pagã. “Por isso, os cristãos distanciaram-se da celebração celta: o Halloween (31), véspera do Dia de Todas as Almas (all hallows’ eve) distancia-se da sua origem”, ela explica.

Ana esclarece, por fim, que hoje o 31 de outubro possui dois lados: um das religiões neopagãs, que buscam reavivar o sentido do Samhain; e o outro, do festival relido pelo cristianismo, que vai se converter na festa infantil das “gostosuras ou travessuras”, tão comum nos Estados Unidos, com a qual temos contato e, aos poucos, vamos incorporando.

A chegada do Halloween ao Brasil

Festa do Halloween

A população brasileira teve contato com o Halloween, como é celebrado nos dias atuais, por meio de filmes, séries de TV e outros produtos culturais estrangeiros, principalmente dos Estados Unidos. Mas por que os brasileiros decidem celebrar a data  da mesma forma como nos EUA?

Esse quadro pode ser explicado por meio de um conceito esboçado pelo teórico estrategista de relações internacionais, Joseph Nye, o soft power, normalmente traduzido como “poder brando”. Alexandre Ganan Figueiredo, historiador e pesquisador de pós-doutorado pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEA-RP) da USP, explica que esse termo diz respeito a um conjunto de iniciativas não militares ou econômicas, a fim de que um Estado atinja seus interesses de política externa.

“O soft power diz respeito à capacidade de um país ter influência direta em outros por meio de sua cultura, sua capacidade de se projetar como exemplo para o mundo”, ele explica. No caso dos EUA, um exemplo é a “poderosíssima indústria cultural norte-americana”, como produções de Hollywood e de séries de TV, que chegaram ao Brasil logo após a Segunda Guerra Mundial, “praticamente junto com a televisão”.

Outras formas desse poder se manifestam na influência acadêmica, como a leitura e intercâmbio de pesquisadores. Por fim, Figueiredo descreve também como elemento desse tipo de influência a exportação de um estilo de vida ideal, apresentado como um modelo a ser copiado. “Isso é muito forte aqui, seja no consumo dos produtos estrangeiros ou até mesmo copiando seus costumes, como é o caso da comemoração do Halloween no Brasil”, diz.

Ainda segundo Figueiredo, é tanto por meio do consumo da cultura norte-americana, como filmes e séries, quanto pela busca do ideal americano de vida, que a celebração do Halloween vai se instalando no País. “O Dia das Bruxas não possui relação com as tradições e a formação cultural brasileiras, por isso não é usual”, conclui Figueiredo.

31 de outubro: 

por aqui, é celebrado o Saci-Pererê

É a partir da perspectiva de que não há ligações  entre a celebração do Halloween e a cultura brasileira que, em 2003, apresentou-se um projeto de lei para que, no dia 31 de outubro, fosse celebrado no Brasil o Dia do Saci, um dos mais conhecidos personagens do folclore nacional. Em 2004, a data foi oficializada no Estado de São Paulo e, em 2010, no País.

“Além disso, havia uma percepção de que cada vez mais escolas do ensino básico valorizavam o Dia das Bruxas no modelo norte-americano”, aponta. Tendo o Brasil um folclore muito rico, com lendas e histórias vindas da miscigenação entre diversos povos, o que é próprio da nossa formação como País, foi colocado em questão: “Por que não promover uma reflexão sobre o papel da cultura nacional?”.

O Saci é uma lenda que traz tradições principalmente do Sul e do Sudeste do Brasil, mas apresenta características intrínsecas à formação do Brasil. “O Saci é um jovem negro, com seu cachimbo, um elemento indígena. Além disso, traz elementos da cultura árabe, que dominou, durante séculos, a Península Ibérica”, explica o historiador. Os elementos da cultura árabe presentes na lenda do Saci-Pererê manifestam-se na lenda do menino que pode ser preso em uma garrafa e conceder desejos, dispositivos narrativos presentes no ciclo de As Mil e Uma Noites, coleção de narrativas onde se encontra a figura do Gênio da Lâmpada. “A própria lenda dessa personagem representa o amálgama da nossa cultura.”

Algumas cidades do Brasil, sobretudo nos municípios de São Paulo, começaram a fazer festas para essas lendas do folclore nacional no dia 31 de outubro. “Em São Luís do Paraitinga, no Vale do Paraíba, temos a Sociedade dos Observadores de Saci, que todo ano promove a Festa do Saci”, conta Baronetti.

O pesquisador explica que os estudos folclóricos no Brasil, desde o início do século 20, por meio do Movimento Folclórico Brasileiro, e grandes estudiosos, como Mário de Andrade e Edison Carneiro, buscam a inserção desses temas nas escolas. “O Dia do Saci tem o papel de estímulo, de resgate da nossa cultura, e é justamente um contraponto a esse projeto colonizador e imperialista que busca inserir aqui esses elementos alheios à nossa cultura.”

“A ideia não é acabar com o Halloween, mas criar um contraponto para que as crianças, além da tradição estrangeira, já conhecida, passem a ter contato também com tradições e culturas nacionais”, conclui o historiador, resgatando um pensamento de Plínio Marcos, dramaturgo brasileiro, dizendo que “um povo que não ama e preserva as suas formas de expressão mais autênticas jamais será um povo livre”.

Fonte:Jornal da USP