Gazeta da Torre
Resultados do Censo 2022 sobre o Transtorno do Espectro
Autista ainda não foram disponibilizados pelo IBGE
Criada em 2019, a lei 13.861 determina que o Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) inclua perguntas sobre o
Transtorno do Espectro Autista (TEA) nos Censos demográficos. No entanto, dados
sobre a população autista obtidos pelo Censo 2022 ainda não foram
disponibilizados. A escassez de dados precisos sobre a população autista tem
dificultado o desenvolvimento de políticas públicas relativas ao transtorno e a
situação é ainda mais preocupante porque um dos poucos dados conhecidos mostra
um aumento na procura por atendimento de saúde por esta população.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o TEA
se refere a uma série de condições caracterizadas por algum grau de comprometimento
no comportamento social, na comunicação e na linguagem, e por uma gama estreita
de interesses e atividades que são únicas para o indivíduo e realizadas de
forma repetitiva.
Para Mirella Fiuza Losapio, médica psiquiatra e
supervisora de residentes de Psiquiatria no Hospital das Clínicas da Faculdade
de Medicina de Ribeirão Preto (HC-FMRP) da USP, a falta de dados
sociodemográficos e epidemiológicos sobre a população autista, como os que o
IBGE demora a divulgar, dificulta a criação de políticas públicas que facilitem
o diagnóstico e uniformizem o tratamento no País. “A partir do momento que
dispomos de poucos dados corremos o risco de subestimar o tamanho da população
autista. Assim, corremos o risco de disponibilizar poucas horas de médicos especialistas
e de terapeutas capacitados”, diz a especialista.
Segundo ela, reverter a situação depende de políticas
públicas que acabem com o atraso no diagnóstico e nas intervenções, o que
impacta na gravidade do quadro do paciente. “É preciso oferecer acesso mais
rápido a esta população, que muitas vezes fica meses na fila de espera para o
atendimento especializado e, quando conseguem, normalmente acontece em
frequência aquém das necessidades que observamos e que devem ser definidas
individualmente”, afirma a médica.
Aumento nos atendimentos
Para Mirella, o aumento no número de atendimentos se deve
à revisão do diagnóstico desta condição. Em 2013, foi lançado pela Associação
Americana de Psiquiatria o DSM-5: Manual Diagnóstico e Estatístico de
Transtornos Mentais. Por ele, os critérios para o diagnóstico do autismo foram
revisados e tornaram a condição um espectro por conta da diversidade de
sintomas e níveis apresentados. “Pessoas que antes possuíam características
leves e que não eram consideradas autistas a partir dessa mudança passaram a
receber o diagnóstico de transtorno. Isso ampliou os critérios diagnósticos e,
consequentemente, aumentou o número de indivíduos que recebem esse diagnóstico”,
afirma a especialista.
A médica psiquiatra explica que o diagnóstico da condição
é clínico, ou seja, não existem exames que confirmem ou descartem que uma
pessoa tem a condição, e deve ser feito por especialistas em psiquiatria e
neurologia.
“Os serviços públicos se iniciam nas UBSs, que são as
Unidades Básicas de Saúde, através do médico clínico ou do pediatra, que devem
estar atentos aos atrasos no desenvolvimento de comunicação e interação social
e, suspeitando deste diagnóstico, devem encaminhar para centros de atendimento
com especialistas em psiquiatria ou neurologia”, finaliza.
Em nota, o IBGE informou que a coleta do Censo 2022
terminou em abril de 2023 e, desde então, vem fazendo um grande esforço para
totalizar e divulgar as inúmeras informações. Até o momento, foram feitas 16
divulgações dos resultados do Censo 2022 sobre a população total dos 5.570
municípios do País, incluindo idade e sexo, grupos de cor ou raça e
alfabetização. O instituto ainda informa que reconhece que há vários temas
importantes a serem divulgados, como, por exemplo, Trabalho e Rendimento,
Deficiência, Religião e Autismo.
Fonte: Jornal da USP
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