Gazeta da Torre
Solenidade está marcada para 13 de maio, em Arcoverde, e
celebra o talento de figuras da cultura popular nas mais diferentes linguagens.
Mestre Inácio Pedro faleceu em julho de 2025 mas o recebimento do título é
prova de que seu legado para o Samba de Coco é inestimável
A cena cultural de Afogados da Ingazeira, no Sertão do
Pajeú, está em festa: depois do Coco Negras e Negros do Leitão receber o título
de Patrimônio Vivo de Pernambuco em 2023, agora foi a vez do Mestre do Coco
Inácio Pedro receber o prêmio de "Notório Saber" da UPE - o que
mostra a relevância do Samba de Coco localizado no Leitão da Carapuça, área
quilombola do Município, para a cultura pernambucana.
O jornalista Leonardo Lemos, que participou dos projetos
de Patrimônio Vivo e Notório Saber, conduz uma pesquisa sobre a origem do Coco
de Roda entre Moxotó e Pajeú e destaca o potencial de nascedouro da
região.
"Inácio é Afogadense de coração, mas nasceu em
Custódia e toda sua família 'Gonçalo' é de lá; ele mudou ainda criança para
Afogados, por volta da década de 1950, mas nasceu na região onde hoje é
Custódia. Mas o mais importante nessa história é entender o contexto da época
onde Quitimbu, distrito histórico do município, era mais importante que a sede
Custódia à época da juventude de Inácio", destaca.
HISTÓRIA
"Quitimbu chegou a ser sede de uma região que
contemplava até Sertânia, quando Sertânia ainda nem era município, e ao redor
de Quitimbu, que concentrava feira e festas religiosas, saíram as famílias
Calixto, que hoje é referência em Arcoverde, e saíram os Gonçalo e Venerando,
duas famílias que migraram rumo a Afogados e Carnaíba e deixaram um legado
enorme para o Coco de Roda na Região: Afogados com um grupo que virou
Patrimônio Vivo, e Carnaíba com pelo menos quatro grupos adultos e dois
infantis que se reúnem em festas e encontros específicos de tempos em
tempos", detalha o jornalista e produtor cultural.
Era em Quitimbu onde se reuniam os bacamarteiros, para se
apresentar pelos sítios da região, e entre uma visita e outra, a festa era
regada por forró e samba de coco. Esse fenômeno fez toda a região brincar o
coco com naturalidade: todos sabem sambar ou cantar as cantigas até hoje.
"Inácio é um alto representante desse fenômeno
porque ele ainda era bacamarteiro: sua surdez veio de sua intensa participação
no bacamarte; ele é literalmente um Mestre que deu sua vida às artes, já que
brincou os folguedos, tanto bacamarte quanto coco, até o último momento que
teve saúde para tal", relembra Leonardo.
"Pai era muito dedicado. No bacamarte só parou
porque não aguentava tantas viagens, mas tinha guardadas as fardas, a arma e
até a carteirinha; e no Coco ele sambou semanas antes de falecer, parecia que
já sabia e queria se despedir, até realizamos uma festa de São Pedro no seu
terreiro muito bonita", relembra Jeane Cecília, coquista e filha do
mestre.
LEGADO
Com o prêmio de Notório Saber, honraria acadêmica criada
pela UPE em 2021 que reconhece mestres e mestras das tradições populares
pernambucanas, a equipe de produção do Mestre espera sensibilizar o IFPE
Sertão, em Petrolina, para nomear o Campus Quilombola a ser construído em
Custódia com o nome do Mestre. "Inácio é o Custodiense mais importante:
seu legado é estudado pelo Governo como referência em Coco; agora veio esse
título, dado na primeira tentativa que fizemos. Ou seja Inácio ainda é o Mestre
de pelo menos uma centena de jovens e adultos que aprenderam com ele cantigas e
histórias centenárias desse Sertão mágico que é a área quilombola que compõe as
divisas de Custódia, Afogados e Carnaíba, então ele segue vivo nessas canções e
nessas pessoas" reflete Leonardo.
“A facilidade no improviso, a capacidade de memorizar as
canções mesmo com pouca leitura e
escrita, a percussão humana que se incorpora ao samba e como esses
elementos se convergem criando absoluta harmonia, garantindo uma autenticidade
marcante e apresentando uma música de alta qualidade”, descreve Isabella
Lumara, produtora cultural e pesquisadora da vida de Inácio - Isabella lançará
em breve um filme sobre o Coco Negras e Negros.
"Ele foi a testemunha ocular desse processo de
migração e consolidação de novos quilombos, e em sua arte cantou os pássaros,
fauna e flora. Cantou até sobre fenômenos como o canto dos sapos na época da
chuva. 'O sapo mora na beira do brejo' é uma das canções mais lindas e
interessantes; mas ele ainda cantou o que acontecia no mundo ao longo do tempo,
como o 'samba do astronauta' e 'águas do Rio Pajeú', essa última uma pérola que
tivemos a honra de gravar em estúdio'. Por tudo isso, esse título é mais que
merecido e agora partiremos para consolidar seu legado através da criação de um
memorial para o Mestre e com seu nome titulando o Campus do IFPE Quilombola",
completa o jornalista.
Inácio Pedro morreu em julho de 2025, aos 78 anos, por problemas respiratórios. Ainda em vida, apresentou-se com Gilberto Gil em 2003 e participou dos mais importantes palcos da música de Pernambuco, como FIG, Festival Lula Calixto, Munguzá, Xerém Cultural e Festivais Pernambuco Meu País. Os homenageados do "Prêmio Notório Saber" serão recebidos em cerimônia marcada para o dia 13 de maio, na UPE de Arcoverde. Acompanhe um pouco do legado da vida do Mestre Inácio @ instagram.com/inacioemiguelmestresdoleitao.
Por Leonardo
Lemos, jornalista
Assessoria Comunicação PE
- anúncio -




