Há memórias que não chegam em silêncio. Elas acendem. Às vezes é uma música, o cheiro de uma comida ou o nome de um craque que marcou uma época. De repente, aquilo que parecia distante volta com força: o rádio ligado na sala, a família reunida diante da televisão, o gol comemorado na rua, a camisa do time guardada com cuidado. Mais do que recordar partidas, recordar o futebol é revisitar momentos de vida (SCHNEIDER; IRIGARAY, 2008).
Toda geração
tem seu craque. Uns cresceram acompanhando Pelé, outros vibraram com o Zico,
Sócrates, Romário ou Ronaldo Fenômeno. Cada nome carrega muito mais do que
estatísticas: guarda histórias, afetos, encontros e experiências
compartilhadas. Assim, o futebol ultrapassa o campo e transforma-se em um
espaço simbólico onde memória, identidade e pertencimento se encontram.
Estudos
iniciais voltados ao envelhecimento mostram que lembranças associadas ao
futebol possuem forte valor emocional e tendem a permanecer preservadas por
mais tempo, inclusive em pessoas com demência. Segundo o Instituto de
Longevidade (2024), memórias relacionadas ao esporte geralmente estão ligadas a
experiências marcantes e emoções profundas, o que favorece sua preservação
mesmo diante do avanço da Doença de Alzheimer. Nesse contexto, o futebol pode
atuar como um importante estímulo para resgatar recordações, fortalecer
vínculos e promover participação social (INSTITUTO DE LONGEVIDADE, 2024).
Nem todas as
lembranças permanecem conosco da mesma forma. Algumas desaparecem com o tempo,
enquanto outras continuam vivas mesmo após muitos anos. Isso acontece porque
determinadas vivências carregam um forte componente emocional, dando origem ao
que chamamos de memória afetiva (OLIVEIRA; PASIAN; JACQUEMIN, 2001).
A memória
afetiva refere-se às lembranças associadas às emoções e situações importantes
vividas ao longo da vida. Diferentemente de informações armazenadas de forma
mecânica, essas recordações permanecem ligadas aos sentimentos despertados no
momento vivido, tornando-se mais marcantes e duradouros (SUPERA, 2023). Dessa
forma, acontecimentos acompanhados de alegria, pertencimento e vínculo
emocional tendem a ser lembrados com maior facilidade.
No futebol,
isso se torna evidente. Muitas pessoas não recordam apenas o resultado de uma
partida, mas o significado que aquele momento teve em suas vidas. O time
acompanhado durante a juventude, o jogador admirado ou uma conquista marcante
podem permanecer vivos na memória por estarem associados a sentimentos, a
relações e a fases da trajetória pessoal.
Atualmente,
convivem diariamente cinco gerações diferentes, e cada uma delas possui
memórias marcadas pelo futebol e pela Copa do Mundo. Os Baby Boomers viveram a
era de Pelé; a Geração X acompanhou nomes como Romário e Bebeto; os Millennials
cresceram assistindo Ronaldinho Gaúcho; a Geração Z vivencia o futebol de
Lionel Messi, Neymar e Kylian Mbappé; enquanto a Geração Alpha, fortemente
marcada pela tecnologia e pela velocidade da internet, consome o esporte de
forma mais dinâmica, acompanhando fenômenos como a Kings League e conteúdos
digitais em tempo real.
Dessa maneira,
cada geração possui uma memória afetiva marcada pelo futebol. Ao refletir sobre
as conquistas do Brasil na Copa do Mundo, percebe-se que a última vitória
ocorreu em 2002, fazendo com que as pessoas nascidas naquele período tenham
atualmente cerca de 24 anos. Nesse sentido, estudos apontam a importância da
intergeracionalidade. Uma pesquisa realizada com 12 idosos e 21 crianças e
adolescentes, durante um período de oito meses, concluiu que “a convivência
intergeracional promove benefícios mútuos, pois permite que as pessoas idosas
revivem lembranças importantes de suas trajetórias, enquanto os mais jovens
ampliam sua compreensão sobre a velhice e aprendem a valorizar as experiências
das pessoas idosas” (MASSI et al., 2016, p. 406).
Além disso,
segundo o G1 (2014), cerca de 700 milhões de pessoas assistiram à abertura da
Copa do Mundo, realizada no Brasil em 2014. Esse dado permite refletir sobre
quantas gerações estavam reunidas compartilhando emoções, experiências,
comemorando gols, vestindo a mesma camisa, colecionando álbuns de figurinhas e
criando lembranças que permaneceriam vivas por muitos anos.
O impacto dessa
convivência geracional promovida pelo futebol vai muito além do simples
entretenimento, fortalecendo-se como um terreno fértil para troca de experiências e memórias. Quando
diferentes idades se encontram para falar de futebol, o jovem não apenas ouve
sobre o gol do passado, mas passa a compreender o contexto histórico e social
da época, impulsionando uma rica transmissão cultural e ressignificando o papel
da pessoa idosa na sociedade. Esse diálogo constante atua diretamente no
fortalecimento de vínculos familiares e sociais, tornando o jantar ou a
arquibancada em espaços de cumplicidade entre gerações compartilhando a mesma
vibração. Nesse cenário, o esporte se estabelece como uma poderosa ferramenta
de conexão emocional, capaz de traduzir sentimentos complexos em uma linguagem
universal. Sob a ótica da saúde pública e do bem-estar, essa inserção social e
o estímulo cognitivo proporcionados pelas lembranças e interações
futebolísticas funcionam como pilares para um envelhecimento mais ativo e
integrado (NERI, 2021). Ao se manterem conectados afetivamente com suas
comunidades e estimulados por meio de suas paixões, as pessoas idosas encontram
no esporte um canal para preservar sua identidade, exercitar funções
cognitivas, combater o isolamento e exercer sua cidadania plenamente (BOREM et
al., 2019).
