Gazeta da Torre
A moda segue tanto um desejo de diferenciação quanto um
desejo de sinalizar um pertencimento, mas sempre como um movimento social que
expressa algum valor
As tendências da moda são cíclicas e afetadas de acordo
com a realidade da sociedade em cada momento, com influência do contexto
social, político e econômico. No atual cenário, em que a moda parece estar em
constante transformação, o protagonismo das redes sociais intensifica a
dinamização da vida e evidencia a criação e o fim de tendências, além de suas
diferentes origens.
Tendências e as classes sociais
Maria Clotilde Perez Rodrigues, professora do
Departamento de Relações Públicas, Propaganda e Turismo e diretora da Escola de
Comunicações e Artes (ECA) da USP, afirma que a tendência pode ser entendida
como um movimento social que expressa algum valor: elas nascem de um contexto e
geram manifestações, como a moda. Ou seja, tensões do ambiente político,
econômico, social, educacional, tecnológico interferem nessas tendências e,
assim, também alteram as manifestações.
Clotilde explica, também, a relação entre a criação das
tendências e as classes sociais. A professora conta que, historicamente, as
classes privilegiadas ditavam a moda, influenciando as outras camadas da
sociedade, mas que também buscavam se diferenciar. Hoje, contudo, é possível observar
esse movimento acontecendo em outras direções: “Acontecem também movimentos de
baixo para cima, que a gente chama de bubble up. Por exemplo, um movimento como
o funk começa nas classes menos favorecidas, principalmente dos grandes
centros, e eles vão para cima. Elas sobem em direção a camadas que estão numa
condição mais privilegiada, como a gente pode constatar que não tem hoje um
grande evento ou um casamento de uma classe social mais abastada que não
termina em funk. Então esse também é um movimento de baixo para cima”.
Padrão de consumo e pertencimento social
Por outro lado, as conjunturas histórica, econômica e
política também moldam a forma de expressão das pessoas. O professor André
Vereta Nahoum, do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras
e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, comenta que essas mudanças têm a ver com o
acesso a recursos. “Quando os tecidos eram naturais, mas mesmo agora tecidos
sintéticos estão ligados a petróleo, acesso a petróleo, à transformação do
petróleo. Socialmente também. Porque, na verdade, você tem, historicamente, uma
mudança muito grande do padrão de consumo. Se consome mais e mais rápido do que
se consumia no passado. Se comprava pouca roupa, a roupa precisava durar muito
tempo. Hoje em dia é uma roupa feita para muito menos.”
Momentos da história de profundas disputas políticas
foram marcados pela moda e consumo: “Tem o caso célebre do Gandhi, que falou,
‘olha, a luta contra o império, a luta contra a metrópole, tem que ser uma luta
para usar os nossos tecidos e não os tecidos que vêm do Reino Unido'”.
Além disso, Vereta aponta que a moda é sobre inovar em
qualquer forma de expressão em que um grupo busque mostrar que é inovador. “A
gente adere a um estilo de se vestir, a um estilo de música, à expressão
artística, o que quer que seja, porque essa adesão opera como um símbolo de que
a gente está junto ou quer ser visto pelos outros como pertencendo a um grupo
social que também se veste daquela maneira, também ouve aquele tipo de música,
também frequenta aqueles espaços. No geral, hoje em dia, a gente acha que é uma
combinação de ambos. Quer dizer, tem tanto um desejo de diferenciação quanto um
desejo de sinalizar um pertencimento”, explica.
O professor comenta como a sociedade hoje é centrada no
consumo e que, por isso, o jogo da moda é aderido por todas as classes sociais.
Ele destaca, também, a participação de celebridades e influencers promovendo
nas redes sociais esses símbolos de novas formas. “Mas a moda é um espaço muito
bom para a gente ver também como indivíduos se apropriam disso de modo criativo
o tempo todo e fazem combinações, recombinações e bagunçam um pouco o tempo
todo esse jogo. É um jogo dinâmico. Então, sem dúvida, recursos importam, mas a
gente vê o tempo todo pessoas fazendo o que podem com os recursos que têm para
bagunçar um pouco o que poderia parecer mais determinado, e não é tão
determinado assim.”
Fonte: Jornal da USP
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