segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Aluna da rede estadual de ensino, de 18 anos, desenvolveu um detergente biodegradável a partir da casca da PINHA

 Gazeta da Torre

A professora Mirian Carvalho
e aluna Beatriz Rodrigues

Conhecida como a capital mundial da pinha, a cidade de Presidente Dutra, no semiárido baiano, produz, conforme dados da Secretaria de Agricultura, cerca de 20.000 toneladas da fruta por safra anual. Responsável pela maior parte da geração de emprego e renda local, a cadeia produtiva é motivo de orgulho para a população, tendo, inclusive, no mês de abril, a tradicional Festa da Pinha. Como forma de valorizar essa cultura, a professora Mirian Carvalho, do Colégio Estadual de Tempo Integral Leila Janaína Brito Gonçalves, propôs um desafio à estudante Beatriz Rodrigues, de criar um produto inovador que tivesse a pinha como matéria-prima.

As pesquisas da jovem cientista mostraram que a Annona squamosa, nome científico da pinha, contém saponinas, substâncias naturais com propriedades de limpeza e formação de espuma. Foi a partir desta descoberta, que a estudante desenvolveu um detergente biodegradável à base da casca da pinha. “Além do detergente em sua versão líquida tradicional, foi desenvolvida, em um segundo momento, a versão pastosa do produto. Essa variação utiliza basicamente os mesmos ingredientes, com alterações nas proporções, permitindo a criação de um novo formato sem a necessidade de mudança da matéria-prima”, conta Beatriz.

A equipe garante que o produto é exclusivo e inovador. “Em comparação aos detergentes convencionais utilizados no dia a dia, trata-se de um produto totalmente biodegradável, sendo utilizado também sabão neutro biodegradável em sua composição. As próximas etapas envolvem o aperfeiçoamento da fórmula do detergente, a partir de novos testes, buscando melhorar a eficiência, a consistência e a durabilidade do produto. Também está prevista a avaliação do impacto ambiental, reforçando o caráter sustentável da proposta”, ressalta Beatriz.

A professora orientadora, Mirian Carvalho, acredita que a educação científica e empreendedora, que tem permitido que centenas de estudantes da rede estadual de ensino possam fazer ciência na prática, é responsável por “reacender a esperança da juventude”. “Esses projetos não são apenas sobre ciência ou negócios, mas sobre devolver sonhos, fortalecer a autoestima e fazer com que cada jovem perceba que, mesmo vivendo no interior, eles podem transformar sua própria realidade e construir um futuro melhor”, afirma.

Destaque no Encontro Estudantil que reuniu cerca de 10 mil estudantes na Arena Fonte Nova, o projeto tem apoio da professora Indira Neiva, diretora do colégio, que ofereceu suporte e incentivo ao desenvolvimento do produto. Os parceiros incluem produtores de pinha e donos de depósitos da cidade de Presidente Dutra, que colaboraram doando a matéria-prima, o que possibilitou a realização dos testes e a produção do detergente. “Essa parceria reforçou a importância da colaboração entre escola e comunidade, mostrando como recursos locais podem ser aproveitados de forma sustentável e empreendedora”, conclui Mirian.

Vídeo: Irecê Trends

Fonte: Governo da Bahia

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domingo, 1 de fevereiro de 2026

Entre Orelhas: o cachorro, o banqueiro e o Brasil

 Gazeta da Torre

*imagem: “O Cão”. Pintura de Francisco Goya, 1823. Fonte: Museu do Prado. O Cão é uma das “Pinturas Sombrias” de Goya, um conjunto de catorze imagens que ele criou enquanto vivia numa casa chamada Quinta del Sordo, que se traduz como a Villa dos Surdos. Na fase final da sua vida, Goya sofria de transtornos mentais e físicos, toda essa dor e agonia é visivel nas pinturas em questão.

Orelha não devia bilhões a ninguém. Seu único "crime" foi existir no lugar errado, na hora errada, cruzando o caminho de jovens para quem a violência se tornou uma forma de entretenimento, uma performance a ser transmitida ao vivo pelo Discord

O Brasil, este vasto palco de contradições, encena diariamente um drama que oscila entre a tragédia e a farsa. De um lado, a frieza dos números, os bilhões que evaporam em esquemas financeiros complexos, protegidos por um labirinto de liminares e sigilos. Do outro, a brutalidade visceral, o som de ossos se partindo sob o peso de uma violência gratuita, filmada e compartilhada como troféu. Em ambos os cenários, um mesmo espectro assombra a nação: a impunidade, essa entidade onipresente que garante que, no fim das contas, a balança da justiça penderá sempre para o lado do privilégio.

Em um canto do ringue, temos Daniel Vorcaro, o arquiteto do que o próprio Ministro da Fazenda descreveu como a “maior fraude bancária” do país (eu diria banqueira, bancária é trabalhadora, não herdeira). Com o Banco Master, tudo indica que Vorcaro orquestrou um esquema que fez desaparecer algo entre 12 e 23 bilhões de reais, através da mágica contábil de vender carteiras de crédito que, na prática, não passavam de fumaça. É o tipo de crime que não suja as mãos de sangue, mas corrói as fundações da confiança pública (ou deveria) e drena recursos que poderiam construir hospitais, escolas ou, quem sabe, abrigos para os incontáveis “Orelhas” que perambulam pelas ruas.