Em conclusão, fica evidente que cada geração tem o seu próprio craque, formado pelos ídolos e pelas mídias de seu tempo, seja na era de ouro de Pelé acompanhada pela rádio, ou na dinamicidade digital da nova Geração Alpha. No entanto, independente de quem veste a camisa 10 da vez, todas as gerações compartilham o mesmo amor genuíno pelo futebol. As estatísticas e os resultados dos jogos podem se perder nos registros do tempo, mas a memória afetiva gerada ao redor do campo une muito mais do que separa, demonstrando que o sentimento de pertencimento sobrevive aos anos. O futebol, portanto, funciona como uma verdadeira ponte entre tempos e pessoas, um patrimônio cultural e emocional intangível que conecta o passado ao presente e garante que as futuras gerações continuem celebrando a vida, o afeto e as conexões humanas a cada novo apito inicial.
Assinam este
texto as gerontólogas:
Beatriz Bagli
Moreira
Betsabe
Aparecida Jorge Ylla
Nathália Kubo
Barboza
Profa. Dra. Thais Bento Lima da Silva
Para reflexão:
Mesmo quando tudo parece desabar, cabe a mim decidir entre rir ou chorar, ir ou ficar, desistir ou lutar. Cora Coralina
Você sabia que:
Narina
Invertida
Aproximadamente 85% das pessoas respiram por uma narina de cada vez e trocam a cada cerca de quatro horas, tempo que varia de pessoa para pessoa. É o cérebro quem faz a troca. A narina usada será sempre a inversa ao lado do cérebro que estiver mais ativo
Resposta do
desafio de Maio:
Zezinho tem 24
bolas. Dá 4 para Luizinho e ambos ficam com quantidade igual.
Quantas bolas
tinha Luizinho inicialmente?
a) 18 b) 14 c) 16 d) 12 e) 24
Resposta: letra
C.
Explicando: 24 – 4 = 20, se ambos agora ficaram com 20, significa que se Luizinho ganhou 4, antes ele tinha 16 bolas.
Desafio de
Junho:
Alguns meses
têm 30 dias, outros têm 31. Quantos meses têm 28 dias?
Resposta na próxima edição
Serviço:
Método Supera -
Ginástica para o Cérebro
Responsável
Técnica: Idalina Assunção (Psicóloga, CRP 02-4270)
Unidade Recife
Madalena
Rua Real da
Torre, 1036. Madalena, Recife.
Telefone: (81) 30487906 – 999000603 (WhatsApp)
https://www.instagram.com/superarecifemadalena/?hl=en
Referências
Bibliográficas:
-
BOREM, F. S. et al. O futebol como instrumento de estimulação cognitiva
e socialização em idosos institucionalizados. Revista Brasileira de Geriatria e
Gerontologia, Rio de Janeiro, v. 22, n. 3, e190045, 2019.
- INSTITUTO DE LONGEVIDADE. Futebol ajuda
idosos com Alzheimer a resgatar memórias. São Paulo, 2024. Disponível em:
https://institutodelongevidade.org/longevidade-e-saude/saude-mental/futebol-ajuda-idosos-com-alzheimer.
- MASSI,
Giselle et al. Impacto de atividades dialógicas intergeracionais na percepção
de crianças, adolescentes e idosos. Revista CEFAC, São Paulo, v. 18, n. 2, p.
399-408, mar./abr. 2016. DOI: 10.1590/1982-0216201618217515.
- NERI, A. L.
Envelhecimento ativo e solidariedade intergeracional: reflexões contemporâneas.
Campinas: Alínea, 2021.
OLIVEIRA, E.
A.; PASIAN, S. R.; JACQUEMIN, A. A vivência afetiva em idosos. Psicologia:
Ciência e Profissão, Brasília, v. 21, n. 1, p. 68–83, 2001. Disponível em:
https://doi.org/10.1590/S1414-98932001000100008. Acesso em: 21 maio 2026.
- SCHNEIDER, R.
H.; IRIGARAY, T. Q. O envelhecimento na atualidade: aspectos cronológicos,
biológicos, psicológicos e sociais. Estudos de Psicologia, Campinas, v. 25, n.
4, p. 585–593, 2008.
- SUPERA.
Memória afetiva e emoções: qual a relação? 2023. Disponível em:
https://metodosupera.com.br/memoria-afetiva-e-emocoes/
Torcedores se
preparam para a abertura da Copa do Mundo. Disponível em:
https://g1.globo.com/jornal-hoje/noticia/2014/06/torcedores-se-preparam-para-abertura-da-copa-do-mundo.html.

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