E por falar em Orelha, no outro canto do ringue, temos sua história. Um cão comunitário, um vira-lata de dez anos que conhecia a Praia Brava, em Florianópolis, como a palma de sua pata. Sua rotina de afagos e restos de comida foi interrompida por uma sessão de tortura perpetrada por quatro adolescentes de classe média-alta. Orelha não devia bilhões a ninguém. Seu único “crime” foi existir no lugar “errado”, na “hora errada”, cruzando o caminho de jovens para quem a violência se tornou uma forma de entretenimento, uma performance a ser transmitida ao vivo pelo Discord (aplicativo usado por gamers).

À primeira vista, os dois casos parecem pertencer a universos distintos. O que a alta finança, com seus ternos bem cortados e jargões impenetráveis, tem a ver com a crueldade suburbana de jovens entediados? Tudo. Ambos são manifestações da mesma doença social, a certeza de que certas vidas e certas ações estão acima da lei. Vorcaro, com suas alegadas conexões políticas que se estendem de Ciro Nogueira a Ibaneis Rocha, move-se em um tabuleiro onde a “facilitação política” é apenas mais uma peça no jogo. Seus advogados tecem defesas, seus aliados nos altíssimos escalões da República garantem o sigilo do processo, e a opinião pública assiste, perplexa, à transformação de um rombo bilionário em uma nota de rodapé nos jornais.

Enquanto isso, os agressores de Orelha, após o ato, embarcam para uma viagem “pré-programada” à Disney, o templo máximo do consumo e da fantasia, como se a brutalidade que deixaram para trás fosse apenas um pesadelo a ser esquecido entre montanhas-russas e personagens sorridentes. Parece que o Mickey não tem cessado de vencer. Lembremos que a juíza Vanessa Cavalieri, que estuda a radicalização de jovens, alerta que o que aconteceu com Orelha não é um ponto fora da curva, mas um evento diário nas profundezas da internet, onde a tortura animal virou commodity, com uma média de 30 cães e gatos mortos por noite em transmissões ao vivo. O mundo é sombrio, brava gente que lê.

O privilégio, em ambos os casos, opera como um solvente universal da responsabilidade. Para Vorcaro, é o privilégio do capital, a capacidade de comprar influência, de contratar os melhores advogados, de navegar pelos corredores do poder com uma desenvoltura que o cidadão comum jamais sonharia. Ele nega a fraude, claro, e chega a ironizar, dizendo que, se tivesse tanto poder, não estaria sendo investigado. É a clássica inversão de narrativa: a vítima, agora, é o bilionário acuado pela justiça. O privilégio se ressignifica como perseguição.

Para os adolescentes, o privilégio é o da classe social e da idade. A certeza de que o sobrenome, a escola cara e a viagem internacional funcionam como um passaporte para a impunidade. A violência que praticam é dessensibilizada, um produto de horas a fio consumindo conteúdo extremo online, um fenômeno que transforma a empatia em fraqueza e a crueldade em status. O privilégio, aqui, se ressignifica como uma “fase”, um “desvio de conduta” de “bons meninos” que “não tinham a intenção”.

Essa história de impunidade não é nova. Ela é a argamassa que une os tijolos da história brasileira. É a mesma impunidade que permitiu que, em 1997, jovens de Brasília queimassem vivo o indígena pataxó Galdino Jesus dos Santos e, mais tarde, tivessem suas penas reduzidas a quase nada. É a mesma lógica que garante que crimes de colarinho branco – Collor e PC Farias que o digam – raramente resultem em algo além de uma tornozeleira eletrônica e uma biografia de superação. A mensagem é clara e consistente: no Brasil, o tamanho do crime e a severidade da punição são inversamente proporcionais ao status social do criminoso.

Vorcaro e os agressores de Orelha são, portanto, dois lados da mesma moeda farsesca. Um representa a violência fria e sistêmica, que opera nas sombras dos balanços e dos gabinetes. Os outros representam a violência quente e explícita, que se manifesta na ponta de um porrete contra um corpo indefeso. Mas a origem de ambos é a mesma: uma sociedade que normalizou a desigualdade a tal ponto que a própria noção de justiça se tornou relativa. Uma justiça para os que podem pagar por ela, e outra para o resto – incluindo os Orelhas, humanos ou não, que têm a má sorte de cruzar o caminho dos privilegiados.

A crônica do Brasil é, assim, a crônica de uma impunidade que se reinventa. Ela troca o terno pela bermuda de marca, o jatinho particular pela viagem à Disney, a fraude contábil pela transmissão no Discord. Mas sua essência permanece intacta, um lembrete constante de que, nesta terra – de palmeiras, sabiás e corpos torturados – alguns são mais iguais que outros. E enquanto os bilhões de Vorcaro se perdem em um abismo fiscal e os ossos de Orelha se decompõem sob a terra, a pergunta que fica, ecoando no silêncio da nossa indignação seletiva, é: até quando?

Por Lindener Pareto, Professor, Historiador, Comunicador. Mestre e Doutor pela USP

Nova troça ‘A Jiboia da Beira Rio’

No sábado (31), a troça ‘A Jiboia da Beira Rio’ desfilou pelas ruas do bairro da Madalena, Recife. Com muita alegria, valorizando nosso Frevo e nossa cultura. A concentração ocorreu na praça Eça de Queiroz (Praça do D'Ávila) com participação do Boneco Gigante do Comunicador Circo Bezerra. Uma festa bonita no bairro da Madalena!

Vídeo:Pernambuco Você É Meu